Crítica | El Mató a un Policía Motorizado - Súper Terror
Plano B
Com a ruptura da vida como se conhecia, nossos propósitos perderam sentido e a reinvenção se tornou inevitável. Mais pop e, contraditoriamente, melancólicos do que nunca, El Mató a un Policía Motorizado segue a vida em marcha a ré.
Depois de tanto caminhar e ver os dias de ouro passarem, é hora de um segundo plano. Assim exclama Santiago Motorizado nas primeiras três linhas do álbum. A depressão intrapandêmica, seguida da sensação de completa estranheza perante o mundo real quando novamente em liberdade, não permitiu refratários.
O compositor que usava do seu livre-arbítrio para contar histórias (o retorno a alguém ou a algum lugar em El Tesoro, por um chamado abstrato; as vivências de uma noite eterna, guiada por sonhos e acontecimentos em La Noche Eterna, do álbum predecessor da banda, La Síntesis O’Konor) não possuía mais as ruas, o futebol, as paisagens e, principalmente, as pessoas para criar. Não sobrou nada.
Entramos, então, compulsoriamente em uma temática humanitária extremamente palpável. Qual o plano B? E se tudo der errado, ou tudo mudar? E se a vida que se está vivendo parar de fazer sentido? O que é do rock sem o público, sem o suor e as lágrimas, sem as vozes desafinadas da plateia que sobrepõem o retorno dos monitores? O que é da música sem o mundo ao redor? Eis então que a verdade que Súper Terror trabalha é a incerteza. O plano B é improvisar até tudo se revelar.
Nesse sentido, descarto a cronologia. Mergulhar em Tantas Cosas Buenas, uma linda miscelânea de contradições, se faz imperioso. A canção, curiosamente, nasceu antes de Súper Terror, quando Santiago trabalhava na trilha de Okupas (série que ainda não vi, então não vou me alongar). Foi pensada, conforme depoimento dele, para uma cena em que os personagens fogem durante a madrugada dentro de um caminhão, ouvindo rádio num momento agridoce - mas que acabou sendo finalizada. Aqui, quando chega a Súper Terror, tem seu significado deslocado.
Instrumentalmente falando, é a faixa mais luminosa e eufórica do repertório da banda. É paralisante e te leva pra dançar. É desiludida por essência mas contagiada por otimismo. É uma faixa de clube completamente depressiva. A bateria oitentista, fazendo-se respeitar pelo forte impacto da baqueta contra a caixa, mistura-se ao sintetizador, que deixa de ser apenas mais uma textura - como nos trabalhos anteriores - e passa a ser um estranho protagonista. As melodias simples e repetitivas ainda estão aqui, como um apego ao passado distante e uma forma de prestar respeito ao público tão devoto. Entretanto, tudo parece mais futurista, melhor temporizado, menos real. Um dia, se voltarmos a nos ver, vamos cantar a plenos pulmões esse refrão, datado mas imortal.
"Tantas cosas por planear
Para no llegar a ningún lugar
No es difícil de entender
Todo esto se va a perder
No me digas que
Las cosas van a estar bien"
Un Segundo Plan escancara o vazio pessoal que permeava cada integrante. A bateria seca, sem alterações, replicando a mesmice, a opacidade sentimental de quem não consegue mais sentir o próprio coração bater em um compasso diferente, é um cartão de visitas inesperado. Não há virtuosismo, tornando-se uma canção de hipnose. Do lado vocal e lírico, um Santiago frustrado segue mesclando essa ideia de movimento mesmo estando completamente perdido: Quiero saber adónde ir / Quiero saber a quién seguir / Todo lo que me importa no existe más / Quiero saber por quién morir.
O Futebol, tão importante pra banda, é mencionado indiretamente como força messiânica capaz de varrer todas adversidades da vida para um vácuo, mesmo que por curto período de tempo, em Medalla de Oro. A composição metafórica, melancólica e nostálgica se impõe instantaneamente, ganhando peso emocional através da linha de baixo e dos acordes prolongados do sintetizador. São idealizações intermináveis dentro de um mundo sabidamente injusto. Milionários dentro de campo escancaram, de forma intensa, uma disparidade financeira e, com isso, a ausência de qualquer possibilidade de ascensão econômica dentro do capitalismo. Acordamos de ressaca e nos separamos daquele sentimento visceral de uma vitória roubada do time favorito, querendo voltar. Sempre querendo voltar.
Na reclusão do próprio quarto, El Universo propõe um momento ultraintimista, em que a solidão se confunde com segurança. Despida das camadas sintéticas e da pulsação que atravessam o disco, paradoxalmente, a canção recolhe o universo à simplicidade das lembranças - primeiros beijos, flores deixadas para trás, palavras que tomam forma de imagem - e ao silêncio de um último momento antes do próximo passo. É um breve intervalo de vulnerabilidade, uma pausa. “Aquela noite especial, agora perdida no tempo, talvez seja melhor esquecê-la”: é o que diz o verso que antecede a morte figurada.
Depois de um lado A impecável passamos pro Lado B do disco com Coronado, a canção mais radiofônica do compilado, e a partir dela que o apelo do álbum se esgota pouco a pouco. Se, na primeira metade do disco, a banda perpetuava seu estilo de repetição por meio de uma abordagem narrativa debruçada sobre as incertezas e o medo, amparada por uma produção elétrica e animosa, estranhamente, tudo o que vem a seguir parece resultado de mera falta de inspiração. Simples assim, e, de certa forma, natural.
De Voy a Disparar al Aire até El Profeta de Fuego, não se consegue sentir nada. Exatamente como era viver um dia após o outro em reclusão, quando os dias se confundiam e a passagem do tempo parecia incapaz de produzir qualquer mudança. O que nos sobra é viver olhando pela janela, imaginando como tudo poderia ser, e, num impulso de consciência, perceber que a repetição, antes um recurso para nos manter vivos, agora apenas reitera o vazio.