Crítica | Fulaninha (1986)

QUE COISA MAIS LINDA

 
 

A história do Rio de Janeiro e a história do Cinema se convergem em obra prima oitentista


Ele tá de olho em ti, ele é cineasta

E não é isso que um cineasta faz? Fica de olho nas coisas? Dá seu olhar para as coisas que outros só ficam de olho?

Fulaninha é, assim como tantos outros filmes, mas mais do que muitos desses tantos outros filmes, um filme brasileiro. Com Brasil menos estampado do que enraizado. Com a brasilidade menos na representação e mais em uma impossibilidade de fuga. Filmado onde foi filmado, com uma câmera à altura do olho que capta a totalidade das pequenas aglomerações e os fragmentos do cotidiano diaspórico de uma cidade dividida entre cartão postal, projeto modernista e projeto segregacionista.

Vemos um grupo de quatro homens que se encontram em um bar. Um é produtor nas horas vagas, outro é cineasta, outro faz filmes pornô, outro não importa. O quadro compreende os quatro, os comprime em suas reuniões diárias e que se somam em algo mais que o hábito. Faz parte de suas naturezas a mistura com a oferta social de Copacabana, onde todo e cada prédio parece ter tanto um espaço de encontro com cerveja servida em copo de vidro como o movimento operacional de abastecimento de cada um desses lugares. Bairro de funcionalismo afetado por ondas tão distintas como o aperto dos espaços, que geram aquele visual de metrópole suja, e a valorização mítica do que se encontra caminhando em direção ao oceano. O filme menos tenta compreender de maneira arquitetônica essa homogeneidade que se alastra por quadras e quadras do que procura encontrar na heterogeneidade de cada microcosmos uma amostra que averigue essa hipótese.

A impressão, caminhando por aquelas ruas, e assistindo a esse filme, é que existe um projeto que foi imaginado, pensado, desenhado e erguido com um propósito, mas que se desenvolveu a partir das particularidades que só o povoamento cotidiano humano pode desenvolver. Penso em Porto Alegre, e como o vigente prefeito Sebastião Melo, o mesmo que alagou a cidade em esterco, tenta sequestrar o espírito da Cidade Baixa e levá-lo ao quarto distrito onde, supostamente, possui negócios imobiliários. Não está conseguindo, e não vai conseguir, porque isso significaria ir do design industrial de um bairro esquecido para a vibrância da boêmia de um bairro central. No Rio, foi o contrário: um bairro pensado para ser a Paris do outro lado do oceano, perceptivelmente “degradado” pela miscigenada população de uma cidade, um estado, um país calorosos demais para tomarem chá em cada esquina.

Geralmente usamos o termo vernacular para descrever o desenvolvimento de arquitetura regionais: em países com neve, tetos pontudos impedem que esta se acumule, por exemplo. Semelhanças ao vernaculismo podem ser observadas no cinema: do culto à figura em Hollywood, ao ritmo paciente encontrado nos melhores cineastas japoneses. Mas nenhuma escola me parece (ou pelo menos parecia) tão resistente ao estilo internacional do que a brasileira. Isso até a Retomada chegar como uma onda que toma a areia de Copacabana e, anos depois, na forma de um pós-cinema ainda em curso, tenta devolver as praias de Los Angeles ou Marseille. Assunto para outro texto.

Ou nem tanto.

Coisa de duas semanas atrás O Agente Secreto era “o” filme nacional, filme que, citação conjunta de vários textos e vídeos que li e vi de pessoas que foram ou não para Recife, “representa a cidade como apenas um natural dela poderia”. Mas de Recife, eu que nunca fui para lá, sinto que vi muito pouco, a não ser que o mesmo Wagner Moura que perambulou por Salvador e andou com as mangas manchadas de ranho no interior do Rio Grande do Sul seja o retrato ideal do recifense. Longe de mim, muito longe, achar que os personagens de determinado local tem de ser interpretados por atores deste local. Parte da beleza da atuação reside, justamente, em emular e mentir. Às vezes, nessa ordem. Minha crítica, ou meu apontamento, está para a maneira como Kleber Mendonça Filho, esse sim recifense, filma a própria cidade. Longe de mim, de novo, dizer qualquer coisa que não possa, mas o que vi foi um filme em um lugar com pessoas que falam de determinado jeito. Mais atenção é dada para encontros de pessoas em cinemas e em bares onde estas entoam diálogos pseudo-sutis sobre assuntos escancaradamente políticos.

É isso que se discute em Recife?

No Rio, eu que já fui algumas boas vezes para lá, quase sempre pelos arredores de Copacabana, posso falar por mim, de maneira puramente empírica, que a energia captada por David Neves, em momento algum, tem qualquer afetação, qualquer pretensão sequer de retratar o “Rio de Janeiro de verdade”. Ele apenas liga a câmera. Apenas dá seu olhar para as coisas que outros só ficam de olho.


Uma dessas coisas, mas que nunca é a principal delas, é a fulaninha do título. Menina adolescente, candidata à Lolita brasileira que passa para lá e para cá como Helô Pinheiro, e a quem os quatro homens olham com um misto repreensível de luxúria, curiosidade e reverência. Um deles, o cineasta, a filma. Ainda não existem celulares, ser filmado ainda pode ser algo cool, talvez?

As ilustrações na parede são o desenho do pensamento que surge a partir da observação. Retrato impressionista é o que ele busca? Os enquadramentos são marcados pelos ângulos que ele consegue encontrá-la nas ruas retilíneas de Copacabana, uma adaptação vernacular do olhar e do material em mãos.

Que mais a dizer de vernaculismo. Um dos amigos do cineasta é sua contraparte pornô, que invade os atos de sexo com a câmera e com ordens para seus intérpretes. Por serem os dois amigos, por irem os dois para os mesmo inferninhos, imagina-se que sejam pares, mas se situam em lugares diametralmente opostos no desenvolvimento do cinema não como arte, mas como maneira de expressão comportamental. Um capitaliza em cima da verborragia da imagem, o sexo como atração gráfica por si só e, em certo momento, agride sua fiel assistente, que conheceu ao pegá-la nua na janela da frente do prédio (há muito o que escrever sobre a visão do filme sobre a posição da mulher na sociedade carioca, tanto que seria irresponsável não abordar tal ótica em sua integridade, o que não é o objetivo desse texto).

Já o outro se permite enamorar pela imagem, o sexo está velado, deduzido da psiquê que se desvenda pelas imagens de uma garota adolescente caminhando, sem sutiã sob as blusas, por ruas vizinhas àquelas onde Jobim e Moraes escreveram um hino de brasilidade que, ao invadir o resto do mundo, fez caminho inverso ao que fazem os filmes que hoje tentam se vender ao resto do mundo.

Ou seja, tem-se em mãos uma espécie de Blow Up (1966) nacional, que faz elo também com Coisas Secretas (2002) de Brisseau: todo o projeto que comentamos antes, que liga a modernização à segregação, velado nas condições particulares de um local que produz algo como a fulaninha, e como é, pelo projeto que comentamos antes, que compreende todo o desenvolvimento do cinema, que o protagonista (ou um deles, ou nenhum deles, pois talvez o protagonista seja mesmo o bairro) tenta desvendar essas coisas.


Talvez seja difícil de compreender à primeira vista como um filme vulgar como esse possa, ou deva, ter lugar semelhante à composição mais famosa de nosso país. Garota de Ipanema, qualquer um percebe, é de uma elegância tingida pela sensação boêmia de se observar uma bela jovem. Mostra um Brasil desenvolto, cultural e artisticamente. Já Fulaninha, com sua baixa resolução, seus cortes abruptos que parecem ter sido feitos como malabarismo para cobrir o que não foi filmado, seu som estourado e seus cenários precários (o que é o puxadinho onde a fulaninha transa com o namorado?) parece o oposto disso. E por isso não o é.

É a própria estética do cinema brasileiro, que passou a se desenvolver a partir dos anos 30, teve um impulso nos anos 60, e agora nos 80 se permite novos desdobramentos. É um filme de pura graça, pois a elegância não nos pertence. E nem a queremos.

Próximo
Próximo

Crítica | Jorge Drexler - Taracá