Crítica | Nós

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Lá vem ele de novo.

Ainda em 2017, Jordan Peele contou à Business Insider que tinha planos para escrever e dirigir, contando com "Corra!", cinco filmes de terror no mesmo gênero “thriller social”. “Nós” é o segundo filme dessa leva e, após assistir, tudo que tenho a dizer é: quero mais.

O longa protagonizado por Lupita Nyong’o traz uma narrativa e construção de mundo bem mais abscôndita do que seu antecessor "Corra!". Aqui a composição imagética traz ainda mais detalhes e sutilezas que ajudam a fortalecer a aura mitológica da história e criar não uma, nem duas, mas um filme inteiro repleto de cenas icônicas.

Começamos conhecendo Adelaide, uma garota que se deparou com uma cena muito estranha ao se perder dos pais por 15 minutos na praia. Agora já adulta, ela volta, com sua família, para a mesma praia onde o misterioso trauma que ela carrega se originou. Após uma breve introdução aos quatro membros dessa família típica de comercial de margarina em sua casa de veraneio, somos surpresos por uma invasão noturna: quatro pessoas, de macacão vermelho e de mãos dadas, aguardam silenciosas no lado de fora da casa dos Wilson. Após um confronto, a família percebe que os invasores são réplicas de cada um deles.

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Deste momento em diante a tensão não desgruda de você. “Nós” entrelaça sequências tensas de ação e suspense a um mistério que é desvendado com a calma e paciência que merece, até seu clímax catártico no final, coroado com a cena da dança (possivelmente a melhor do filme).

Como em "Corra!", nada que é recorrente e icônico aqui é gratuito. Tudo tem seu lugar marcado na cadeia de significações. A tesoura, representando duas metades iguais e que, quando é aberta, tem suas contrapartes divididas. Os coelhos, que simbolizam renascimento, moram em túneis e são animais que já foram clonados. Os espelhos, o versículo, o adesivo no carro, os reflexos e sombras, até mesmo um estalo de dedos fora do ritmo apontam para a estrutura de uma grande história muito bem costurada. Não é a toa que os doppelgangers do universo de “Nós” chamam-se “The Tethered”, ou “Os Amarrados”. Não há ponta solta.

Graças ao enquadramento de algumas cenas no primeiro ato e um palpite de sorte, previ o plot-twist (descoberta que não apagou nem um pouco o brilho do filme). A obra é um terror cheio de boas referências (confira aqui uma lista de 10 filmes que Jordan Peele usou para se inspirar) e inclusive uma cena na praia faz homenagem a alguns filmes de terror como “Os Pássaros” e “Tubarão”.

A maravilhosa Lupita Nyong’o chega destruindo tudo e domina o filme. Sempre que está em cena, você não consegue tirar seus olhos dos dela (seu olhar me lembrou de “Ao Cair da Noite”, outro ótimo terror que conta muita de sua história através de olhares). Os olhos dela são como imãs. São como armas. São como gritos mudos (e necessários, visto que uma das duas personagens que ela interpreta quase não fala). E a frase mais impactante, e que pavimenta todo o caminho da crítica social que o filme projeta, vem da boca dela: “Somos americanos.”

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O fato de que os únicos amigos da família são brancos privilegiados, a cômica inveja consumista do marido Gabe, o vício de Zora em seu celular, a necessidade contínua de Jason de esconder seu rosto atrás de uma máscara... Tudo isso indica um receio, uma hesitação. "Corra!" foi bem mais direto e claro ao expor o racismo estrutural e a carga traumática que vinha deste passado terrível. Mas há um motivo por que não vemos isso em “Nós”: justamente porque não vemos isso em nós.

Em entrevista, Peele sugere que o filme fala exatamente sobre o fato de que a nossa segurança e o nosso conforto cego se baseia na desproteção e no perigo que outras pessoas vivem. Ele diz que: “Estamos conectados ao mau, até mesmo se não encaramos ele diariamente. Talvez nós mesmos sejamos nossos piores inimigos.” Ou seja, nossas tentativas de esconder traumas e silenciar os terrores que nos assolam são sempre fracassadas pois ou esses problemas irão atormentar outras pessoas ou eles virão nos buscar. Se procuramos alguém para culpar, precisamos - como cantaria Michael Jackson (que é referenciado no filme em uma camiseta de “Thriller”) - começar com o “homem no espelho”. Em um momento particular do filme, O.J. Simpson também é mencionado em uma piada. Não por acaso. O atleta, artista, celebridade e assassino é o símbolo mais emblemático de um homem negro que, por viver atrás de privilégios de uma vida rica, se enxergava como branco, lavando as mãos para os problemas que ainda aconteciam ao seu redor.

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Como já pontuado por outros, o título original do filme, “Us”, pode ser interpretado também como uma alusão a “U.S.” (United States). Mas isso não quer dizer que a temática do filme se limita às terras de Trump. Principalmente hoje, essa crítica é precisa e cabível aqui mesmo, no Brasil. O sangue derramado nos Estados Unidos, no nosso país e em qualquer outro lugar é resultado de dois sentimentos muito próximos: o ódio e o medo. “Nós” trata majoritariamente do segundo. O medo que temos do “outro”, seja do estrangeiro, do opositor político ou simplesmente daquele que é diferente. O medo que faz uns colocarem grades nas janelas e outros armas debaixo do travesseiro. O medo que nos faz sentir bem quando é usado para justificar todo o desnecessário conforto do qual usufruimos e as nossas violentas ferramentas de proteção que deixam muitos outros inocentes à mercê de perigos bem maiores e bem mais reais do que nossos bichos-papões de “pânico moral”.

É difícil encontrar um filme de terror em que o tema do medo não nasça apoiado naquilo que é diferente, estranho, afastado. Jordan Peele traz uma sugestão: o que acontece quando descobrimos que o perigo reside dentro de nós mesmos? Essa questão não é discutida verbalmente em nenhum momento pela família Wilson ou no diálogo do longa em geral, mas o roteiro traz isso de maneira sutil e inteligente: apontando, em silêncio, para os verdadeiros culpados. Apontando para quem ele quer impactar e mudar. Apontando para “Nós”.

8,5