Crítica | A$AP Rocky - Don't Be Dumb
Outdoor de LED
Voltando de viagem, uma família de quatro pessoas segue dentro de um carro. Dois adultos na frente; duas crianças no banco de trás. No caminho, se deparam com um enorme e reluzente painel de LED à beira da estrada, anunciando de forma interativa e pomposa algum produto destinado a falir antes do próximo ciclo olímpico.
As crianças ficam estupefatas. As luzes capturam seus olhos, os movimentos sequestram sua atenção. Não há mensagem real - tampouco chega a ser dopamina barata - mas ainda assim é diferente do velho outdoor de papel que elas já aprenderam a ignorar. Um dos adultos permanece indiferente: só quer chegar em casa. O outro, com mãos firmes no volante, conhece as consequências ambientais daquele excesso luminoso, se incomoda por um instante e murmura, quase resignado: que coisa desnecessária.
ASAP Rocky é um ícone cultural. Sua influência musical é inegável, mesmo que, conceitualmente, jamais tenha sido um grande rapper. Nunca se destacou propriamente pela entrega técnica das rimas, mas pela aura que construiu ao redor de si. Beats lentos, herdados do boom bap noventista e filtrados por seu hedonismo urbano, texturas repetitivas e psicodélicas, tudo colaborou para a construção de uma identidade singular. Sua beleza, sua forma de se vestir, e sua presença num momento em que o rap gangster lutava para não desaparecer enquanto o trap redesenhava o futuro do gênero, transformaram Pretty Flacko não apenas em alguém original, mas em algo disruptivo.
Oito anos desde seu último lançamento oficial, três filhos com Rihanna e uma sequência interminável de leaks pelo caminho - “It's been a lil' while since I been in the league / A couple lil' trials, couple of leaks” - Don't Be Dumb surge como um retorno que deveria soar grandioso. A capa, inteiramente desenhada por Tim Burton, carrega um peso imagético que promete densidade conceitual mas que, mais tarde, descobrimos que seria apenas um delírio exibicionista sem extensão artística nenhuma ao conceito do disco - se é que esse tem um.
Desde o início, o álbum se apresenta como uma contradição: tenta se posicionar contra o mundo vigente, mas escorrega numa ingenuidade performática que mais confunde do que comunica.
A síndrome de grandeza aparece cedo. Um skit interrompe o momentum construído por HELICOPTER, faixa que, embora soe como mais um derivado de tudo que foi realizado dentro do trap estadounidense dos últimos cinco anos, apresenta um Rocky incomumente mais energético no seu flow. A produção aposta na fórmula básica do gênero - sirenes em loop, linha de baixo saturada - que funciona, sendo hipnotizante dentro da simplicidade e possuindo a energia exata para inaugurar a roda do baseado numa sexta-feira em casa com os amigos. Contudo, em INTERROGATION (skit), sua curta declaração soa como o motoqueiro que ronca alto o motor para reafirmar sua presença numa rua cheia de carros com os vidros fechados e os rádios ligados, o que acaba por não impressionar ninguém, apenas incomodando os ciclistas e os pedestres.
“Ni**a, I’m enhancin’ my shit
I always look for the good
And don’t tell me how my production is and how this motherfucker sound, ni**a
The buzz is about me
They talk about me”
STOLE YA FLOW recorre à mesma fórmula já comentada para provocar Drake - e o faz de forma divertida -, mas chega tarde demais para soar relevante. STAY HERE 4 LIFE, primeira grande colaboração do disco, abandona o trap e flerta com o pop numa tentativa de falar sobre amor. A estrutura excessivamente repetitiva, porém, esconde suas linhas de teclado sob uma base que poderia ter sido gerada por qualquer aplicativo de inteligência artificial. No processo, os belos vocais de Brent Faiyaz que inicialmente chamam a atenção, começam a ficar saturados pela repetição - um pássaro raro transformado em papagaio.
Ainda assim, são as participações que concentram os momentos mais vivos do álbum. STFU com Slay Squad e Chance The Rapper, entrega um dos trechos mais experimentais do disco: um banger de textura industrial que evoca ecos de Death Grips. A agressividade do grupo, em contraste com a postura relaxada de Rocky, cria uma dinâmica interessante - mas também reafirma algo essencial sobre seu modus operandi: nunca correr riscos realmente desnecessários.
ROBBERY, ao lado da estelar Doechii, finalmente introduz instrumentação acústica numa troca provocativa e elegante entre os dois artistas. No entanto, o efeito colateral é inevitável: os acordes limpos de piano e o contrabaixo expõem, com ainda mais clareza, o quão mal mixado e comprometido de boas escolhas o disco é (mesmo com seus mais de 40 produtores).
Já perto do fim, FLACKITO JODYE respira Motomami em sua produção e traz Tokischa, Rapper Dominicana, que rouba a cena com sua presença magnética e extrai um dos melhores momentos de Rocky. Ainda assim, a ironia persiste: uma das faixas mais fortes da setlist sequer estava no corte original, sendo adicionada uma semana após o lançamento.
Como o painel luminoso à beira da estrada, Don’t Be Dumb captura o olhar, promete qualquer coisa e desaparece sem deixar rastro. Há forma, há brilho e há certa presença inerente ao corpo. Contudo falta necessidade, falta direção, falta um porquê. Os outdoors do passado pelo menos tinham estilo próprio. Precisavam durar. Precisavam convencer.