pele e ossos
Entendendo que, às vezes, é necessário dar um passo para trás para dar dois pra frente, Justin Vernon se torna a melhor versão de si mesmo sem abandonar nenhuma das grandes qualidades que tornaram Bon Iver, Bon Iver, definindo uma década e criando um novo gênero.
Já passaram a mão na pele bem devagar? É de uma delicadeza quase surreal. Envelhece a cada segundo, tem alguns lugares mais sensíveis que outros e um pedaço de papel é o suficiente para cortá-la. Debaixo desse fino órgão que serve como barreira protetora viva, reveste tudo que somos e parece um milagre em forma de tecido, nossos ossos são o que sentimos quando apertamos mais forte, quando vamos até o limite. Discrepância absurda entre uma coisa e outra, incoerência entre fragilidade e resistência, entre etéreo e eterno.
22, A Million simula essa experiência de presença intensa e de autoconhecimento assustador. A leveza do falsete de Vernon ainda eleva suas metáforas românticas a essa bela mistura entre algo medicinal e venenoso, com a mesma potência, dependendo exclusivamente da situação e do contexto em que se escuta. Sua primeira faixa repete como mantra “It might be over soon”, onde sua voz desfigurada faz o papel de uma tecla ecoando, facilmente confundida com um simples sintetizador. Dor ou felicidade, euforia ou luto, tudo passa.
Mas, contraditoriamente, nada aqui é ou soa efêmero. Inclusive, parece o disco mais intencional de Justin Vernon. For Emma e Bon Iver, Bon Iver possuem sua magia nessa pulsão que encontram dentro da solidão, como se criar não fosse opcional, mas o único meio de sobrevivência. A não criação seria sua rendição não só como artista, mas como pessoa - e, sinceramente, por tudo que se escuta lá, é difícil diferenciar a morte figurada da morte literal do cantor. 10 d E A T h b R E a s T, como ato de comprometimento com o que a sonoridade pode causar no sistema auditivo e nervoso - e também como exploração das possibilidades rumo ao infinito (22 to a million) -, é completamente diferente do folk unicamente contemplativo que era sua marca registrada. É fragmentada, agressiva e frustrada, quase sem saber se comunicar. Retrato de ansiedade. Eis a magia de Vernon: agravar os sintomas em vez de tratá-los. A doença, por óbvio, aparece mais rápido e, por consequência, a cura também.
Logicamente, ele não abandonaria sua maior virtude: narrar lindas e tristes situações que ficam no intermédio da compreensão coletiva (Oh then, how we gonna cry? / Cause it once might not mean something? / Love, a second glance, it is not something that we'll need / Honey, understand that I have been left here in the reeds) e da pessoalidade absoluta (*Turn around, now you're my A Team / God damn, turn around now). 715 - CRΣΣKS não parece ter nenhum instrumento além da voz do cantor, distorcida das mais diversas formas por meio de seu vocoder, o que faz tudo agir e reagir em uníssono, potencializando toda a mágoa e insatisfação dentro da contradição irracional de alguém que tinha acabado de sublinhar, dois versos antes, que as duas pessoas da narrativa não precisavam passar por uma segunda vez. Ele não consegue se conter. É humano, afinal, por mais que se esconda de todas as maneiras possíveis através de sua produção, e exige com ressentimento que “ela” vire uma última vez - coisa que não acontece e nos dilacera.
A toada do disco encontra conforto nessa constante expansão e recolhimento. Os acordes de piano que ouvimos em 33 GOD e o dedilhado de violão em 29 #Strafford APTS soam como experiências reais dentro de um sonho, que continuam se ramificando rumo ao imprevisível. A primeira tem uma energia rítmica e uma dimensão quase gospel, que flutua entre o eletrônico e o espiritual. A segunda, por sua vez, retorna imediatamente à intimidade, aos instrumentos limpos e puros e, principalmente, ao seu passado. Uma fala sobre Deus, outra sobre uma relação dentro de um apartamento que foi ganhando mais amargura a cada vez que o despertador tocava (Guardo o bilhete que você escreveu e sei que você enterrou todas as suas preocupações com a pensão alimentícia). O sagrado e o profano. Pele e ossos.
Impressionantemente, dentro dessa experiência sensorial surrealista e fenomenal, Vernon, em 21 M◊◊N WATER, dá vida a uma espécie de filme de Kenji Mizoguchi, onde a natureza, o eu e o fantástico se misturam. É a música mais ambiental e meditativa de sua carreira. Menciona a matemática por trás das coisas e a resume à água lunar logo no primeiro verso. Uma surge da necessidade lógica, e a outra, da crença devota, e tudo resulta no mesmo - ou seja, no que a imaginação propor.
E se a montanha-russa é apavorante nas curvas de cabeça para baixo, ela é transcendental quando repousa no topo, onde o tempo também repousa no infinito. 8 (circle) é o resumo de toda a temática do contraste proposta dentro da grande narrativa do disco (Fall and fixture just the same thing), além de uma forte candidata a melhor faixa da carreira do projeto Bon Iver. Quando abre o primeiro verso com Philosophize your figure, What I have and haven't held, uma picape infringindo os limites de velocidade de uma BR nos atinge de frente. Batidas leves e rítmicas no bumbo e no metal da caixa, junto à voz de Vernon em sua versão mais limpa e exposta até agora, são abraçadas pelo sintetizador que simula um órgão e voa sem restrições e sem destino. A música vai crescendo de verso em verso, até esbarrarmos numa parede de saxofones. A última ponte e o outro são de uma conversa pessoal de Vernon com ele mesmo, se interrompendo e se encoranjando. Experiência única, melhor vivida do que dissecada.
"[Ponte]
I will run (all around it)
(Sealing off and on, you’re on your honor)
Have to crawl (carry off and up your seize)
Still can’t— (Along—)
I will run (carry up love along unfettered time)
Now Mona (Now Mona)
[Outro]
Haven’t I locked up my failure (sailing off and ore your odd, your honour)
From the core to the sky
Wouldn’t I be last to see? (carry off and up your seas)
From the door till we die
Deny with love my labour (carry up with love a long)
Was it all I could find (atonements defined)
Keep waking up high"
Ele é o tipo de artista que valoriza o barulho do sopro saindo dos pulmões na mesma intensidade que o do saxofone isolado (45); dos dedos tocando nas cordas, em vez da nota proferida pela guitarra (666 ʇ). 00000 Million, balada semiacústica que encerra o álbum, afasta-se da complexidade eletrônica e das colagens sonoras do restante do disco para entregar uma instrumentação intimista, com um único piano como base de tudo. A última contradição de Vernon está em sua última linha, planejadamente na faixa 10, 00000 million: Well it harms me, it harms me, it harms me, I'll let it in.
Mesmo que rasgue sua pele, mesmo que quebre seus ossos, deixar de sentir e buscar a beleza que pode surgir disso tudo é absolutamente inegociável. Ele toca nas suas feridas e encara suas cicatrizes, sabendo que isso já é parte fundamental de si, e não motivo para fugir.
Ele é o tipo de artista que valoriza o barulho do sopro saindo dos pulmões na mesma intensidade que o do saxofone isolado (____45_____); dos dedos tocando nas cordas ao invés da nota proferida pela guitarra (666 ʇ). Escolhe uma balada semiacústica para encerrar o álbum afasta-se da complexidade eletrônica e das colagens sonoras do restante do disco para nos entregar um único piano como base de tudo. A última contradição de Vernon é justamente sua última linha, planejadamente na faixa 10, 00000 million : Well it harms me, it harms me, it harms me, I'll let it in.
Mesmo que rasgue sua pele, mesmo que quebre seus ossos, deixar de sentir e buscar a beleza que pode surgir disso tudo é absolutamente inegociável. Ele toca nas suas feridas e encara suas cicatrizes sabendo já que isso é parte fundamental de si, e não motivo para fugir.