Narrativa-ensaio e o objeto
Os filmes sobre ditadura e a representação da dor.
A dor das vítimas da ditadura tem sido objeto do cinema nacional (e sul-americano) nas últimas décadas em diversas formas. Logo ao fim do regime de generais, Que Bom Te Ver Viva encenava as vidas das mulheres que foram presas e torturada. Depois disso, na era da chamada retomada do cinema brasileiro, foram produzidos muitos longas sobre o tema a partir da compreensão que essa era a maneira de resgatar a história das pessoas vítimas do estado sob a justificativa para que nunca mais aconteça. Bom, ocorreu que essa série de longas-metragens edificou um certo jeito representar essa dor: as famílias felizes que são destruídas, o heroísmo dos guerrilheiros e, mais recentemente, a busca pelo passado como forma de sarar as feridas deixadas por ele.
Eis que vejo o filme Ela Foi Ali Guardar o Coração na Geladeira, que não representa a dor das vítimas da ditadura. O longa-metragem de Cristiane Oliveira e Gustavo Galvão apresenta a história de uma mulher que descobre ser filha de uma guerrilheira, presa e torturada na ditadura, e dela mesma, quando recém-nascida, vítima de um sequestro por parte do torturador da sua mãe. A personagem filma a sua casa e seu mundo para entrar em contato com sua sobrinha e contar a macabra relação delas; o que vemos no filme é o resultado dessa experiência autorreflexiva da personagem que pouco a pouco revela um mundo de mágoa e dor.
Partindo de uma premissa narrativa, com personagens, estrutura dramática e um tema que, como disse, foi bastante trabalhado no cinema nacional, os diretores transformam essa história em um ensaio feito pela sua protagonista. E é assim que se nega a representação, as imagens não retratam, não espelham e nem se espalham - elas produzem sentido a partir da materialidade do mundo daquela personagem. A dureza das pedras da casa, o contraste entre o mundo filmado e o encenado (as duas atrizes representam a relação com o mundo, não o mundo), encontra seu ápice exatamente na cena em que a protagonista nos conta sua dolorosa descoberta. Um lento zoom realça diferentes aspectos de uma tapeçaria, distorcendo a imagem que estava lá inicialmente.
Há uma fala da protagonista desse filme que me chama atenção. Ela diz que não gosta de cinema porque as histórias sempre terminam em reconciliação. Ao transformar histórias sobre a ditadura em narrativas, muitos optaram por finais conciliatórios, e mesmo que seja reconhecida a permanência da dor, se exalta a força das vítimas da ditadura. Entretanto, não há nada de natural num estado que tortura mães e sequestra suas filhas, e representar isso seria distorcer essa dor. Ao montarem um ensaio sobre a dor, todavia, os diretores aqui nos permitem experienciar essa dor com toda a fragmentação e o desespero da personagem, sem nenhum tipo de conciliação.