Boogarins @ Opinião - 02/04/2026
10 ANOS DE MANUAL
Como tem se provado, Porto Alegre é uma segunda casa para a Boogarins. As apresentações tendem a lotar e são acompanhadas por um coro gaúcho enfático e emocionado. Não aparenta acaso o início da turnê dos 10 anos do disco Manual (2016) ser aqui.
Passando por todo o disco em ordem cronológica, a banda realiza uma listening party ao vivo. O que gruda na memória é a constante repetição, que como um mantra vai operando pequenas mudanças na percepção do ouvinte. Em cada momento é revelada a novidade de uma textura, um groove ou uma levada que ganha destaque pela insistência.
A conexão entre uma música e outra, quando não anunciada, estonteava pelo alongamento, muitas vezes incessante, de um fluxo sonoro que nem sempre chegava ao público. Era uma experiência que exigia atenção total. E por isso, talvez a escolha de entrar no palco já passada a meia noite não tenha sido a melhor. Um álbum solar como Manual merece um público atento e pronto.
Exceto por 6000 Dias (Ou Mantra dos 20 Anos) é difícil dizer o ponto alto em uma apresentação que desde o início se mantém no plateau. Sendo a apresentação fechada de uma obra tão coesa, sobra pouco espaço hits como Avalanche e Benzin ou San Lorenzo ganharem potência.
Impressionante é a naturalidade e diversão com que a banda toca junto. Constante trocas de gestos e olhares constroem uma gramática física linda de se presenciar, como assistir uma banda de jazz em seus micromovimentos e deixas.
Apesar do destaque natural ao vocalista, os músicos restantes tem seus momentos de destaque. Benke com seus solos, Raphael inserindo o moog no repertório e Ynaiã sendo o coração que mantém tudo em pé.
Após percorrem Manual, a catarse veio pela apresentação dos hits de outros álbuns. O espetáculo a parte se estendeu aproximadamente mais 30 minutos, finalizando a noite quase duas horas e meia da madrugada.
Seguindo para São Paulo, Goiânia e depois Estados Unidos para continuar a tour, Boogarins ainda tem muita estrada pela frente seja com Manual ou outros projetos. O melhor da apresentação é perceber como os trabalhos subsequentes da banda moldaram a performance da obra mais antiga. Mantida a mesma em essência, ganhou maturidade ao mesmo tempo que inocência em brincar com as estruturas já convencionadas.