Crítica | Futuro Futuro (2026)
O regime de imagens do presente
Ficção científica do Rio Grande do Sul se sai melhor debatendo a cultura do presente do que imaginando o futuro.
“O capitalismo é um regime de imagens”, nos diz Jean-Luc Godard em “Aqui e em outro lugar”. E, ainda que tenha sido um grande estudioso desse princípio, ele - para sua própria sorte - escapou de viver no regime de imagens geradas por IA. Tal questão - o regime de imagens artificiais - está colocada em Futuro Futuro, novo filme de Davi Pretto, filmada em uma Porto Alegre distópica tomada por uma doença que faz as pessoas não conseguirem mais formar imagens mentais, até esquecerem todas elas.
Se, por um lado, o longa busca alargar o campo sensorial com a mistura de imagens reais e artificias - e sua relação com o regime social que vivemos -, por outro é um pouco limitado ao tentar extrapolar essa reflexão da imagem para a sociedade.
Um homem, chamado de “K”, em alusão ao processo de Kafka, acorda sem se lembrar de nada em uma zona pobre de Porto Alegre. Ele entra em uma escola e se depara com uma pequena máquina que projeta um triângulo vermelho em seu rosto e assim começa o filme. K, sem casa e sem família, vai morar com o personagem interpretado por João Carlos Castanha e os dois frequentam um curso na escola que treina pessoas pobres para trabalhar com IA, mostrando sequências de fotos em slides. Quando dorme, vê imagens supostamente esquecidas da sua vida, imagens vermelhas que mostram a zona dos ricos, totalmente geradas por Inteligência artificial.
Como tem sido comum no cinema contemporâneo, Futuro Futuro tem problemas com a dramaturgia traduzidos em uma urgência muito grande e tautológica de desenhar um esquema social para aquele universo. Diálogos sobre a injustiça social, a diferença dos pobres e dos ricos, uma cena em que um colega de K se revolta e diz que os pobres produzem tudo e deveriam derrubar a zona dos ricos. Em outro momento o personagem de Castanha fala sobre o desespero de não saber para quem ele trabalha. Esse aspecto revela um problema de pensar o futuro para além de categorias tradicionais da sociologia que tem espreitado o cinema atual.
Mas o presente é cheio de novos conceitos imagéticos. O principal, claro, é a imagem artificial, explorada aqui em plena oposição ao mundo real. Não há em Futuro Futuro um grande plano, mas a câmera tem intimidade com os personagens, como se quisesse que a gente os tocasse como se eles fossem abrigo para a chuva que acompanha K ao longo da trama. Esse jeito humano e sensível de filmar do diretor contrasta imediatamente com a abjeção das imagens geradas por IA dos sonhos de K. São imagens vermelhas de uma cidade que parece ter saído de uma placa de construtora, de pessoas sem rosto, de um mundo nojento.
Nesse ponto eu entendo que Davi Pretto (que gerou essas imagens de IA) atua como um dadaísta do cinema. Ele pega o que tem de mais banal e feio no mundo contemporâneo e nos obriga a assistir. É o mundo das construtoras, do neoliberalismo, o regime das imagens artificiais que toma a tela e os sonhos de K. Não é vocação do cinema, especialmente o narrativo, encenar a feiura do mundo - é uma arte em escala industrial que amplia a nossa leitura da realidade. Essa também não era a vocação da arquitetura e mesmo assim vivemos em cidades cada vez mais feias e vemos filmes, industriais, cada vez mais abjetos.
Futuro Futuro resgata essa missão de alargar a nossa percepção. Ele escancara o mundo horrível das imagens artificias e nos faz confrontar ele com sensíveis imagens (ainda que não sejam belas) que reforçam a humanidade e o calor. Ao final, quando vemos uma sequência de fins de mundo gerados por IA (um vulcão em erupção, uma planta nuclear explodindo, etc.) estamos vendo a destruição dos nossos referenciais imagéticos positivos pela chave da sua própria potência destrutiva (nesse sentido, a negativação da IA).