As 10 Melhores Músicas de 2010

A segunda década do século 21 está chegando ao fim e para comemorar (?) decidimos retornar à todos os anos desde 2010 e listar os melhores álbuns, filmes e músicas de cada um.


Ah, 2010. Um dos principais anos da explosão de EDM que se alastrou durante o início da década nos trouxe hits icônicos, mas que, de uma forma ou de outra, podemos nos sentir um tanto envergonhados de tê-los amado tanto nove atrás.

Desde jovens meninos negando seu amor por “Baby” de Bieber, apesar de imitar seu cabelo na época; à espera coletiva pela colaboração entre Beyoncé e Lady Gaga em “Telephone”; à irreverência de Ke$ha em acordar como P. Diddy em “Tik Tok”; ao one year wonder de Taio Cruz, com um hit atrás do outro; ao infame hit que era presença obrigatória em todas as noites adolescentes e que nos ver voar como “G6s”.

Enquanto todos esses merecem nosso lembrete, não foram os singles que marcariam de verdade o ano e sobreviveriam para contar história. É importante lembrar que, nesta e nas próximas listas, estaremos contando apenas com singles e, na maioria das vezes (nesta não), limitaremos a duas músicas por artista. Enfim, estas podem não ser as músicas que você mais lembra, mas são as melhores de 2010:


10 | The Black Keys - Howlin’ For You

Um deserto, o semi árido americano, o calor, duas cadeiras de praia perto de um trailer e uma garrafa de bourbon muito, muito gelado. E um coração rancorosamente apaixonado. Esse é o setup no qual o hit do Black Keys parece se passar.

A letra desesperada e casual ao mesmo tempo é pungente e gostosa de cantar, mas dá espaço de sobra a uma instrumentação que evoca o melhor do blues rock setentista sob um prisma que é inconfundivelmente, millenial. Perceptível da bateria tensa aos riffs de teclado. “Howlin’ for You” é um clássico de sua banda e de sua época.

9 | Foster The People - Pumped Up Kicks

Assobiar é um costume milenar do ser humano que, muito provavelmente, desenvolvemos ao ouvir os muitos cantos de pássaros mundo a fora. Volta e meia você se vê cantarolando ou, sim, assobiando suas músicas favoritas, mas uma em especial se tornou um hino para que todos assobiemos juntos à belas letras sobre um tiroteio em uma escola. Ou você não sabia disso?

Talvez você não lembre, mas alguns artigos, lá em 2010, sugeriam que o grupo originado em Los Angeles um ano antes tinham potencial para se tornarem os novos Beatles. Apesar de ter ficado claro que as expectativas ficaram longe (bem longe) de serem cumpridas, há algo de especial no primeiro single de Foster the People. “Pumped Up Kicks” se tornou um dos hits menos previsíveis da década ao atingir o top 3 da Billboard Hot 100.

Desde sua primeira afirmação à seu culturalmente enraizado refrão, “Pumped Up Kicks” conta a história de um jovem que tem pensamentos homicidas perante seus colegas, algo que reflete o fato de membros do grupo terem sofrido bullying no ensino médio e de o baixista, Cubbie Fink, ter um primo que sobreviveu ao massacre de Columbine, em 1999. De acordo com Foster, as letras são tanto uma tentativa sua de entender o que se passa na cabeça de uma criança traumatizada a esse ponto como uma tentativa de criticar a violência causada pelas armas.

É claro que o conteúdo da canção passou desapercebido por muitos, fomos quase obrigados a ignorá-lo mediante aquela produção leve centrada em volta de quatro jovens brancos assobiando tão despretensiosamente. Agora, quase dez anos depois, a faixa se tornou um hino do crossover indie-pop, que, desde sua avó até seu primo de cinco anos, inspira assobios e cantaroladas diárias. O quão misterioso é o fenômeno da música, não podemos explicar.

8 | Kanye West - Power

Não é novidade para qualquer fã de Kanye West que, até o lançamento de “Power”, o sentimento que mais pairava na cabeça de todos sobre seu próximo projeto era um misto de dúvida e medo. Após chocar o mundo da música com o lançamento de “808 & Heartbreak”, saindo quase completamente do hip-hop, Kanye entrara em um poço do qual começou a escalar de volta apenas quando o sample alterado de “Afroamerica” (do grupo francês Continent Number 6) deu início a um de seus singles mais reverberantes.

Durante toda sua duração, “Power” é implacável. Trazendo elementos de todos seus trabalhos anteriores, a faixa soa como um canto de guerra tribal, uma marcha para o apocalipse inspirada pela música tema que todos os super heróis necessitam. Ele, Kanye, está no centro, descrevendo uma sociedade caótica que apenas soa ficcional, enquanto se posta como o líder que pode levar a todos para o próximo passo da humanidade. Ele não esquece suas falhas no caminho, mas ao desafiar todos seus principais críticos e declarar que só precisa de si mesmo para chegar aonde quiser, é inevitável dizer que é uma faixa que reflete a mente tão divertida desta figura tão curiosa.

Utilizada em uma série de propagandas, comerciais e até mesmo filmes, “Power” é uma das favoritas de seus fãs e um aviso. Na verdade, escalar não é bem a palavra certa, Kanye saltou do poço em que se encontrava ao portal dos céus do qual tanto insiste em fazer parte.

7 | Katy Perry - Teenage Dream

O hit pop mais açucarado dos anos 2010 é também o ápice da carreira de uma das cantoras mais populares do século 21. A faixa título de seu álbum que empatou um recorde de mais de 20 anos, dominado por ninguém menos que Michael Jackson, foi o auge do produto Katy Perry.

Tudo bem, ela já era “adulta” quando cantou todas aquelas linhas sobre amor adolescente, mas assim como muitos outros momentos nesta mesma lista, Katy, quase sem pretensão nenhuma, mostra que não precisamos ter pressa em envelhecer. Com a mão do mago do pop, Max Martin, a razão do single ser tão eficaz e tão atraente para praticamente qualquer audiência que tenha vivido qualquer coisa parecida com uma fantasia adolescente, está na teoria musical por trás da composição. Resumindo o excepcional texto de Owen Pallett, para a revista Slate, em 2014, “Teenage Dream” foge do convencional em sua estrutura e cria, sem percebermos, uma experiência de suspense e emoção, que relacionamos diretamente com nossa fase mais cheia de altos e baixos.

Caso toda essa conversa sobre sincopação, quebra de cordas, cantar fora da batida, seja algo que não lhe interesse, você pode simplesmente amar essa música por ela ser como é, uma simples ode ao amor adolescente que te transporta de volta para ele sempre que toca.

6 | LCD Soundsystem - You Wanted a Hit

“You Wanted a Hit” não é a faixa mais rebelde de “This Is Happening”, nem a mais explosiva e dançante. Mas é uma música que envelheceu como vinho. Condensando o estilo do LCD em 9 minutos e 14 segundos que são curtidos do início ao fim, aqui temos um passeio, por dinâmica, harmonia, texturas e ideias. Da música à letra e da letra à música.

É um tapa na cara da indústria musical, para início de conversa. A premissa da letra da música, posta simplesmente, é o desabafo de James Murphy sobre a frustração de não conseguir, nem querer, entregar um hit ao produtor da banda na época. Coloca em cheque o que gera sucesso no mainstream e porque continuamos consumido isso, dando a perspectiva íntima e exausta do músico que precisa fazer de sua arte, um produto constante.

Poderia ser apenas isso, mas a banda trabalha para fazer da canção a perfeita antítese do hit: tanto em fórmula quanto em metáfora. Em fórmula, pois é longa, se constrói aos poucos, usa de recursos diferentes, solos eletrônicos, filtros não convencionais. Em metáfora, pois faz isso tudo, quebrando todos os padrões de hit possíveis, e não deixa de ser dançante, melódica, e pegajosa da melhor maneira possível. De certa forma, pode se argumentar que “You Wanted a Hit” é a “Bohemian Rhapsody” do LCD Soundsystem - e quiçá da década.

5 | Kanye West - Monster

Sim, é claro, não podemos falar do terceiro single de “My Beautiful Dark Twisted Fantasy” sem mencionar algumas coisas. A introdução distorcida e sinistra de Justin Vernon; o curto e provocativo verso de Rick Ross; Kanye rimando esophagus com sarcophagus; Jay-Z listando monstros que deveriam temer um homem que tem no amor seu ponto fraco; a produção vinda de um filme de terror se apoiando em cordas que induzem a sentimentos como a paranoia e o suspense, bombásticos tambores que parecem ter saído de um ritual tribalístico iniciado em “Power”, vocais distorcidos para parecerem monstros falando. Sim, todos esses elementos são ousados, excêntricos e estranhamente cativantes, mas todos sabemos que não apenas a cereja, mas toda a essência do bolo está no verso de Nicki Minaj.

A, até então, novata na cena do rap norte-americano, nunca deixou de expressar o quão vislumbrada estava por ter entrado no estúdio com Kanye West e Jay-Z, dois de seus maiores ídolos, o que torna o fato de que ela superou os dois - ambos com versos excepcionais, por sua vez - em uma das melhores músicas de rap do século algo ainda mais impressionante. Diferentemente do nervosismo que ela aparenta ter sentido por estar envolta no processo, sua performance é um dos maiores exemplos de maestria da arte de rimar já vistos, com ela alterando entre suas muitas vozes no meio de linhas, assassinando uma batida feita para causar tremores nos mais sombrios fãs do gênero e arrebatando o mundo com uma energia devastadora.

Muito já foi falado sobre esse verso - e sobre “Monster” e seu polêmico (e genial?) vídeo também -, mas nunca parece demais. Horas, Adele cantou este verso com James Corden sem errar uma palavra. Nicki Minaj é, literalmente, monstruosa.

4 | Cee Lo Green - F**k You!

“F**k You!” é possivelmente um dos hits mais esquecidos destes últimos dez anos. Quase como o hino de 2010, sendo tocado em todas as rádios, festas e cantado por todos, o single é facilmente o melhor da carreira solo de Cee Lo Green.

Com backing vocals retrôs e um misto de Soul, Funk e Pop, Cee Lo canta o que todos gostaríamos de falar para aquela tal pessoa que nos preteriu por outro alguém. De acordo com ele, as letras são sobre a indústria musical em si, mas somos convidados a escolher a quem dirigir estas palavras tão bem escolhidas, sendo que a jovialidade e energia da faixa servem de multiuso em diversas situações.

É praticamente inútil mencionar que ele não atingiria o sucesso estrondoso da faixa novamente, afinal, não tivemos um trabalho de destaque de Cee Lo desde então, mas é inevitável mencionar esta década sem um de seus hinos de redenção e aceitação após o término de qualquer relacionamento, a segunda melhor música com tal temática de 2010, depois de…

3 | Robyn - Dancing On My Own

Há poucos jeitos de se aceitar melhor um término do que simplesmente se deixando levar pela música. A cantora sueca pode não ter chegado perto de seu sucesso na década de 90, mas a influência do principal single de seu excelente álbum “Body Talk” pode ser percebida não apenas musicalmente, mas em todo o comportamento de qualquer ser humano rejeitado por alguém em toda a década.

Em um belo texto, Jayson Greene, escrevendo para Pitchfork, explica como a volta de Robyn, em 2018, soou como um “eixo de luz que aqueceu seus fãs”, entre eles, nomes conhecidos como Carly Rae Jepsen e Perfume Genius. Sintetizando toda a ideia do texto está o belo título, que pode ser traduzido como “dançando sozinhos, juntos”. E é isso que a, possível, melhor música da carreira da artista passa para todos que emprestam seus corpos e almas a ela por alguns poucos minutos.

Robyn fala, com uma dor guardada para si mesma, que está nos cantos da festa, observando enquanto seu ex beija uma outra pessoa e ela, apesar de se esforçar, não consegue chamar sua atenção. Sua resolução é a que tantos de nós tivemos, tem e deveríamos sempre ter. Continue dançando, na sua, independente do que estiver a sua volta.

É talvez a melhor história de superação após um término de toda a década e, por mais que Robyn, naquele momento, ainda quisesse estar junto daquela pessoa, isso não a impede de ser feliz. O dia que todos entenderem isso, talvez essa música perca seu brilho, até lá, ela continua essencial.

2 | Janelle Monáe - Tightrope

O tempo inteiro, na música, há artistas recriando o que já foi feito. Sem reinventar a roda nem fazê-la girar. Apenas andando no mesmo lugar.

Quando se ouve o disco “The ArchAndroid” pela primeira vez, vem uma sensação estranha de familiaridade e estranhamento ao mesmo tempo. Janelle Monáe consegue trazer conceitos artísticos e uma conceitualidade a sua obra sem deixar de dar ao ouvinte gatilhos musicais para se manter ativamente engajado. E o ápice disso, no disco, é “Tightrope”.

Essa música era, é e continuará sendo, uma bomba. Todas influências de Janelle estão condensadas aqui, mas apenas como influência - não se engane, ela é a estrela. Desde a composição a sua excepcional performance, artística, vocal e nas representações ao vivo da faixa. O maior hit de seu primeiro álbum é soul pop R&B luxuoso e pé no chão.

Costuma-se dizer que uma música é excepcional quando ela consegue se conectar a diferentes públicos, de diferentes backgrounds e repertórios, com efetividade. Causar aquele instinto rítmico e musical que todos nós, humanos, em certo nível, temos. É o que faz de “Get Lucky” uma das melhores músicas da década, e é o que faz de “Tightrope” uma delas também. A percussão que parece vinda de uma jam session com Carmen Miranda, o Olodum e Steven Tyler; a linha de baixo que se tornou uma das mais aclamadas da música pop contemporânea; o sopro que une tudo no final com classe; a participação espetacular de Big Boi em seu verso e na produção.

Talvez você não perceba tudo isso de cara, e talvez nunca tenha percebido com atenção antes. Mas, escute a faixa e preste atenção em seu corpo durante a execução dela: provavelmente sua cintura, seus quadris ou ao menos a ponta do seu pé perceberam.


Menções Honrosas: Caribou, Odessa; The National, Bloodbuzz Ohio; Ariel Pink’s Haunted Graffiti, Round and Round; James Blake, Limit To Your Love; Arcade Fire, Sprawl II.


1 | Kanye West - Runaway

Como mencionado na introdução, o objetivo da nossa série com os melhores de cada ano da década é limitar a no máximo dois singles por artista. A verdade é que, na maioria dos anos, a maior probabilidade é que se tenham dez artistas diferentes nas dez primeiras posições, mas esta é uma das situações mais singulares do século 21 e, talvez, da história da música. Praticamente qualquer faixa de “MBDTF” poderia estar entre as melhores de seu ano, mas, propositalmente, Kanye escolheu as três melhores para alcançarem a glória que só pode ser alcançada por uma canção ao ser lançada como single, e “Runaway” é a melhor de todas elas.

Com nove minutos de duração, o single é uma viagem à conturbada cabeça de uma das figuras mais interessantes da história da música, onde Kanye utiliza algumas de suas muitas experiências falhas em relacionamento para traçar um paralelo entre ele e muitos de seus fãs. Ele então propõe um brinde a todos os douchebags, os assholes, os scumbags, os jerkoffs, para então admitir a constatação que mais deve ter lhe doído em toda sua carreira. Também presente está um verso de Pusha T que, re-escrito quatro vezes, funciona quase como uma antítese muito bem vinda ao tom geral da faixa.

Andando junto com as emotivas e impactantes letras está uma das produções mais belas e complexas da história do hip-hop. A agora icônica “melodia” de piano inicia a música de forma assombrosa, e vai se perdendo em meio a um forte Cello e uma belíssima sessão de cordas que aumentam a cada momento até, de repente, cessarem e deixarem o piano se isolar novamente. Mas o feitiço continua com uma atmosfera ainda mais grandiosa, com os vocais de West distorcidos de forma inteligível, o que, para muitos, é uma metáfora para como suas muitas declarações são entendidas por todos.

Para alguns, o pedido de desculpas de Kanye à Taylor Swift após seu infame momento no VMA de 2009, para outros, um dos poucos momentos de vulnerabilidade e auto-crítica na carreira de um artista que realmente pensa de si mesmo como o melhor - ou um dos melhores - de todos os tempos. A verdade é que “Runaway”, perigosamente, te faz pensar que ele sempre esteve certo.