Crítica | Folha Seca (2025)
Em busca da imagem
Alexandre Koberidze nos desafia a resolver um enigma.
Era o primeiro fim de semana da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, um evento que tem seus aspectos super estimulantes: começa na disputa pela compra de ingressos, a fila para entrar no cinema, a sequência de três ou até quatros filmes vistos no mesmo dia, sessões lotadas, negociações com os amigos para escolher quais sessões ir. A Mostra é, como muitas coisas no nosso tempo, uma experiência fora das redes que é moldada pelo mundo virtual. Um banho de coletividade fragmentada que ganha corpo pelas redes sociais, mas que se realiza, quando a maioria das coisas que acontecem nas redes sociais são desrealizações, na sala de cinema.
E no espaço de cinema da Augusta, uma sala cheia pôde ver um filme que desafia toda a ordem que descrevi anteriormente. Folha seca, da Geórgia, é um raro respiro. A barulheira e pressa para chegar até a sala do cinema são frontalmente desafiadas pela existência do filme de Koberidze, um jogo de três horas no qual um homem procura sua filha por paisagens rurais da Geórgia enquanto nós testemunhamos o excesso de presença: no silêncio e na contemplação do que não vemos imediatamente na tela.
Ao escolher um celular Sony Ericsson de 2008 como câmera, Koberidze mobiliza um primeiro jogo de esconde. Imagens de celular são, hoje, praticamente as únicas que temos acesso. Elas moldam a nossa realidade e nossa relação com todos aspectos da vida. E as imagens de celular não escondem nada. Nunca. Elas transformaram nossa experiência de mundo justamente por essa capacidade, o feed é o instante, tudo que acontece está lá e tudo que está lá acontece. Mas não em Folha seca, ao ampliar uma imagem de uma pequena câmera de 3.2 megapixel para uma tela de cinema, Koberidze revela que, no seu âmago, essas imagens também escondem segredos.
O enigma, a busca pela filha - que por sua vez busca campos de futebol amadores no interior da Geórgia - é o que buscamos na tela. Por três horas contemplamos as imagens do campo como pinturas impressionistas, reformadas pela composição de pixels e pela lenta montagem que estrutura o tempo do mundo de Koberidze. Qual o segredo da imagem? Ela pode decidir o que é um campo de futebol? Pode ocultar um personagem? Pode transformar uma árvore em um borrão verde com um simples zoom manual? Nós, fruidores, que temos que responder essas perguntas postas pelo diretor georgiano.
O filósofo da imagem, Ricardo Fabbrini, no texto Imagem e Enigma, chama de “enigma a imagem que carrega algum segredo, ou mistério em meio à ciranda de imagens sem ‘lastro’ no real”, os simulacros descritos por Jean Baudrillard. Na filosofia da imagem, a imagem-enigma se configura como uma contraimagem, porque se opõe às imagens com excessos de signos que “desrealizam a realidade”, nos termos de Baudrillard, e criam um jogo conosco, os observadores, ou, no nosso caso, fruidores.
E aí a experiência de Folha seca na sala de cinema do Espaço Augusta, em meio a Mostra São Paulo volta à tona. Chegar lá é andar na ciranda de imagens, retomando mais uma vez Baudrillard, sem referencial externo. E acompanhar o personagem do filme em sua jornada é desafiar essa ordem dos estímulos e sensações contemporâneas. Se trata de uma imagem enigma porque “opera como um índice de sobrevivência”, nos termos de Fabbrini, e nos dá indícios que ainda existe um modo de ver, de viver e de fazer cinema, que não foi modificado pela enxurrada de informações que recebemos diariamente.
O fotógrafo Alécio de Andrade, na sua série O Louvre e seus visitantes, captura a relação do público com o enigma, uma relação fragmentada que adota diferentes posturas em relação ao objeto. Esse é o jogo que jogamos com Koberidze em Folha seca. O de observar, de procurar na tela os segredos de cada uma das suas cenas, e assim buscar novas perspectivas para nos relacionarmos com aquilo que estamos vendo. Nesse sentido, é um filme muito sedutor, brinca com as nossas expectativas e esconde suas intenções, nos deixando apenas o imaginar para desvendar as suas imagens, seu enigma.
Essa foto representa a relação proposta aqui para discutir Folha seca. O a-ser-descoberto de uma imagem só pode ser operado pelo fruidor. E, se a imagem é um enigma, ela nos faz tentar descobri-la. E a maneira de descobrir uma imagem é olhar, aceitar o desafio de Koberidze, ajeitar os olhos à sua luz e o coração ao seu ritmo e olhar tudo. Assim como o homem no Louvre faz com a tela: Insistir em perder o olhar na tela até achar o que ali está escondido. Assim que saímos da observação passiva e passamos a criar algo novo na nossa experiência, a fruição. É quando o que estamos vendo passa a figurar na nossa imaginação e mobilizar a nossa vida.
O filme georgiano nos mostra uma viagem com um rumo muito indefinido, a cada momento um novo destino, a cada diálogo o protagonista descobre um novo lugar, um novo campo. E aí vaga pela tela como nós. Em determinado momento, ele fala para seu amigo sem corpo-imagem que os caminhos que percorrem são todos muito parecidos, e que apenas quando se dirige por eles que é possível identificar cada um. Que é precisamente o que fazemos ao tentar encontrar respostas para as perguntas postas por Koberidze, nos perdemos, identificamos o caminho que percorremos e aí seguimos a nossa jornada.
A busca pela imagem que vai solucionar nosso enigma, é a busca pela beleza do mundo. Algo que fica nítido (talvez a única nitidez em todo o filme) no modo que Koberidze usa sua câmera: buscar os campos de futebol, a filha, o amigo que não tem corpo/imagem é buscar a beleza dessas coisas e de todas as coisas mobilizadas por elas que, por sua vez, se espalham pelo mundo, o deixando mais bonito.