Os 10 Melhores Filmes de 2010

A segunda década do século 21 está chegando ao fim e para comemorar (?) decidimos retornar à todos os anos desde 2010 e listar os melhores álbuns, filmes e músicas de cada um.


10 anos atrás o mundo era insanamente diferente. Repito, insanamente diferente.

Ainda estávamos no primeiro mandato do primeiro presidente negro dos Estados Unidos, a Netflix ainda não ameaçava a hegemonia (?) do cinema, a ideia de ver vários super heróis juntos em um mesmo filme não estava clara na mente da maioria.

A década começou, no cinema, muito diferente de como terminaria, mas talvez o principal exercício que devamos fazer é pensar em como os primeiros grandes filmes dela refletem o que viveríamos a seguir não apenas em movimentos cinematográficos, mas como sociedade.

Estes são os 10 melhores filmes de 2010:


10 | O Vencedor

spl.jpg

Todo bom filme de boxe tem de mostrar mais coisas fora do ringue que valham nossa atenção e preocupação que dentro dele. Porém, é raro o filme que tem como principal virtude exatamente o que é resolvido sem a utilização de luvas.

Apesar de não ter marcado época, é inegável a qualidade do filme dirigido por David O. Russel e protagonizado por Mark Wahlberg, no papel do boxeador ainda vivo Micky Ward, e Christian Bale, interpretando seu problemático e persuasivo irmão. “O Vencedor” inova em focar na dinâmica dos irmãos e no impacto das vitórias e derrotas em sua conturbada vida pessoal, além de ser um belíssimo estudo de personagem e da própria sociedade. A direção de O. Russel, que havia trabalhado principalmente em comédias, é o principal motivo disso, sendo que o diretor, apesar de fazer um bom trabalho nas lutas e treinamentos, consegue mostrar a parte ruim da vida de boxeador profissional.

Além de render dois Oscars por papéis coadjuvantes à Bale e Melissa Leo, é um dos, agora, sete filmes em que Amy Adams foi esnobada no Oscar, o que vai sempre torná-lo um tanto amargo para seus fãs.


9 | Bravura Indômita

spl.jpg

Na seleta lista de remakes que funcionam tão bem (ou até melhor do que o original), o primeiro filme dos irmãos Coen na década oferece uma revitalização do gênero faroeste e mostra como o mesmo ainda poderia ser efetivo tempos depois de seu auge, mais de quarenta anos atrás, quando Clint Eastwood ainda era o maior astro de Hollywood.

Com performances avassaladoras de Jeff Bridges fazendo o que faz de melhor, Matt Damon e uma muito jovem Hailee Steinfeld já mostrando todo seu enorme talento que, anos a seguir, se expandiria para outras áreas, o filme sucede em trazer com honra o livro escrito por Charles Portis, em 1968. A cinematografia de Roger Deakins captura toda a beleza que um filme do gênero ainda podia passar, mas infelizmente, assim como todas as outras 9 categorias que o filme fora indicado, acabou sendo esnobado no Oscar.

Mas prêmios físicos nunca são tão importantes quanto aqueles que só vemos anos depois e, ao assistir esse filme agora, se percebe como os irmãos Coen conseguiram, novamente, ignorar a era em que viviam e entregar uma obra cujos valores e virtudes se tornam atemporais.


8 | Minhas Mães e Meu Pai

spl.jpg

É um tópico interessante, mas talvez nenhum filme em toda a década tenha uma tradução de seu título tão ruim para o português quanto o, até agora, último longa de Lisa Cholodenko. “The Kids Are Alright” ou, sua tradução literal, as crianças estão bem, é não apenas uma síntese da bela história contada aqui, mas uma reflexiva e aconchegante forma de abordar o polêmico tema que trata.

Há pouca intenção de se chocar o público ou de levantar questões sobre o casamento de mesmo sexo, ou até mesmo sobre maternidade e paternidade, mas sim de mostrar como as pessoas que mais podem ser afetadas por todas estas questões são, na verdade, os filhos que tem mais de uma mãe ou pai. Afinal, não importa o quão maravilhosa suas mães (no caso do filme) sejam, ainda vão existir olhos preconceituosos e uma pressão social para uma explicação sobre o funcionamento de tal família.

“The Kids Are Alright” não é sobre o quão longe pudemos evoluir como sociedade para que um cenário como esse seja possível, mas o quão longe ainda temos de ir para que ele seja visto como deve.


7 | 127 Horas

Apesar de não ter sido um sucesso estrondoso de bilheteria, o filme dirigido por Danny Boyle baseado no caso real de Aron Ralston, foi um dos assuntos mais comentados de seu ano. É um daqueles casos que, até quando não assistimos ao filme, sabemos quase tudo sobre ele.

Apenas a premissa já é aterrorizante: um homem preso em uma cratera, em meio a um cânion isolado com uma pedra esmagando um de seus braços, o impedindo de escapar. Imaginar o desespero desse homem é perfeitamente possível graças à atuação visceral de James Franco e, quando ele tem de amputar seu próprio braço para escapar, a dor é tanta que podemos sentir.


6 | O Discurso do Rei

Baseado em fatos reais. Após; Eduardo VIII (Guy Pearce), abdicar o trono inglês. Cabe à George VI(Colin Firth) a tarefa de reinar. Relatando e simplificando o filme desta maneira, se assimila com muitos sobre a dinâmica da corte, todavia não é. “ O Discurso do Rei” é um inspirador filme sobre amizade, amor e família.Tópicos atemporais. 

Rei George VI (Colin Firth) era gago. Durante toda sua vida recebeu os melhores auxílios que um nobre poderia ter. Nenhum deles foi eficaz, o tornando uma pessoa insegura e reclusa. Porém, ao se tornar rei e com a chegada da impactante Segunda Guerra Mundial; necessita fazer a mais importante tarefa como governante. O famoso discurso em que a Inglaterra declara guerra á Alemanha nazista. 

A esposa de George; Rainha Elizabeth (Helena Bohnam Carter) procura por ajuda exteriormente da corte, o que a leva para o homem que salva a vida de seu marido de muitas maneiras: Lionel Logue (Geoffrey Rush). Acostumado o agradarem, Lionel sacode a vida de George sendo franco. O tirando da zona de conforto. 

O diretor de Tom Hooper ( “ A Garota Dinamarquesa” e “ Os Miseráveis”) possui zelo pelas histórias, as tornando precisamente sensíveis. “ O Discurso do Rei” demonstra isso, especialmente nas atuações. A relação de George e Lionel passa de profissional para uma duradoura amizade. A troca e sinceridade em que há de Rei para Plebeu, torna George seu reinado solícito e notável. 

Rei George VI é interpretado pelo brilhante e aclamado; Colin Firth. Sendo premiado com Óscar da categoria Melhor Ator, por sua performance e pela bela carreira. Ao seu lado, igualmente esplendoroso; está Geoffrey Rush. A química excepcional, a gradativa evolução de personagens. O despertar de uma autêntica amizade, torna “ O Discurso do Rei” um dos filmes mais admiráveis do cinema. 


5 | O Segredo dos Seus Olhos

spl.jpg

Vencedor do Óscar de Melhor Filme Estrangeiro (Argentina e Espanha). Baseado no livro; “A Pergunta de Seus Olhos” de Eduardo Sacheri. Após 25 anos, Benjamin Esposito (Ricardo Darín) reabre e investiga o estupro e assassinato de Liliana Calotto (Carla Quevedo) com a intenção de escrever um livro sobre. 

Contexto histórico da ditadura argentina. Construído ao redor do simbolismo e da subjetividade dos detalhes. Roteiro fragmentado, analisando o passado e presente. Em busca de resolução, não somente do crime. Benjamin busca por um final conclusivo com sua superior; Irene Menéndez (Soledad Villamil). 

Diferente de filmes do gênero, “O Segredo dos Seus Olhos” inicia com características padrão. A cada cena é compreensível o respeito que há pela obra e por sua equipe; técnica e de atores. O diretor; Juan José Campanella capta o realismo entre as relações humanas. Tecnicamente, compreende o que é necessário para a excelência de cada frame. Ao seu favor, Ricardo Darín (Diretor e Ator) entrega uma rica performance. Demonstrando o poder de sua experiência. 


4 | Cisne Negro

spl.jpg

Filmes de Darren Aronofksy são desafiadores para os espectadores, especificamente por abordar temas substanciais da condição humana. O método de direção é precisamente sensorial; Em que as emoções dos personagens se tornam as nossas. “Cisne Negro” é sobre a exaustiva e trágica jornada da bailarina Nina Sayers (Natalie Portman),  nos ensaios para sua performance como Rainha dos Cisnes.

Proporcionando seu Óscar de Melhor Atriz, a atuação de Natalie Portman é visceral. De princípio, a bailarina é extremamente reprimida em relação a suas ações e sentimentos. Isto reflete em sua dança. Em ordem para encontrar seu Cisne Negro, ela precisa se libertar do pudor. A pressão para atingir a perfeição, a deixa mentalmente perturbada. O desenvolvimento da dualidade da personagem, potencializam comportamentos nocivos. Demonstrando que de todos que depositam expectativas em Nina, nenhuma pesa como a pressão e insegurança que ela desperta em si. 

Cisne Negro é, literalmente, um thriller psicológico. A respeito dos tons e sobre tons na personalidade do ser humano. Expressando a dificuldade sobre a busca do equilíbrio e coexistência deles. 


3 | A Origem

spl.jpg

Christopher Nolan gosta de brincar com sua mente. Ele é um sádico por isso. Desde “Memento”, passando por “O Grande Truque” e, futuramente, com “Interestellar”, sua principal característica claramente é o fato de que ele gosta de brincar com linhas temporais, construindo filmes que, se você não pensar (e muito), não vai conseguir aproveitá-los da melhor forma. A mente de Nolan é, também, obcecada por grandeza e, ao unir essas duas tendências, ele atinge um de seus mais originais (piada não intencional) e complexos trabalhos. “A Origem” é um teste para seu cérebro e um deleite para seus olhos.

O mais incrível é que o tema do filme é construído em cima de uma das perguntas mais comuns e, de certa forma, triviais da humanidade: e se pudéssemos controlar nossos sonhos? Poderíamos voar livremente pelos céus, conquistar terras longínquas, navegar nas águas mais misteriosas e, principalmente, nos relacionar apenas com o ideal que temos de cada pessoa. Essa premissa parece, literalmente um sonho, mas não é exatamente isso que “A Origem” mostra. O ser humano é uma criatura destrutiva e ambiciosa, logo, se dada essa habilidade, uma história de aventura não seria exatamente a principal finalidade dada a ela.

Ao explorar esse conceito ao máximo e adicionar a ele drama e suspense, Nolan investiga aspectos da mente de todos nós que julgávamos serem apenas nossos, ao mostrar que o melhor sonho ainda não é tão bom como a realidade que, muitas vezes, queremos escapar. E, ao final, um dos maiores mistérios do cinema recente faz nossa cabeça revisitar esse mundo tão revelador diversas vezes.


2 | Toy Story 3

spl.jpg

“Toy Story” é um dos filmes de animação mais importantes e influentes de todos os tempos. “Toy Story 2” é uma das melhores sequências da história do cinema. Não havia chances de “Toy Story 3”, da então já consagrada Pixar, fazer valer as enormes, surreais expectativas.

Se os dois primeiros filmes eram maravilhosos e divertidos documentos sobre uma parte da infância que praticamente esquecemos e um exercício de criatividade possível apenas para aqueles que ainda mantém ao menos um pouco daquela pureza dentro de si, este traz memórias que, apesar de ficarmos agradecidos de tê-las de volta, doem na parte mais funda de nossos corações.

Quando foi a última vez que você brincou com seus brinquedos? Um belo dia aos seus 11, 12 anos, você, já a um tempo sem brincar com eles, decidiu segurá-los e imaginá-los com vida mais uma vez. Decidiu imaginar um mundo que existia apenas em sua imaginação, que poderia ser explorado apenas por quem o idealizasse, onde o tempo parecia não surtir efeito e você poderia ficar ali para sempre. Esse dia passou e, sem saber, esse mundo ficou perdido. Em “Toy Story 3”, Andy, ao decidir que estava na hora de crescer, como todos nos dizem para fazer, nos dá uma ideia do que este dia, tão importante para nosso desenvolvimento como seres humanos, deve ter sido.

Uma maravilha da sétima arte em todas as escalas, “Toy Story 3” é capaz de fazer o mais insensível dos corações ao menos sorrirem, ao lembrarem algo que foram praticamente obrigados a esquecer.


1 | A Rede Social

spl.jpg

É curioso o fato de sempre pensarmos nas coisas em tempos que não vivemos. "No futuro, teremos carros voadores”, “na minha época, tudo era melhor”, quantas vezes ouvimos estas frases? O fato é que, raramente, falamos sobre o agora nos preocupando apenas com ele. Não sobre o que vai influenciar para amanhã, não sobre o que ocorreu ontem, mas única e exclusivamente sobre agora.

“A Rede Social” é o agora. É o hoje. É o Facebook, o Instagram, o Youtube, o WhatsApp. É você, sou eu, é sua ex-namorada, seu avô e, em alguns casos, até mesmo seu cachorro. Não é uma previsão, é muito novo para ser o passado, é o que estamos vivendo no momento que escrevemos um texto, ouvimos uma música, almoçamos.

Baseado no livro com um nome bem mais cumprido de Ben Mezrich, o oitavo filme de David Fincher não contém o que tornou o diretor um dos mais conhecidos de sua geração. Não há aqui um serial killer, não há um mistério a ser resolvido, não há a melhor atuação da carreira de Brad Pitt, ou Jake Gyllenhall, ou Kevin Spacey, ou Rosamund Pike. Não, o filme que conta a história da fundação do Facebook (ou partes dela), é um exercício cinematográfico que reflete o estado da nossa sociedade em praticamente todas as suas camadas, aproveitando da melhor forma um dos melhores roteiros do século 21 - talvez a Magnum Opus de Aaron Sorkin - e transformando duas horas de puro diálogo em uma das narrativas mais magnéticas e envolventes já vistas.

No entanto, diferentemente do assunto que aborda, “A Rede Social” definitivamente não é um filme para todos, mas mais importante, é um filme sobre todos. Sobre como, pelo menos uma vez na vida, deixamos nossa ambição falar mais alto que nosso senso moral, ou de como somos influenciáveis e influenciados por um belo rosto e palavras que sempre quisemos ouvir, ou sobre como podemos resumir toda nossa vida social em um website que nos permite enxergar o mundo em filtros pela tela de um computador, quando ele está bem aqui, na nossa frente. O Zuckerberg mostrado aqui talvez não seja exatamente o mesmo que idealizou (ou roubou) toda essa ideia, mas ele somos nós, naquela sexta a feira a noite, quando decidimos trocar a festa por mais algumas horas enclausurados na nossa segunda vida.

Em sua última cena, ele atualiza compulsivamente a página para ver se sua ex finalmente aceitou sua solicitação de amizade. Aquele ato, quieto, solitário, reflete nossa relação com a tecnologia melhor que qualquer momento no cinema. Isso não apenas em 2010.