Sai o cinema e fica o gênero

A crise estética do cinema dito de gênero.

Todo ano eu tento escrever críticas dos filmes indicados ao Oscar. Em 2025, os dois filmes mais divisivos que concorreram ao prêmio: A Substância muito aclamado e Emilia Perez muito odiado foram dois filmes quase idênticos que escancaram a pobreza do cinema contemporâneo e por isso acabei não tendo vontade de dedicar uma crítica inteira para isso. O ano correu e recentemente vi outro filme bastante badalado: Sinners, dirigido pelo Ryan Coogler. E a experiência foi exatamente a mesma do momento Oscar: um filme sem vida, que não demonstra prazer nenhum.

Mas depois dessa terceira experiência entediante com um filme que gerou tanta repercussão fiquei pensando: o que nesses filmes agradou tanto? quais os códigos tocados pelos diretores que motivaram tanta conversa? A resposta que me surgiu foi: esses três filmes (e tantos outros) se ancoram no uso dos gêneros cinematográficos para defender sua existência.

Começando por Emilia Perez e Substância: Duas aventuras de diretores franceses pelo mundo hollywoodiano que fazem muita questão de expor comentários sobre tudo o que há para ser comentado sem a menor capacidade de filmar esses simples pontos de vista. Os dois tentam usar tropes genéricas dos musicais e do body horror respectivamente para posicionar seus personagens contra o discurso cinematográfico: a espetacularização da violência no filme de Audiard e o do corpo da mulher no de Fargeat.

A Substância é um body horror sobre uma atriz de sucesso que, ao envelhecer, é descartada pela indústria que a criou. A escolha do gênero, e do uso escrachado do gore, é uma tentativa de comentário sobre os efeitos nefastos da mídia no corpo das mulheres, seja na pressão estética, no etarismo, no incentivo a procedimentos, etc. O problema é que o filme de Fergerat se preocupa muito com comentários e pouco em refletir sobre a sua própria maneira de ser cinema.

A certeza com que faz todas essas críticas sobre a indústria cultural impede o filme de ser um filme. A câmera jamais mostra uma perspectiva própria, são apenas convenções de gênero e referência aos filmes de terror clássicos, nem mesmo a cena da transformação final da protagonista em um monstro temos a possibilidade de sentir plenamente o terror. São cortes, movimentos, flashes, barulhos que só servem para suavizar a experiência do espectador no momento que deveria estar mais desconfortável.

Emilia Perez é um musical sobre uma mulher trans que comanda um cartel no México e sobre a relação complexa que tem com sua família. O que já falei sobre Substância se repete quadro a quadro aqui com a diferença que os tais dos comentários políticos de Audiard transitam mais as relações da política e do estado com o tráfico de drogas. Mas a falta de interesse dele por esse tema é exatamente a mesma que Fergerat demonstra sobre a indústria no seu filme. Emilia Perez tem uma pressa inexplicável para pular de cena em cena e o diretor não consegue encontrar nenhum momento uma imagem que demonstre aquilo que ele está querendo dizer, apenas cortes e movimentos de câmera (e uns filtros esquisitíssimos).

Na época que vi os dois filmes em um pequeno intervalo de tempo me chamou atenção como eram parecidos. Não escrevi sobre, não pensei muito também, passaram uns meses e vi Sinners. Esse é um filme de vampiro. Mas não só isso, o longa-metragem de Ryan Coogler é sobre músicos negros no interior do sul dos Estados Unidos que se tornam vampiros. 

A coisa toda é filmada sem muita destreza (tem um padrão aqui, né?), o uso exagerado de filtros escuros impede que mesmo as cenas mais festivas, em que a festa dos personagens está acontecendo, ganhem vida. A câmera mão usada insistentemente faz tudo parecer muito terrestre e pouco fantasioso, não lembrando nenhum pouco o exploitation que Coogler quer homenagear. E, mais uma vez, a edição lembra mais um vídeo compartilhado no Facebook alheio do que uma homenagem a qualquer gênero.

Sem conexão nenhuma com tudo isso, estão eles de novo: os comentários. Assim com em Audiard e Fergerat, Ryan Coogler dedica uma parte grande do seu filme a comentários. Sobre arte, sobre raça, sobre cinema, como é de costume nesse tipo de filme, há muito pouco que não é contemplado em um único filme. O gênero, nos três casos, se torna um veículo para uma leitura (muito pobre, diga-se de passagem) da realidade.

O que ocorre nesses três filmes (e em muitos outros atualmente) é que se confunde o parecer cinema com o ser cinema. Se passa muito tempo (os três filmes têm mais que 120 minutos) tentando usar outros filmes para justificar a sua própria existência e pouco efetivamente existindo. Aliás, isso que se disfarça de homenagem a um gênero soa muito mais como uma tentativa preguiçosa de não fazer cinema: a gente pensa em O Iluminado, lembra como gosta do filme e talvez a incapacidade de Fergerat de enquadrar os corredores do estúdio de cinema do seu universo se dilua pela lembrança de quadros melhores feitos por Kubrick.

É unicamente a autoestima desses diretores por estarem supostamente falando de algum tema relevante que torna eles diretores. Não há nenhuma dúvida sobre o que é dito, nenhum questionamento sobre seu lugar no mundo, são palavras vazias, muito mal pronunciadas. Quer dizer: ao final de A Substância o monstro, produzido pela indústria audiovisual, se revela ao entrar no spot de luz. Mas se a questão é o vídeo (cinema, tv, propaganda), não deveria ser a câmera a nos mostrar o monstro? Por que é um spot de luz? Qual a relação do momento climático de Demi Moore com o palco?

Esse tipo de momento demonstra um problema comum aos três filmes, mas que denúncia uma questão dos nossos tempos: quando toda discussão sobre qualquer assunto é feita por frases prontas nas redes sociais não há nenhuma reflexão sobre eles. Fergerat não fez a câmera revelar o seu monstro simplesmente porque ela nunca parou para pensar sobre o que o seu filme estava dizendo. O mesmo vale para o jeito que Audiard usa a cena do jantar em Emilia Perez com a música El mal: há uma lista de denúncias genéricas sobre juízes, políticos etc. Esse momento de Zoe Saldana não significa nada uma vez que tudo que o filme mostra é a relação da personagem título com as pessoas na sua volta.

Então por que fazer um musical? Por que fazer um body horror? Por que fazer um filme de vampiro? Os três diretores mostram um interesse tão baixo em filmar os seus espaços, personagens e até mesmo as suas histórias, que realmente é díficil dizer que em algum momento estão fazendo cinema e não um tik tok. Apenas 

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Artigo | Johnny 316 (1998)