Os 10 Melhores Álbuns hispanohablantes da década de 2020

Impulsionados pelo recente anúncio do show de uma de nossas artistas favoritas do ano passado, Silvana Estrada, no Theatro São Pedro (Porto Alegre - RS); e pelas incontáveis premiações e o sucesso comercial do artista portoriquenho Bad Bunny no último ano, nos perguntamos: “O Brasil vive de costas para a América Latina?”.

É impressionante a baixíssima quantidade de falantes de língua espanhola no país, assim como o desincentivo ao aprendizado. Buscamos as soluções para nossas questões (quem lembra dos chefes do executivo municipal e estadual, Sebastião Melo e Eduardo Leite, indo até os Países Baixos para procurar soluções após as enchentes de 2024?) e as tendências culturais para a próxima estação em países europeus e do norte global. Seja pelo projeto colonizador estrangeiro ou pela própria tendência isolacionista de nossa distribuição populacional e dos centros políticos de poder, a autoidentificação do brasileiro comum enquanto latinoamericano por muitas vezes é inexistente.

Claro que muitas são as questões histórico-sociais para esse tipo de fenômeno, e não é nosso objetivo destrinchar elas. O que podemos fazer, enquanto espaço cultural e de divulgação, é promover aquilo que consideramos o melhor do que é feito do outro lado da fronteira. Por isso, afinando os ouvidos e buscando aquilo que nos une e desperta a curiosidade, realizamos uma lista com 10 dos melhores álbuns hispanohablantes dessa década que inicia sua segunda metade.

Apesar dos distintos estilos representados nunca é possível encaixar em uma lista tudo aquilo que merece destaque. Procure conhecer também: 

  • Calambre (2020) - Nathy Peluso

  • no mires atrás (2024) - sunlid

  • Los Thuthanaka (2025) — Los Thuthanaka

  • Suave Pendiente (2023) — Niños del Cerro

  • Viento 1 (2024) — Camila Bañados

  • Hicimos Crecer un Bosque (2024) — Fin del Mundo

  • Deseo, Carne y Voluntad (2025) - Candeladro


10

Dillom

“POST MORTEM”

(Argentina - 2021)

Cru e eufórico; violento e sádico. O disco de estreia do rapper argentino é como uma aventura adolescente em que tudo dá errado. Assassinatos e corações partidos. A narrativa percorre os dramas comuns da vida jovem, com uma dramaticidade apocaliptíca, em um álbum de trap com tempero folclórico. Assim como a representação da megalomania de um que se já crê o grande astro da música mundial, o disco é expansivo, com momentos de pausa que catalizam a tensão e multiplicam os danos.

Por PC Peixoto


9

Lido pimienta

“miss colombia”

(Colômbia, 2020)

O centro vital de Miss Colombia pulsa através das raízes de sua criadora: profundas, antigas, como se narrassem, por meio da sonoridade, histórias que a maioria dos livros jamais poderiam alcançar. Todavia, o que vemos é essa linda árvore florida, que não para de crescer e embelezar o mundo com suas cores.

O álbum abraça justamente essa fusão delicada entre o visível e o invisível, esse ponto médio entre misticismo e humanidade, que parece sempre nos escapar e que não nos pertence por completo, sendo visceralmente ligado às memórias de um corpo, à história de um país e à continuidade de uma cultura.

Por Pietro Stefani


8

Milo j

“La vida era más corta”

(Argentina, 2025)

Originário das batalhas de rima, o artista de apenas 19 anos explora para atrás e além os ritmos que formam o imaginário nacional e seu próprio. Entre violões, acordeões e bumbos tradicionais argentinos, o disco é uma coleção, quase um trabalho de pesquisa, que aglomera ídolos do passado com parceiros do presente.  Além da sonoridade transitar entre rumbas e milongas, participações de artistas como Trueno e AKRILLA revitalizam o folclore sem abrir mão da tradição. O tom sépia e o dente dourado são dicotomias que se complementam. Extremamente íntimo e sentimental, Milo J se apresenta como poeta e contista. 

Por PC Peixoto


7

C. tangana

“El madrileño”

(Espanha, 2021)

Entre a melancolia e o tesão, El Madrileño explora a diversidade musical que se encontra em qualquer metrópole. Mesclando funk carioca, bossa nova, flamenco, com rock e música pop, o álbum idealizado por C. Tangana é uma construção coletiva de excelência. Artistas como Toquinho, Jorge Drexler e os Gipsy Kings “sobem ao palco” com Omar Apollo e Ed Maverick. Com a voz levemente anasalada o cantor explora temas como o ciúmes, a saudade, a auto-insuficiência em um retrato das facetas frágeis e cruéis da intimidade.

Por PC Peixoto


6

Hesse kassel

“la brea”

(Chile, 2025)

Inspirada pela cena Windmill e pelos caminhos abertos por grupos como Black Country, New Road, Black Midi e Maruja, a banda chilena avança um passo além no que diz respeito à intensidade e sinceridade. A atmosfera é rarefeita, como caminhar entre montanhas de altitude extrema, onde o ar falta a cada inspiração e o próximo passo exige presença absoluta. Ainda assim, é nesse terreno hostil que surge a adrenalina: um estado de alerta puro, quase eufórico, onde a vida parece pulsar no seu grau máximo.

É cru, é emocional, é tecnicamente maravilhoso e vertiginoso e, acima de tudo, é urgente.

Por Pietro Stefani


5

rosalía

“motomami”

(Espanha, 2022)

Exatamente o álbum que precisávamos depois da pandemia de COVID-19. Após esse período de tanto isolamento e autoobservação era impossível que as coisas não se convertessem em frenéticas, extrovertidas e absolutamente ímpares. O terceiro álbum de Rosalía reúne ritmos como o dembow e o reggaeton com o eletrônico, mostrando que  a artista não tem nenhuma intenção em se prender em uma identidade física. A voz exuberante da cantora conduz a obra pautada no excesso conseguindo proporcionar a medida perfeita de intensidade entre as faixas. Divertidíssimo e dançante, o álbum pode ser desafiador para os ouvidos desacostumados, mas se revela uma ótima surpresa faixa após faixa.

Por PC Peixoto


4

Mon laferte

“autopiética”

(Chile, 2023)

Qual é o limite da criatividade? E do erotismo? A morte, em sentido literal e figurado, surge aqui como uma possível resposta. Em Autopoiética, rompendo com os rótulos que até então pairavam sobre sua carreira, Mon Laferte morre e renasce a cada faixa, sempre em metamorfose. Cada canção revela uma nova encarnação de si mesma: das baladas clássicas, sustentadas por orquestras expansivas e por sua potência vocal, à cumbia em que sua voz surge tão distorcida que quase deixa de soar humana; da pacificidade da bossa nova à pulsação sintética e sensual da EDM. Ainda assim, não há impulso algum de acumular estilos como demonstração de virtuosismo; o que emerge é um organismo vivo - um corpo em mutação que muda de forma conforme seu desejo.

Por Pietro Stefani


3

bad bunny

“debí tirar más fotos”

(Porto Rico, 2025)

Bad Bunny nunca precisou abrir mão de seu apelo mainstream para falar de sua cultura e de seu país. Ainda assim, em um momento político mundial extremamente perigoso, marcado tanto pelo movimento anti-imigração do trumpismo quanto pelos recentes reveses da esquerda na América Latina, fundir tudo o que o tornou popular musicalmente e ao mesmo tempo dar forma a um manifesto profundamente politizado - atravessado pela história, pelas feridas e pela identidade de Porto Rico e do continente - eleva este disco a outro patamar, de uma densidade simbólica que servirá de estudo por muitos e muitos anos. E, ainda assim, como som e como experiência viva, o álbum é um baile inesquecível, celebração, movimento, corpo e memória em vibração contínua.

Por Pietro Stefani


2

sILVANA ESTRADA

“VENDRÁN SUAVES LLUVIAS”

(México, 2025)

Entre ausência e memória, o álbum percorre a delicada travessia de quem aprende a coexistir com aquilo que não volta. Os arranjos respiram junto à emoção: cordas, sopros e violões não apenas acompanham sua voz, mas compartilham seu peso, suas hesitações, suas pequenas epifanias e suas insuportáveis saudades. Como poucos discos, Vendrán Suaves Lluvias compreende o luto como um processo vivo e sobre como passado, presente e futuro estão entrelaçados. A ferida torna-se janela; a dor que era urgente transforma-se numa fotografia do ontem e, ao final, o disco se revela um conselheiro atemporal sobre perdas e tudo o que permanece delas.

Por Pietro Stefani


1

Natalia lafourcade

“de todas las flores”

(México, 2022)

De sabor agridoce, a experiente cantora mexicana apresenta sua faceta mais introspectiva e existencialista. A obra é recheada de momentos tenros, que soam entre ingenuidade e sabedoria. É como se tivesse atravessado toda uma estrada apenas para fazer a viagem de volta. 

Habitando um mundo romântico colorido pelas cores da música folk mexicana, com uma pitada jazzistica nos vocais, todas as músicas criam o espaço perfeito para a escuta da voz, dos intrumentos e do coração do próprio ouvinte.

Por PC Peixoto


Anterior
Anterior

Crítica | A$AP Rocky - Don't Be Dumb

Próximo
Próximo

Crítica | A Empregada (2025)