Crítica | Westside Cowboy - It Goes On

Cowboy, quando se repete, é por quê tem o que dizer

 
 

Em seu debut, Westside Cowboy afirma e reafirma as migalhas e fagulhas do country de maneira caótica e conturbada.


Como a country music sempre foi um gênero musical de mesmice e inevitáveis influências óbvias, faz muito mais sentido se contentar em aplicar alguns de seus charmes mais flexíveis em outros gêneros musicais. Em seu debut, It Goes On, a banda de Manchester, Westside Cowboy, experimenta exatamente com essa ideia. Este primeiro álbum busca a crueza de guitarras que soam enferrujadas, viradas impossíveis de bateria e um tom de gozação sobre as convenções de um gênero explorado à exaustão.

Kick Stones dá a largada com notas repetidas de um som característico de guitarra cowboy, criando a ansiedade e urgência que moldam a ambiência do álbum todo. A faixa inteira gira em torno dessa correria criada pela mesma nota de novo e de novo - entenda que quando falo em repetição não me refiro a nada entediante de repetitivo! O trabalho das guitarras e o vocal compartilhado são entusiasmantes o suficiente para nos conduzir para a suavidade do final da canção.

Em Paperchains, segunda faixa do álbum, a banda mostra sua capacidade de resgatar momentos cativantes dentro de sua sonoridade caótica. O refrão, “It goes on and on...”, que por si só já é construído por repetição, desvenda a grande virtude do álbum: a capacidade de atordoar o ouvinte com a barulheira e trazê-lo de volta a realidade para ouvir o motivo real da canção. Em uma época com tantos artistas pequenos que desvalorizam a força de um refrão grudento, é bom escutar uma banda que, embora despreocupada, tem algo a dizer que fica na cabeça pelo resto da semana.


Percebo que as canções que mais gosto no álbum seguem de um jeito ou de outro essa mesma fórmula de Paperchains. Elas vão crescendo sem nunca encontrar um ápice de verdade e são momentaneamente interrompidas para dar ênfase ao refrão. Esse refrão é sempre cativante, tanto em melodia quanto em instrumental, e vem com uma dose curta de ternura que logo é atropelada pelo caos de um rolo de bateria e guitarras cruas.

É assim nas primeiras cinco canções até uma quebra em Big Wheels. É uma balada simples e lenta, mas com peso e um refrão muito marcante. A maneira como as harmonias vocais se mesclam com o fundo farto da música traz um sentimento de nostalgia para os meus ouvidos, tornando essa a minha canção favorita no álbum. Além disso, ela começa parafraseando um dos maiores cowboys do mundo, Bob Dylan: “Take the guns away from me, I can’t use them anymore”. Brutal.

A maturidade na estrutura de composição dessa banda merece destaque. Eles se divertem explodindo tudo, mas entendem que um refrão grudento é importante para manter tudo juntinho. A banda montou refrãos que dão ênfase em si mesmos por se repetirem: “Hold on to that thought, hold on to that thought” e “Big wheels keep on turning round and round”. Não há vergonha nenhuma em se repetir quando tem motivo, ainda mais em refrão, que é pra abusar e se lambuzar mesmo.

A segunda metade do álbum destaca bem o meu maior problema com o ele. Eles se interrompem demais, tanto dentro das faixas, com seus inacabáveis movimentos e dinâmicas, quanto por fora, na ordem em que foram programadas. Acho maravilhosa a capacidade da banda de transmutar suas canções entre a plenitude e a quebradeira. Acontece que em muitos momentos esse vai e vem parece um carro desesperado em ultrapassar os outros a toda velocidade, mas que é forçado a frear pelas leis de trânsito. Essa banda é pura angústia automobilística.

A sequência final do álbum é muito prejudicada por essa questão. Pin Up Boys e Coyote explodem de maneira repentina e progressiva, respectivamente, trazendo de volta a frenesi que, a esse ponto, já pode ser considerada marca da banda. Então, Patchwork vem de maneira sonolenta, linda e destoante apenas para ser bombardeada no final.

Take My Leaving As I Love You é uma levada acústica que, de novo, ameaça acelerar a cada verso, mas nunca tem a coragem. E então a faixa final, que tem uma ideia legal com o dancefloor, mas que é totalmente incerta de si e não promete nem entrega o que uma canção que fecha um álbum de começo tão certeiro merece.


É um primeiro álbum de banda que promete. Mesmo com defeitos que prejudicam bastante a experiência como peça completa, fica evidente a criatividade efervescente dos músicos. Acho muito saudável quando escuto um debut desses, cheio de experimento e improviso. É uma pena que tenha tirado tanto da coesão do projeto que, com apenas 35 minutos, acaba se tornando um pouco árduo pela segunda metade. Todas as músicas dele funcionam perfeitamente sozinhas, mas em um contexto maior, são prejudicadas pelos arranjos indecisos e pela ordem em que foram colocadas. 

A banda claramente tem um som próprio bem formulado, mas ainda assim se arrisca indo atrás de maneiras de quebrar as dinâmicas que compõem essa fórmula. Por fim, recomendo o clipe de Pin Up Boys, que é maravilhoso em mostrar o entusiasmo e a criatividade da banda. Espero ansioso o futuro desse country de Manchester.

João Hahn

Amante da música em tempo integral, compositor nas horas vagas. Escrevo sobre arte porque é uma ótima oportunidade de ficar próximo de obras primas. Grande fã de Milton Nascimento e Dylan.

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