Crítica | Fantasmas de Marte (2001)
Dialética negativa de Carpenter
O último filme de Carpenter em Hollywood é um grande western.
John Carpenter é um dos principais leitores do mundo contemporâneo que filmou em Hollywood. Seu trabalho em torno da cultura norte americana é particularmente relevante ao articular conceitos sociais e econômicos nas suas histórias e a ter pesadelos com a sociedade do capitalismo tardio. Seu filme Fantasmas de Marte, de 2001, foi a última oportunidade que teve de trabalhar em Hollywood, já que o filme foi um fracasso de bilheteria. Se trata de um western sci fi, a história de um time de heróis e vilões tentando sobreviver em uma colônia humana em marte, onde um fantasma que possui seres humanos é solto e ataca os personagens da história.
A trama começa com uma equipe policial liderada por Natasha Henstridge, indo para um campo de mineração fazer o transporte de um criminoso interpretado por Ice Cube. Apesar de ele ser o antagonista inicialmente, com o tempo descobrimos que há uma coisa muito sinistra acontecendo no planeta. Ao cavar mais fundo atrás dos minérios, os humanos libertaram um fantasma que se espalha pelo ar e infecta a mente das pessoas e assim constrói um exército de infectados que, em última análise, protege marte dos humanos.
A estrutura é típica de um western, uma pequena cidade de mineração, uma xerife, um criminoso e o avanço colonial sobre o território inexplorado. Já desde o começo sabemos que a protagonista será a única sobrevivente, uma vez que a história é contada em flashbacks enquanto ela depõe sobre os eventos que vemos acontecendo. Os eventos são organizados em torno de algumas sequências de ação em que a protagonista se mostra cada vez mais capaz de sobreviver e evoluir. Quer dizer, em qualquer cirscunstância, a policial sai em uma situação nova, mais favorável do que na anterior.
Até que vem a revelação sobre os fantasmas de marte. A força imparável que ocupa corpos e quando o hospedeiro é morto infecta outra pessoa. Apesar de Carpenter transformar a protagonista em narradora, ele também busca a perspectiva do fantasma, a força que não tem corpo mas que segue e captura seus alvos. Ao fazer isso, ele nos permite duas visões diferentes do mundo, humano e marciano fantasma, heroi e vilão, colonizador e colonizado.
Assim como a narração que concilia tempos se movimentando de maneiras diferentes, a dinâmica do conflito também se movimenta em um sentido próprio, diferente do western. A cada novo embate, a cada nova vitória, o grupo que acompanhamos perde mais membros e eles estão mais longe de onde estavam quando começaram. O resultado da conta sempre é menor, a cada vez que tem um embate, e mesmo assim eles sempre cumprem seus objetivos. A noção de movimento de Carpenter em fantasmas de marte se opõe a do western porque os conquistadores estão perdendo, porém ele executa isso sem recorrer a paródia, é apenas o movimento da sua história. Ao invés de avançarem, eles recuam.
Enquanto se avança sobre uma mina, se acha uma força antagônica e a partir daí toda ação dos humanos em marte vai para trás. O sentido, porém, não é reacionário. Os fantasmas de marte não estão reestabelecendo o status quo, estão estabelecendo uma nova ordem no seu planeta, expulsando os colonizadores mas usando suas ferramentas para criar uma nova realidade. É um movimento negativo porque opera pela subtração, mas não deixa de ser um movimento.
Carpenter faz uma das melhores leituras de western que já vi. Como grande diretor de gênero e como comentarista político dos Estdos Unidos. Lá, em pleno 2001, ele já falava da invasão ao Oriente Médio pelo que era: uma aventura do capitalismo e da violência. E fazia isso mostrando o caos e a destruição a que isso levaria. Foi sua última aventura em Hollywood, mas é tão bom e inteligente quanto o melhor que sua obra tem para oferecer.