Crítica | CA7RIEL & Paco Amoroso - Free Spirits
SUPERCOMUM
Menos criativos que na versão anterior, a dupla argentina, mesmo cansada, mantém a diversão característica em estética minimalista.
Três meses parece tempo suficiente para “descansar e se curar”. Ca7riel & Paco Amoroso adiaram o álbum novo e a turnê por um tempo tão curto que nem podemos sentir saudades. “As pressões da fama”, e como lidar com elas, parecem justamente a temática desse novo projeto. Sensação de hiato programado.
Depois do retiro espiritual em localização secreta, à convite de Sting, veio ao mundo Free Spirits. O disco segue o tom zombeteiro do duo portenho, porém com poucos momentos de destaque.
A faixa inaugural Nada Neuvo dita o ritmo do álbum. Aparentemente apontando aos músicos que pouco ou nada acrescentam a cena musical, acabam por falar de si mesmos. Talvez uma autocrítica que os permite apresentar uma obra de pouco impacto? Pode ser que sim, afinal nem todo álbum tem o dever, a vontade ou a necessidade de se provar vanguardista ou inovador.
A próxima faixa Goo Goo Gaa Gaa, além de ter a primeira colaboração descartável do disco na presença de Jack Black, fica perdida entre a balada romântica e a peça humorística. O tom onírico destaca como essa vida idealizada de uma família e um romance dentro do padrão estão distantes da vida realmente possível para a dupla.
No Me Sirve Más e Ay, Ay, Ay elevam a primeira metade do álbum. No Me Sirve Más sobre a necessidade incansável de conquistar mais e o desejo sempre insaciável, que não habitam apenas o mundo da fama, mas com certeza são impulsionados por ele. Ay, Ay, Ay lembra uma marcha de carnaval. Fácil de decorar, repetitiva e moralmente duvidosa, o sexo fácil promovido pela abundância econômica é transformado pela atmosfera trazida pela presença de Anderson.Paak. O baixo pesado e a mudança ritmíca completam a desilusão amorosa trágica, mesmo que óbvia.
Muero ganha destaque pela pegada eletrônica que vai de encontro ao frenesi da vida de celebridade. Diverte sem quebrar ou gerar grandes espectativas.
Em uma virada rockeira, impulsionada pelas guitarras de Sting, Hasta Jesus Tuvo Un Mal Día soa como um pedido de desculpas a si mesmos guiados pelo mantra de que para “todo tiene soluccion”
Ponto alto do conjunto de canções, Himno del Mediocre forma par com a anterior Soy Increíble. A última sendo o auge da megalomania de um rockstar, claro com um toque irônico. Mas voltando ao retrato perfeito do que é o momento do duo que é a mediocridade: depois de passar pelo trauma da fama, a canção retrata tanto o que eles tem a entregar enquanto artistas nesse momento. Para o bem e para o mal, entender-se na própria mediocridade é o que pode criar espaço para que algo sublime se crie. Potencial de hit lado B.
Por fim, a canção sonoramente mais densa do álbum, Lo Quiero Ya !, com produção de Fred again.., coloca a dupla de volta a estaca zero. Necessidade de consumo desenfreada, juntamente ao abuso de substâncias, não aparentam dialogar com a busca por calma que advogaram nos últimos meses. Pode ser também que eles se cansaram do silêncio. Ao menos termina o álbum com os motores roncando para uma próxima arrancada.
Free Spirits é o retrato do alternativo estéticamente que, com a sonoridade que surpreende apenas um completo desavisado, ainda fornece alguns momentos dançantes e genuinamente empolgantes. Supercomum, não porque é ruim mas, porque fica entre uma continuidade de Papota, álbum com as gravações do TinyDesk, e um projeto minimalista que não se concretiza. Os cabelos coloridos e a estética “afrontosa” são utilizadas como corante em uma receita de arroz. Não adicionam sabor. A busca por paz e um outro ritmo de vida não convence. Longe de ser descartável, apenas não parece desencontrado.