Crítica | James Blake - Trying Times

pERDER O TEMPO TODO

 
 

Flutuante, o sétimo álbum do produtor britânico unifica o álbum por trilhar os próprios caminhos com honestidade.


Estar se tornou uma habilidade perdida. Ficar, um impossível romântico. O exercício da presença exige, daquele que a tenta, toda a dedicação mental e física — de preferência desfazendo essa binariedade. E, é esperado que se experimente e se remodele, reconfigure, dentro de um mesmo estado.

A música de Trying Times convoca o ouvinte a ser o receptor da presença, enquanto a obra faz o movimento de perder-se inúmeras vezes. Como alguém que aprende a caminhar, transita entre a frustração, a raiva e o pequeno instante de euforia que se desfaz quando o primeiro joelho volta a tocar o chão. É um tatear as paredes no escuro à procura do interruptor, enquanto os olhos vão se acostumando a escuridão e mesmo assim não conseguem formar imagens nítidas. Mesmo não sendo liricamente brilhante, o primeiro trabalho totalmente independente de Blake é emocionante e íntimo.


Entre o abandono (sofrido ou realizado), Walk Out Music soa como uma notícia abrupta que reverbera por horas. Perceber-se sozinho é aterrorizante. Death of Love se utiliza de elementos característicos do R&B para fazer uma canção anti romântica. O ponto de não retorno é aceito, mesmo que o desejo siga lá, se manifestando em sonho.

I Had A Dream She Took My Hand e a faixa título Trying Times, criam atmosfera fantasmagórica de quem é assombrado por um amor perdido. Na primeira canção o inescapável conforto do sono e do que parecia impossível prepara para o choque da segunda. O lento despertar obriga o reconhecimento e superação das mágoas, mesmo que se autoagredindo.

Make Something Up está envolta em desespero. Sem direção, a carta de amor sem destinatário é apoiada pela guitarra rítmica que traz a tona a intensidade de uma frustração reprimida transformada em raiva. A valsa de Didn’t Come To Argue, com Monica Martin, é a reconciliação que não se concretiza. Days Go By, em impressionante releva, marca a virada musical para o hip hop que se concretiza em Doesn’t Just Happen. É clara a ambivalência entre seguir seguir em frente e viver preso na própria mente com as duas canções, deixando claro que não existe saída em linha reta.


Trying Times não sabe se é um álbum estático ou da movimentação. Blake apresenta, liricamente, uma obra tão consciente que as vezes precisa fugir de si mesma por não tolerar a autopercepção. Tematicamente, faz sentido. Musicalmente pode as vezes parecer indefinido, e na surpresa alguma graça se manifesta. Dividido entre o que foi e o que será, entre a reflexão e a ação.




PC Peixoto

Narciso às avessas. Meu personagem favorito da Turma da Mônica é o Do Contra. Estudante de Letras, ciclista amadoríssimo, ouvidor de música e visualizador de filme.

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Boogarins @ Opinião - 02/04/2026