Crítica | The Carters - EVERYTHING IS LOVE

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E então, no meio na maior overdose de boa música de 2018, surge o álbum para não quebrar apenas internet, mas qualquer padrão da indústria musical e diversos paradigmas impensáveis de nossa sociedade. Beyoncé e Jay-Z são o verdadeiro sonho americano. 

Ela, negra, nascida em Houston, no Texas, começou a cantar quando jovem, participou de diversos programas de talentos até que, quando adolescente, formou o grupo Destiny's Child e, anos depois, embarcou em uma das mais bem sucedidas carreiras solo do século 21. 

Ele, negro, nascido no Brooklyn, em Nova York, nem chegou a se formar na escola, se tornou traficante ainda adolescente e, depois de passar anos vendendo fitas e CDs em seu próprio carro, fundou a Roc-A-Fella Records, a gravadora que o tornaria um dos artistas mais ricos e bem sucedidos na música. 

A história de amor que uniu dois artistas com trajetórias dignas de filme começou em 2002, após Bey aparecer em "03 Bonnie & Clyde", um single do sétimo álbum de estúdio de Jay-Z. Em 2003, ela conquistaria o mundo com "Crazy In Love" e o resto todos sabemos. Se casaram em 2008, tiveram Blue Ivy em 2013 e pareciam o casal perfeito até que, em 2016, "Lemonade" foi lançado.

Enquanto resumir a magnum opus de Beyoncé como "o álbum onde ela revelou que Jay-Z a traiu" é um desrespeito à qualidade e importância do disco, nenhuma história explorada nele foi tão comentada pelo público. Um ano depois, em 2018, Jay lançaria outro clássico para sua coleção, "4:44", incluindo uma faixa título onde abertamente se desculpa por esse e outros erros de seu passado. E então a trilogia se completa com a culminação desses dois anos de turbulência, um projeto que não apenas conclui assuntos abertos nos álbuns solo de cada um, mas funciona como um presente de ambos para o mundo que por tanto tempo antecipou esse lançamento.

"EVERYTHING IS LOVE" é uma celebração do amor, sucesso e vida de dois dos maiores artistas de todos os tempos, só isso já bastaria para fazer dele o maior acontecimento musical do ano. 

Mas, é claro, a música tem papel (quase) tão importante nessa história quanto a mística envolvendo o álbum e, em seus 40 minutos de duração, vemos uma química possível apenas para um casal ainda apaixonado, além de um talento bruto que supera o fato de que o álbum é mais uma celebração do que um trabalho determinado em ser excelente.

É difícil apontar um momento ruim no projeto, mas ele também não voa tão alto, talvez propositalmente. Beyoncé tem claramente os holofotes, seja quando desfila sua linda voz nos momentos onde é necessária, ou rimando a altura de Jay-Z que parece ainda estar no mesmo pique de "4:44" que, apesar de não ser o seu auge, nos lembra o porquê de ser o maior de todos os tempos. A forma como ela varia seus versos flui com naturalidade e a energia colocada por ambos é amplificada por sua química, que explode a cada momento seja na bela abertura "SUMMER" onde Beyoncé toma conta da imersiva atmosfera ou no banger trap "APESHIT", um dos hits mais potentes e irresistíveis do ano (é claro, Quavo e seus abençoados ad-libs estão nela). No entanto, nunca é bom que as duas primeiras faixas sejam as melhores, mas isso ocorre aqui. 

O fato de Bey e Jay co-produzirem todo o álbum é algo interessante e, mesmo que não seja o forte de nenhum dos dois, o resultado é satisfatório. Elementos de seus últimos dois trabalhos podem ser percebidos, mas a estética é mais similar à outros projetos de Jay, como "American Gangster", se apoiando em notas altas de piano, trompetes e saxofones, enaltecendo a grandeza de ambos. A grande quantidade de batidas trap oferece um contraste interessante e pode mostrar que o sucesso de ambos não os afastam dos sons mais populares entre as massas. Ainda assim, a falta de um produtor de ofício em todo o projeto o deixou com menos força e imponência do que as produções em "Lemonade" e "4:44".

"BOSS" e "NICE" são simples exaltações de seus respectivos status e funcionam bem, apesar de não marcar ou explorar nada de novo. Na primeira, Bey entrega uma das linhas mais interessantes do álbum: My great-great-grandchildren already rich / That's a lot of brown chi'r'en on your Forbes list, retomando um dos assuntos mais trabalhados em "4:44", a criação de um legado negro. "713" já mistura elementos mais diversos, desde interpolações de Timberlake e Dr. Dre à uma entrada similar às produções em "The Black Album" e temos um pequeno insight do começo do relacionamento de ambos, algo sempre interessante de se ouvir. 

Apesar de que todos os versos soem frescos e que as performances de ambos sejam energéticas e carismáticas, em momento algum eles buscam o auge de suas respectivas carreiras. O álbum se torna ainda mais atraente justamente por aparentar não oferecer esforço demasiado de nenhum de seus artistas.

Isso nem sempre é benéfico, é claro. Em "FRIENDS" vemos Bey rimando algo parecido com Drake, o que não é ruim, mas não é introspectivo o suficiente para dar qualquer contraponto à alegria do começo do álbum. "HEARD ABOUT US" contém uma interpolação de "Juicy" de Biggie cantada por Beyoncé e um excepcional verso de Jay-Z, além de uma produção pop lembrando o melhor Max Martin, dando um contraste interessante ao resto do disco, mas parece conquistar menos do que realmente poderia. O álbum realmente se encontra melhor quando abraça seu tom celebrativo, como em "BLACK EFFECT", além de ser uma bela e original dissertação sobre o orgulho de ser e suceder sendo negro, tem uma das vibes mais confortantes de todo o projeto. O divertido fechamento, "LOVEHAPPY", é uma conversa em forma de rima, detalhando tudo pelo que passaram para ficarem juntos novamente e é mais revigorante do que qualquer coisa que você tenha ouvido este ano. 

É importante notar que, durante toda sua duração, "EVERYTHING IS LOVE" trabalha com temas muito menos profundos que "Lemonade" ou "4:44". Amor, casamento, o fato de ambos sucederem na América sendo negros e agora poderem viver seus sonhos juntos, mas há pouca ou nenhuma introspectividade que lembre o peso dos projetos passados. É uma volta olímpica, com ambos se divertindo e fazendo o que mais gostam e sabem - música - juntos, como nenhum outro casal na história da música seria capaz de reproduzir. 

Talvez o mais curioso disso tudo seja o fato de que o lançamento venha bem em meio à chamada Yeezy Season. Desde três sextas-feiras atrás Kanye West vem lançando um álbum por semana -"Daytona" de Pusha T, "Ye" dele próprio, "Kids See Ghosts" uma parceria sua com Kid Cudi - sendo que todos foram gravados no mesmo período em um rancho dele, em Wyoming. O mais recente deles foi justamente "Nasir" de Nas que, caso você não saiba, protagonizou uma das rivalidades mais importantes da história do hip-hop com Jay-Z. Adicione o fato de que o álbum conjunto veio sem avisar, em um sábado ao invés da tradicional sexta-feira e de que existem várias indiretas à diversos desses artistas nas letras, e o fator coincidência é jogado fora. 

Não que Beyoncé e Jay-Z precisem disso. Seu poder como estrelas solo é gigantesco e como casal é ainda maior e pode muito bem ser o caso de que eles apenas decidiram lançar o álbum neste dia, ignorando a competição, mas, se fosse para apostar, diria que foi um lançamento calculado e sugerido por Jay-Z, que já fez coisas parecidas no passado.

Jay-Z é o maior rapper de todos os tempos. Beyoncé é a maior artista de sua geração. Juntos são o casal mais icônico da história da música. Apenas o fato de que esse álbum existe já é uma vitória para seus artistas, o fato de que é realmente bom não devia surpreender ninguém.

7.5

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