Crítica | Ponyo (2008)
ÀS PEQUENAS COISAS
Em filme “menor”, Miyazaki faz uma ode aos pequenos momentos da vida
A característica mais chamativa dos filmes do Studio Ghibli, em especial dos filmes de Hayao Miyazaki, já foi coberta com extensão. Boa parte das análises dos filmes gira em torno do conceito de ma (間), algo como uma pausa, um intervalo, um silêncio entre dois elementos, sejam eles temporais e/ou espaciais. É um conceito que talvez seja mais interessante para nós, do ocidente, porque em muito se difere da maneira corrida como vivemos, em especial em países latinos.
O que há então em filmes como Ponyo que nos faz sentir uma espécie de nostalgia, um prazer mimético, de ver partes de nossas vidas em tela?
O silêncio não é um privilégio comum no mundo moderno - a própria Tóquio é uma cidade na qual é difícil sequer imaginá-lo -, mas diria que ma, embora um conceito nomeado apenas pelo japonês, é algo que permeia o ritmo universal do ser humano. Quando colocamos roupas para lavar, quando sentamos para comer algo em uma quarta-feira qualquer, quando damos uma caminhada no parque para desopilar. Talvez nossas mentes, em constante rebuliço potencializado pela era digital, não sejam capazes de sequer perceber que há bastante espaço vazio em nossas rotinas, mas quando vemos reproduções dela em filmes como este de Miyazaki, é como se, de maneira subconsciente, encontrássemos algum tipo de validação nas menores coisas.
Como para o subconsciente o acaso não existe, é possível dizer que os filmes de Miyazaki não são feitos para mimetizar o olhar infantil mais do que são observações do próprio, o cinema como maneira de meditar sobre todo o ma em sua vida. Embora constantemente sejam decupados de maneira que enfatiza o lugar da criança no mundo, este mundo é adulto, e elas devem aprender a navegar por ele. Após encontrar a pequena Ponyo na beira-mar, Sosuke acompanha a mãe até seu trabalho em uma clínica para idosos, que fica ao lado da creche do guri. Tão pouco ela presta atenção ao pequeno peixe com traços humanos que ele traz no balde, assim como parece tratar o dilúvio bíblico que assola o filme posteriormente como uma mera tempestade. Talvez nossas mentes de adulto não sejam mais capazes de perceber, também, a magia que ainda reside ao redor. Daí o olhar infantil, como uma espécie de avatar que nos permite experienciá-la uma vez mais.
O fantástico para Miyazaki é uma extensão, ou melhor, um compartimento. Há um mago nas águas, há uma menina lobo na floresta, há uma passagem para o mundo dos espíritos na estrada. E a chave para melhor compreender estes filmes e seus respectivos mundos reside então na troca do olhar: do adulto para a criança. Pois talvez não façam sentido para nós, adultos que precisamos entender as coisas, mas sim para elas, que reagem apenas ao que se apresenta diante dos olhos. Nestes locais fantásticos, regras devem existir, mas de pouco elas importam durante a narrativa, pois diferentemente do que fazem Pixar e Disney (e suas famosas cenas explicando o funcionamento de seus respectivos cenários fantásticos), Miyazaki apenas nos oferece uma janela que se abre para um outro lugar, cujo ritmo não é afetado. As crianças de Miyazaki transitam entre o mundo real e o fantástico, que não deixam de ter suas batidas particulares apenas porque elas (assim como nós) não os compreendem.
E misturando a tradição de Shimizu à de Ozu, Miyazaki expande seus filmes no íntimo de suas situações: uma mãe enraivecida que quer sair para jantar para não ter que cozinhar, um filho que a chama pelo nome, um marido que trabalha no alto mar. E logo paramos tudo apenas para poder comer um ramen, e Ponyo gosta bastante de presunto, e as velhinhas reaprendem a andar. Desconheço cinema, no século 21, que capte melhor a essência das pequenas coisas, que reconheça a magnitude de atos e gestos tão simples como um filho colocando o chapéu de piloto do pai. Aquelas coisas que deixamos guardadas em compartimentos, mas que quando voltamos a acessar - seja ao contar histórias, ao rever fotos antigas, ao passear pela própria memória - nos revelam como o tempo também pára, e às vezes só percebemos quando já passou.
Ou seja, talvez o mais agridoce do conceito de ma, é que este só existe como nostalgia.