Crítica | Silvana Estrada - marchita

Guerra perdida: flor que murcha não volta a ficar de pé

 
 

A jovem artista mexicana, isolada em uma casa que ecoa seus pesares mais profundos, recolhe com os pés descalços os cacos de vidro espalhados pelo chão e tenta colá-los com as mãos nuas - gesto tão inútil quanto inevitável.


“Salva-me do ruído e do silêncio”, pede alguém que, por definição, dentro desse universo, não pode ser salva. Marchita é uma guerra perdida - a mais bela e brutal delas. No amor não há empate, e ser de alguém, como anuncia o título da faixa Ser de Ti, é aceitar pertencer ao lado derrotado. Amor é um jogo de perdedores honrados.

Aceitar a derrota é o primeiro movimento real, e talvez o mais difícil. Exige introspecção, mas também convoca o ressentimento. A tensão entre esses dois polos é conduzida com precisão por Silvana Estrada, e qualquer excesso soaria como desonestidade. A maioria das canções nasce dominada apenas por sua voz e pelo cuatro (seu violão de quatro cordas feito por seu pai) - íntimos, crus, confessionais e perfeitos um pro outro. A mágoa ganha corpo geralmente depois dos primeiros refrões, quando violinos, sopros e pianos passam a preencher o espaço acústico, como se o sentimento finalmente encontrasse forma sonora.

A magia em conseguir conciliar esses dois humores (contenção e expansão) é justamente o que faz de Marchita tão poderoso. A construção tem um propósito e tem paciência - e nunca se precipita. O cuatro se agita no início de La Corriente, enquanto lembranças permeiam os sonhos da cantautora:

Me diste un par de canciones y un libro de tu ciudad
Me diste tres vueltas bailando y yo flotando sin pensar
Me diste una nueva corriente, la ruta directa hacia el mar
— La Corriente

O piano entra lento, quase hesitante, apenas sublinhando algumas palavras importantes com notas aflitas. O trompete surge alguns versos depois, aprofundando a maré emocional que sustenta sua voz. Já acordada, ela lamenta ter o mapa mas não ter os meios: o caminho até o mar existe, mas ela não sabe nadar (Cambiaste mareas y corrientes, dejaste tu nombre en el mar / Volteaste la cara sonriente y yo que no supe nadar).

As recordações a afetam mais do que gostaria. Em Casa, colagens ambientais como passos, ruídos e respirações soam como assombrações domésticas. A espacialidade da gravação cria a sensação de que o passado não é passado, mas presente materializado em detalhes gravados do dia a dia. Quando elementos trágicos do tango emergem, com violinos tensos e dramáticos, fica explícita sua exaustão: Mi casa es una estrella que se apaga; Que triste se despide de mi voz.

Dentro dessa quase alienação que é namorar a dor por carência da perda, em seus momentos otimistas Silvana não busca cura, e sim ressignificação. Em Carta, há o reconhecimento de que o amanhã é tão intocável quanto o ontem. Não se trata de apagar o que foi vivido, mas de aprender a existir depois, ou seja, hoje. Se ela não sabe nadar, talvez precisem reinventar o mar. Se a vida útil de uma flor é breve, talvez seja preciso reinventar o tempo - mesmo sabendo que o amor não dura um século e que o rio, como toda experiência, jamais corre para trás.

Propongo mirarnos lento
Y hacer de la piel hogar
Fugarnos a cielo abierto
Rehacer nuestra idea del mar
Volver a inventar el tiempo
Dejar las armas en paz
Dar sentido al movimiento
De un paso que no va atrás
— Carta

O trompete e o sintetizador de La Enfermedad del Siglo retomam a melodia de abertura do disco, Más o Menos Antes, agora de maneira fúnebre. A guerra foi perdida. A flor que murcha não volta a ficar de pé. Não há superação nem redenção, e na dignidade da aceitação que o vaso não pode ser reconstruído com seus próprios cacos, diante do sangue de seus pés e de suas mãos, é onde reside a beleza avassaladora de Marchita.

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