Crítica | Jovem Dionisio - Migalhas
a troca do excesso pela precisão
Entre guitarras quentes, explosões calculadas e arranjos orgânicos, Migalhas reafirma a maturidade da Jovem Dionísio sem perder o frescor - transformando migalhas em abundância.
Depois de um álbum de estreia já explosivo, catapultado por Acorda Pedrinho(2022) e por toda a irreverência que apresentou a banda ao mundo, a Jovem Dionísio parecia brincar com a própria identidade como quem experimenta roupas em um closet de infinitas possibilidades. Mesmo com hits que já circulavam antes disso, havia ali uma mistura encantadora de brasilidade com guitarras e sintetizadores: um grupo ainda criança, descobrindo seus limites e reinventando performances. O segundo álbum, Ontem Eu Tinha Certeza (Hoje Eu Tenho Mais), veio como uma fase mais “adolescente”, repleta de experimentações, diversidade de gêneros e certa loucura criativa que deixava claro não haver freios para a sede de fazer música. Agora, no terceiro ato, Migalhas(2026) soa como uma reafirmação de maturidade: um disco mais cru, mais escuro, mas ainda quente. Menos preocupado em provar que pode fazer tudo e mais interessado em tocar junto - como banda, no sentido mais coletivo da palavra.
Essa sensação não nasce por acaso. O processo de criação foi mais orgânico, com os integrantes tocando juntos e valorizando o som de cada instrumento, inspirados por produções clássicas e por uma lógica de arranjos vivos - quase como se não houvesse distinção entre ensaio e estúdio. A diversidade instrumental salta aos ouvidos, e a maturidade aparece justamente no equilíbrio. O indie pop e o pop alternativo continuam ali, mas agora dialogam com rock, hip hop, bossa nova, eletrônico e momentos de voz e violão com naturalidade. As experimentações seguem presentes, mas, desta vez, temperam as faixas sem comprometer a unidade do álbum. O resultado é uma atmosfera quente, que faz imaginar shows explosivos e ferventes, repletos de apoteoses sonoras.
Logo de cara, Melhor Resposta quebra uma pequena tradição: nada de introduções descontraídas ou curiosas como nos discos anteriores. A música chega com energia em alta, batidas pop e guitarras marcantes, como quem abre a porta já com um manifesto: a banda não está para brincadeira. E essa talvez seja, de fato, a melhor resposta para qualquer dúvida sobre o que vinha por aí. A maturidade aparece não como contenção, mas como peso bem distribuído. Em seguida, Nada Mais desacelera com uma leveza malemolente, misturando jazz e pitadas de hip hop, enquanto resgata aquela brasilidade que sempre esteve presente. O clima de tranquilidade da faixa funciona como um sorriso de canto de boca antes de o disco voltar a caminhar. Saídas mantém essa fluidez, mas deixa as guitarras flutuarem até uma explosão final que relembra o quanto o grupo curitibano aprecia essas viradas abruptas, como se cada música guardasse uma segunda personalidade à espera do momento certo para emergir.
Em Te Esqueci, o álbum encontra uma de suas grandes alturas. A bateria marcada e abafada dança com o baixo, criando tensão, até que tudo explode em uma espiral sonora de vocal metalizado, efeitos cintilantes e um solo de guitarra que parece abrir o teto. É, provavelmente, a melhor apoteose do disco: a faixa que melhor traduz a alma dessa fase mais coletiva e intensa. É fácil imaginar seu impacto ao vivo, com cada integrante ocupando o próprio espaço e o som crescendo como uma onda. Depois disso, Faz Tanto Tempo entra quase como um suspiro necessário. O violino conduz a música com delicadeza nostálgica, quase como uma valsa, até que o final volta a trazer um choque de realidade, mantendo esse jogo constante entre calmaria e explosão que estrutura o álbum inteiro.
A partir daí, o disco passeia com naturalidade por suas múltiplas roupas. Ontem surge com uma percussão diferenciada e um swing brasileiro que soa como um samba vestido de indie rock, com guitarras ecoando no lugar de uma cuíca imaginária. Beirar Cidades tem clima de fim de tarde nas ruas, baterias com sabor de jazz e um groove constante, provando que a essência da banda continua firme mesmo quando a sonoridade muda de direção.
Talvez a Opção veste a ousadia de uma guitarra propositalmente ruidosa, quase disruptiva. Mas, quando começamos a enxergar beleza na estranheza, a faixa se transforma e abre espaço para a instrumental Trixini Portuali, que ganha corpo completo e funciona como vitrine coletiva. O baixo brilha, os elementos eletrônicos trazem um ar futurista e retrô ao mesmo tempo, e a música mergulha em paisagens sonoras espaciais que ampliam o horizonte do álbum.
O encerramento com Saia de Casa mantém a tradição de boas despedidas. Mais orgânica e intimista, com vocais caprichados e backing vocals em evidência, a faixa retira os excessos instrumentais e deixa no ar um sentimento reflexivo, como se as luzes do palco fossem se apagando depois de um set intenso.
Migalhas cumpre a promessa de um álbum cru e orgânico, com instrumentos muito presentes em cada faixa. Baterias e guitarras brilham tanto nas levadas de jazz quanto nas batidas dançantes e marcantes. O disco equilibra pop e rock, leveza e peso, com oscilações abruptas entre extremos e explosões sonoras que parecem pensadas para incendiar apresentações ao vivo. A voz segue segura e linear, mas o grande destaque está no conjunto: cada instrumento ganha espaço e contribui para um barulho muito bem-vindo.
As migalhas que a Jovem Dionísio nos oferece em 2026 equivalem a um banquete. Não há nada de insignificante nelas. Podem até soar como sobras, ideias à deriva à espera do momento certo para ganhar forma coletiva. Mas, se isso é o que sobra, é sinal de que o menu servido até aqui foi generoso.