Crítica | Frankenstein (2025)
Retalhos mortos
Quando a câmera não se permite descansar, não permite que as cenas venham à vida
Tentei assistir ontem, depois de já ter visto dois filmes e pensando que uma comida enlatada seria mais fácil de digerir antes de dormir. Durei quase 25 minutos.
A ideia era parar aos 10, ainda na cena do navio, mas decidi seguir um pouco mais. Recentemente tenho me aprofundado no estudo da história da arte, e um período que me deixa bastante intrigado é o gótico. Unindo isso a outro tema de interesse, esse mais longevo e intrínseco, que é a tradução de uma arte pra outra e esse pedaço do filme do Del Toro me deixou pensando.
É uma palavra jogada pra lá e pra cá no cinema: o gótico. A impressão é que é só algo ser pontudo, e meio sombrio e meio detalhista além da compreensão que já ganha a alcunha de gótico. Não que esses não sejam traços do movimento arquitetônico, que não necessariamente se traduziram pra literatura ou pra pintura, mas é uma simplificação muito digna do tempo de hoje, onde palavras são jogadas como receptáculos de significado que não necessariamente significam qualquer coisa com o todo de um texto ou pensamento.
Me veio então a pergunta: como seria um filme que busca emular os ideais góticos? Basta só filmar prédios (ou reconstruções de CGI) góticos? Basta escurecer a tela em certos pontos? Ou seria um modo de filmar, de mexer a câmera, de pensar a decupagem e a estrutura do filme? Certamente me parece que é mais próximo deste último. Inclusive, me parece que associar cinema e arquitetura, sem se encarregar da estrutura do filme, de sua articulação, de seu todo, é uma tarefa que beira o inútil.
Eis que chegamos no filme do Del Toro, de um livro (já em si outra adaptação) que foi extensivamente adaptado ao longo dos anos. Tem algo de interessante no belo sendo transformado no grotesco (Jacob Elordi em monstro), mas as coisas interessantes do filme param por aí. Porque se qualquer estilo governa essa aberração do Del Toro é o estilo da Netflix: diversos planos pra representar uma única ação, fotografia lustrosa (não ligo se ele diz que não usou CGI, porque ainda parece CGI), câmera que nunca para de se movimentar em um estabilizador que deixa seu movimento artificial.
Pegamos a cena do capitão do navio falando com o Oscar Isaac (ator potente em um malabarismo de péssimos projetos), onde Del Toro filma uma ação (o velho entrega uma pílula pra ele) por quatro ângulos diferentes. Pra que? Por que?
E daí nem adianta tentar elogiar o filme com o seu uso de referências (um pessoal pegou a imagem da pintura que é a mesma de Barry Lindon), quando a câmera não se permite descansar, não permite que as cenas venham à vida (piada intencional). É tudo calculado de um jeito a retirar do espaço do filme o seu peso, sua textura, seu relevo: há, em Del Toro, um cuidado pelo espaço do filme, mas o seu uso desse espaço o torna apenas imagem.
E a "bela imagem" de 2025, que é a referência do Del Toro pro filme muito mais do que todos os filmes que ele mencionou (impossível a pessoa assistir Rebecca e achar que, com isso, faz alguma homenagem... só se for o remake de 2020 (?) ou se assistiu o filme por uma representação do ChatGPT), é um rosto meio distorcido pela lente angular e um fundo desfocado. Não há respeito nenhum com os cenários, com as obras de arte, com a ornamentação.
Voltando ao gótico: as catedrais góticas tinham, entre seus objetivos, fazer com que os fiéis sentissem que entravam em outra dimensão. Talvez, pensando por esse lado, esse filme do Del Toro até seja meio gótico: ao assistir ele, a pessoa sai do mundo real e entra em um mundo onde absolutamente tudo é digital. Mesmo que sejam humanos e cenários reais, tudo é artificial ao ponto que a própria matéria se transforma.
Não vou terminar o filme, a cotação é pros 25 minutos que assisti.