50 anos de meus caros amigos (1976) - chico buarque
Um disco de memória e de presença
Há aproximadamente 50 anos, em 1976, era lançado o disco Meus caros amigos, de Chico Buarque. Em Meu caro amigo, última canção da obra, canta:
“Meu caro amigo eu bem queria lhe escrever
Mas o correio andou arisco
Se me permitem, vou tentar lhe remeter
Notícias frescas nesse disco”
Como se sabe, trata-se de uma carta endereçada a Augusto Boal, importante dramaturgo brasileiro, que estava no exílio. Na canção, uma voz apressada faz uma série de considerações sobre o que transcorria no país em meio à ditadura militar. Condensando aí uma constante do álbum, Chico deu notícias aos brasileiros de sua própria situação nacional, e, no processo, percorreu diversas vozes e lugares. As canções carregam seu tempo com ironia e astúcia, sabendo colocar-se em seu contexto adverso sem curvar-se a ele, o que nos legou obras que revelam mais do que aparentam. Cinquenta anos depois, guardam relevância e atualidade para a compreensão de nosso processo histórico e social, além de cativarem pela singeleza de sua complexidade, isto é, são belíssimas canções que não se esvaziam no prazer instantâneo; restam potentes, na medida em que permitem sempre novos sentidos, novas atenções.
Carregam, então, e com isso matizam o disco, o seu contexto histórico. A partir de 1975, iniciava-se um processo lento, gradual e controlado de abertura política, comandado pelos generais Ernesto Geisel e Golbery do Couto e Silva. O regime militar se desgastava internamente e via crescer a insatisfação de setores que o apoiavam, especialmente motivada pelo esgotamento do “milagre econômico”. Junto a isso, o combate da oposição à ditadura retomava força no espaço público, unindo grupos sociais dos mais diversos - desde organizações de bairro, movimento estudantil, imprensa alternativa até órgãos institucionais - em função da luta pelas liberdades democráticas. Dessa maneira, já se podia, de alguma forma, vislumbrar o fim do sufoco. O disco dá som a esse momento, mas segue atento aos perigos que ainda vigiavam e ameaçavam - por exemplo, na vigência do AI-5, nos assassinatos do jornalista Vladimir Herzog, em 1975, e da estilista Zuzu Angel, no mesmo ano de lançamento de Meus caros amigos.
Se olharmos com olhos do presente, há uma questão curiosa nesse álbum. Pelo menos sete das dez faixas foram encomendas ou se referiam a outros contextos daquele período. O que será (À flor da terra) foi composta para o filme A dona flor e seus dois maridos (1976); A noiva da cidade e Passaredo, para o filme A noiva da cidade (1978), com direção de Alex Viany e roteiro de Humberto Mauro; Vai trabalhar vagabundo, para o filme homônimo, de 1973. Mulheres De Atenas era para a peça Lisa, a Mulher Libertadora, de Augusto Boal, baseada em Lisístrata, de Aristófanes; Você vai me seguir, originalmente parte da peça Calabar: o elogio da traição, do próprio Chico Buarque e de Ruy Guerra; Basta um dia, feita para peça Gota d’água, também da autoria de Chico. Não se trata, portanto, de um disco “puro”, se é que isso exista. Há, aqui, diálogos e interferências evidentes do que lhe é externo.
Embora essas canções tenham inevitáveis laços com seu contexto de produção, alcançam novo significado quando agrupadas em disco, ganham nova objetividade em seu conjunto. Além disso, se pensamos nas práticas sociais atuais de relação com os produtos culturais, dificilmente essas referências participam de forma imediata dos sentidos construídos sobre a obra, mesmo sendo muito relevantes. Dessa forma, impõe-se uma questão mais pertinente, me parece, à apreciação crítica contemporânea de Meus caros amigos: os sentidos que são acentuados quando essas canções passam a integrar o disco.
Comecemos com Mulheres de Atenas, que tem como tema, a princípio, a opressão sobre a mulher na pólis ateniense. Em cinco estrofes espelhadas e dois versos de encerramento, trata da violência, da resignação e do abandono impostos àquelas mulheres. “Mirem-se” já torna o texto ambíguo: indica um pedido de espelhamento ou de atenção. Assim, liricamente, tanto se irmana à ideologia que revela quanto a critica.
Mas as boas canções nos falam sempre e também com a música que as compõem. As inflexões vocais de maior comoção ao final de cada estrofe e o coro de vozes femininas ao final da canção corroboram o tom de denúncia. As cordas e instrumentos de sopro percebidos a partir da terceira estrofe são importantes na mesma direção, dando um tom ameaçador para o “carinho/De outras falenas” e melancólico para a ausência de “gosto ou vontade”. Simultaneamente, no entanto, heroicizam os maridos na ponte instrumental e no encerramento da canção.
Um outro detalhe da forma como Chico canta é significativo: a pausa entre “mulheres” e “de Atenas”. Essa escolha, junto ao viés teatral de Boal, indica algo que não está ou não pode ser explicitado exatamente quando surge o lugar sobre o qual a música canta. Como se, nessa pausa, pudesse se insinuar alguma outra sociedade patriarcal mais próxima cuja violência de gênero se manifestasse de forma muito parecida, um lugar onde também homens que se diziam representantes da nação se colocavam na posição de gloriosos heróis.
A dominação de homens sobre mulheres é uma das recorrências do disco - e da história do Brasil, chegando drasticamente ao presente. Em A noiva da cidade, vemos da perspectiva masculina uma moça vulnerável a seus olhares predatórios. A voz prepara as condições de seu ataque, fingindo uma inocência peçonhenta sustentada pela levada bossa-nova do violão e da voz, pela textura samba-canção da orquestra e, ainda, pela referência às cantigas de ninar. O sujeito lírico ainda imputa maldade e malícia a essa moça que dorme e, assim, busca justificar-se, embora se saiba culpado, visto que canta para “que aqui ninguém nos ouça”. Também a primeira parte de Você Vai Me Seguir, especialmente se considerada no contexto do álbum, segue, como muitas outras canções de Chico, a senda de vozes masculinas que, do seu ponto de vista, cantam sua própria violência.
Ainda há outras linhas que a história permite seguir. No contexto da abertura controlada do período Geisel e da crescente presença social de grupos que lutavam pelo retorno à democracia, surge também um arejamento e uma vontade de libertação mais pronunciada em Meus caros amigos, já expostas desde a primeira faixa do disco. No caso de Você Vai Me Seguir, há uma inversão entre dominador-dominado na letra que não deixa de tocar nesse conteúdo político. Lembremos que essa canção foi originalmente composta para Calabar e, num gesto de deslocamento, integrou Meus caros amigos. Nesse novo contexto histórico, a voz que no início da canção canta com tamanho poder poderá ser desbancada; depois de infernizada e apunhalada, será velada, consentidamente.
Passaredo não deixa de contemplar essa temática. O clima de tensão e de ameaça quando o “homem vem aí” é inegável, mas resta a pergunta: por que estão esses pássaros ameaçados por sua presença? Segundo o próprio Chico, essa composição não tem motivação militante ecológica. Entretanto, o momento histórico em que foi engendrada e as recorrências do disco permite que, ou, ao menos, possamos construir mais sentidos sobre a canção. Levando em consideração a agenda ambiental da ditadura militar, marcada pela devastação do meio natural, pelo extrativismo, pela construção de obras de infraestrutura, visando à expansão do projeto desenvolvimentista da modernização conservadora nacional, absolutamente nociva às ideias de preservação.
Chico não é um artista ingênuo. Exemplos perfeitos disso são as canções Apesar de você e Cotidiano. Nelas podemos, na acepção mais poderosa do verbo, desconfiar do eu-lírico e da relação música-letra de suas composições, assim como desconfiamos de um narrador de Machado de Assis. Diversas canções desse álbum adensam se admitimos essa postura, porque há nelas traços de um jogo curioso, reveladores de possíveis sentidos que a audição distraída não torna conscientes - ainda que os possa sentir.
“Eu hoje fiz um samba bem pra frente
Dizendo realmente o que é que eu acho
Eu acho que o meu samba é uma corrente
E coerentemente assino embaixo
Hoje é preciso refletir um pouco
E ver que o samba está tomando jeito”
Uma canção celebratória do samba, do Brasil, certo? A melodia dos metais que a introduzem já dá pista, quando, ao final, brevemente recua, como se freasse o êxtase, para depois se resolver. O modo como Chico canta também não exatamente corresponde ao entusiasmo da letra, segue constante e sóbrio, sem expansividade nem grandes emoções. O pulo do gato está na estrutura, que repete três vezes a mesma sequência de estrofes de dois versos. Na primeira, reproduz a ideologia da euforia do progresso, associada ao desenvolvimentismo que buscava se afirmar desde Vargas e JK, concluindo com “Por isso eu fiz um samba bem pra frente”. Depois de mais um tema de metais, também bastante eufórico, a letra retoma, mas iniciando no segundo verso da primeira parte, reorganizando a estrutura, em movimento semelhante ao realizado em Construção, do álbum homônimo de 1971. Com esse simples gesto, inverte-se o sentido e deflagra-se a falsidade da posição da primeira parte da canção:
“Dizendo realmente o que é que eu acho
Eu acho que o meu samba é uma corrente
E coerentemente assino embaixo
Hoje é preciso refletir um pouco
E ver que o samba está tomando jeito
Só mesmo embriagado ou muito louco
”
Mulheres de Atenas, quando desconfiamos de sua aparência descritiva, revela-nos sagacidade e ironia. Como dito anteriormente, na atenção à relação entre letra e realidade histórica e entre o conteúdo lírico e a sonoridade da canção, pode-se entreouvir a denúncia à violência de gênero e ao patriarcalismo brasileiro. A noiva da cidade também se apresenta turva, indicando um narrador não-confiável recoberto de falsa inocência.
Olhos nos olhos, de temática amorosa, joga desde o início com uma contradição que está desvelada na letra de forma sutil. Composta para o álbum Pássaro proibido (1976), de Maria Bethânia, faz viver uma voz que se diz feliz com o término de uma relação, ansiosa por quando o antigo amor venha vê-la tão bem, refeita. Ao final, entretanto, a verdade: “Quando talvez precisar de mim/'Cê sabe que a casa é sempre sua, venha sim”. O tema que introduz a canção, o som das cordas que a envolve desde o começo, a própria forma como é cantada não coincidem com a suposta felicidade expressa pelo sujeito poético, estabelecendo um contrapeso melancólico. Em verdade, desde a primeira estrofe já sabemos da subordinação dessa voz ao seu amor passado, afinal, mesmo o seu desprendimento é fruto da obediência: “Me disse pra ser feliz e passar bem/Quis morrer de ciúme, quase enlouqueci/Mas depois, como era de costume, obedeci”.
A faixa de encerramento, o chorinho Meu caro amigo, feito em parceria com Francis Hime, é um dos grandes momentos da canção popular brasileira, pelo uso que faz do gênero musical, pelo contexto histórico em que se coloca, pela beleza da composição, pela contundência sensível da letra e da forma como canta. Como já dito, endereçada ao amigo Augusto Boal, Chico faz de todos os brasileiros de então os destinatários da carta. Em quatro repetições de três estrofes sobre os mesmos assuntos, dá-se cada vez uma nuance diferente à necessidade de comunicação com o amigo e às agruras da vida. A parte que é sempre reiterada é aquela que dissolve a euforia acrítica que aparecia em Corrente:
“Aqui na terra ’tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock’n’roll
Uns dias chove, noutros dias bate sol
Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta”
A incorporação da oralidade na letra é admirável. A levada veloz e sem grandes efusões da melodia vocal só muda na entoação de “Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta”. Nessa alteração, a voz acentua o desgaste de sua vivência, a severidade da circunstância. Além disso, essa mesma levada veloz de rápidas oscilações, que praticamente não interrompe desde que começa a cantar, sinaliza a pressa com que a notícia tem de ser passada - afinal, ainda se vivia um clima de vigilância e repressão -, reforçada pela aceleração da música ao final da canção.
Muito atrelado ao seu tempo histórico, Meus caros amigos chega ao presente não só enquanto documento, escritura histórica. Tão importante quanto isso são as formas e formas que Chico apresenta de como dizer sem anunciar ou explicar, ou seja, de como produzir possíveis sentidos sem evidenciá-los - no seu caso, motivado também pelo aperto da situação política de perigo. Mostra nesse gesto a qualidade de suas composições, que ganham força não apenas pelo conteúdo da letra, como também pela capacidade de significar com a métrica, as melodias, o arranjo, a estrutura, pela forma dada a essas canções.
Posicionado em nosso presente histórico, então, no qual muito importa o quê foi dito, Meus caros amigos, e, de forma geral, a discografia de Chico Buarque e muito do bom cancioneiro brasileiro, nos relembra a importância de como esses quês são ditos, ou, no nosso caso, cantados e musicados.