Crítica | Underscores - u

Onde TUDO ACONTECE

 
 

April Harper Grey, mais conhecida como Underscores, traduz seus desejos em sonoridade digital enquanto fragmenta e multiplica suas próprias personalidades de forma mais objetiva.


Se os átomos nunca colidem de verdade, por que sentimos o toque? O que há de mágico na pressão mínima de uma mão sobre o ombro - ou no encontro acidental de joelhos sob a mesa - que produz essa explosão íntima, quase sagrada, impossível de traduzir em palavras?

Talvez porque o toque não seja contato - mas sim interpretação - que demoramos a defini-lo com exatidão. Os neurônios no seu dedo registram essa força e dizem ao seu cérebro para estimular a sensação que você deseja. Como fogos de artifício, essas sensações irrompem no escuro: iluminam artificialmente a vastidão do universo, sequestram o olhar que antes estavam enclausurados nas estrelas, e desaparecem em seguida, deixando apenas o vestígio da êxtase - breve e preciosa.

Nesse intervalo entre o real e o percebido, nesse mínimo espaço entre o que sentimos e o que de fato acontece - e onde milhões de cenários ocorrem na nossa cabeça -, que U se constrói e estabelece.


A vastidão quase cósmica da sonoridade de Underscores surge aqui mais precisa, contida e intencional do que seus dois álbuns prévios. A ambição de criar sempre esteve presente na discografia da artista. É visível que April é curiosa e quer ver até onde sua arte pode chegar. Todavia, antes seus projetos se desdobravam como uma miscelânea de maravilhas comprimidas em um intervalo de tempo curto demais - um acúmulo tão vertiginoso que nos faltavam sentidos para acompanhar seu ritmo: era como estar à beira da praia enquanto os fogos de artifício já mencionados rasgavam o céu com uma aurora boreal formada ao fundo e, sob nossos pés, a água nos presenteava com bioluminescência. Beleza demais, ao mesmo tempo, em todos os lugares, paralisa e perde força.


Desta vez com nove faixas e pouco mais de 34 minutos, Tell Me (U Want It) chuta a porta com uma April ofegante, suplicante e provocativa. “Ah, you gotta — tell me you want it, tell me you want it” da início ao refrão que flerta com o dubstep e afasta o que se criava de expectativa de um pop mais acústico ou palatável, descortinando o hyperpop carro-chefe do disco, nos lançando a girar e pular como pipocas dentro de um micro-ondas.

Já a visceralidade dos graves em Music atravessa o tórax de dentro pra fora, como uma turbulência interna, enquanto Underscores ignora deliberadamente qualquer fronteira de gênero. Aqui, tudo colapsa em uma uma tentativa de traduzir a euforia da audição musical ao mesmo compasso da paixão: excessiva, confusa, libertadora. “It sound like pop, rock, electronic, rap, rock n' roll / Bass bump, supersonic, won't you take me? (We don't give a fuck) / It's everything (It's everything)”.

O disco revela seu lado mais sensível e delicado a partir de The Peace. A pessoalidade da letra deixa transparecer, ainda que de forma sutil, que sua escrita não busca um alto grau de elaboração ou rebuscamento, mas sim sinceridade. A produção, mais opaca e circular, em loop constante, permite que a narrativa - de alguém progressivamente moldado pela presença do outro - fique sob o holofote.

Lovefield segue a toada da simplicidade. O tênue sintetizador e as harmonias são como chama azul em fogo baixo, que nos cozinham em melancolia aparentemente inofensiva até o último refrão, quando a canção enfim encontra seu ponto de ebulição e começa a borbulhar incessantemente como um disco pop em fervura à la Jessie Ware.

Entre o quase que parece real e a lembrança factual que se dissolve como miragem, os dedos nas cordas do violão em Wish U Well são sentidos como um psicodélico em ação. A calma do instrumento acústico carrega esse efeito entorpecente, enquanto a estética de R&B dos anos 2000 se mistura com elementos esparsos de glitch.

É ali que a última peça se encaixa: “I want to feel the gravity of losing you”. Trata-se de um peso completamente abstrato. April Harper não o vê, não o toca, não o experiencia de forma direta - mas reconhece seus efeitos. Sabe que aquilo que nos transborda ou nos aterra não é exatamente o que é, mas o que sentimos que é.

E ela traduz isso como quem se recusa à apatia da literalidade e vive desse hedonismo observador. Mais no controle do que nunca, contempla atentamente esses pequenos lapsos entre as explosões. É neles, afinal, que a tudo se forma.

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