Crítica | Mensagens PAra Isabelle (2026)
NA PALMA DA MÃO
Mais um filme de Zoey Deutch que poderia ser grande, mas se contenta em ser pop
Por qualquer motivo que ainda não localizei, os primeiros 20 minutos de Mensagens Para Isabelleme pegaram de um jeito que não acontecia desde que assisti Incompreso(1966), poucos dias após meu aniversário de 29 anos. Há pouco mais de um mês de completar 30, talvez as emoções sejam semelhantes, potencializadas pela derrota vergonhosa do Brasil para a Noruega no dia seguinte.
O que era para ser só uma comédia romântica de um sábado gelado em Porto Alegre, se tornou porém no texto que escrevo à seguir. Sobre muitas coisas que me parecem pertinentes não apenas sobre o filme, mas sobre o estado da arte e sua potência como arte.
Um homem vai ao cinema, o crítico precisa ser sincero para reconhecer que é este homem. Caso seguisse como mantra a famosa frase de Roger Ebert, as cinco estrelas acompanhariam um filme que provoca tal resposta. Mas não só não acredito que o crítico seja um “mero” espectador, como não considero a emoção como princípio que deva governar qualquer reflexão posterior à uma obra de arte. Muitos críticos falam não das obras que veem, e sim das emoções que sentiram, refletindo não sobre a arte, mas sobre a experiência como um produto a ser recomendado. A questão é que estas emoções são construídas por questões particulares, singulares e infinitas, que não são partilhadas por outros: sugerir que algo que lhe emocionou irá emocionar alguém é uma mera especulação.
Com um breve agradecimento, pois precisava do choro, avanço agora para uma reflexão que, espero, justifique estar escrevendo sobre um filme tão “pequeno” com tantos outros “grandes” a serem descobertos.
Uma cena, quase como que avulsa, de Mensagens Para Isabelle é o suficiente para confirmar algumas certezas. A personagem de Zoey Deutch, que é a mais próxima de ter um caso concreto para se auto-intitular a Meg Ryan dos anos 2020, é uma aprendiz de confeiteira, sob a tutela de um projeto de Jacquin histriônico. A cena de apresentação do patife é um plano videoclipado, deste realizando uma receita como se ouvindo Charlie XCX.
Não é um momento cinematográfico, e não é necessário explicar o porquê, mas tentemos localizá-lo em outros filmes semelhantes. É o tipo de cena que se encontra em Booksmart (2019), coming of age energético e revigorante de Olivia Wilde, em Barbie, produto genérico da Mattel e “Morro dos Ventos Uivantes” (2026), um dos meus lançamentos favoritos dos poucos que vi este ano. Em comum, todos filmes de jovens diretoras que bebem da fonte de Sofia Coppola e parecem fazer filmes para um tipo muito específico de audiência e com um tendência bastante óbvia: cenas que podem ser reproduzidas, na íntegra, nas redes sociais.
Importa muito pouco, parece, a diegese, palavra adotada pelo cinema para se referir ao mundo interno de um filme. Pois ninguém “vê” uma cena dessas (e outras destes filmes e de outros filmes) daquele modo, assim como a picotagem da montagem, os fundos desfocados e os ambientes hora esterilizados (o que é a empresa onde a versão modelo de videoclipe do Billy Cristal trabalha…), hora hiper estilizados (o quarto das meninas, o food truck) pouco parecem pertencer a um mundo onde o vento faz folhas das árvores balançarem.
E a grande pena, ainda mais neste filme de Leah McKendrick, é que o mundo “escrito” é cheio de nuances, de percalços, de modulações que poderiam resultar, quem sabe, um grande filme.
Que maior prova podemos ter de que um grande filme nasce não de um grande roteiro, mas das ideias de seu realizador? Escrito por ela própria, Mensagens Para Isabelle acumula temas e situações interessantes sem que estas soem aleatórias na trilha narrativa (embora a cineasta tenha pouco ou nenhum controle rítmico, atropelando momentos que deveriam ser de introspecção para inserir um novo elemento): ao perder a irmã mais nova por conta de uma doença que a limitou durante toda a vida, Jill segue enviando à ela mensagens de voz cotidianas, menos esperando que ela vá ouvir do além, e mais aceitando consigo mesmo o absurdo do ato como forma de lidar com a dor do luto. O drama se desenvolve em uma comédia-romântica bem versada nos caminhos do gênero, e ao fazer as mensagens caírem nas mãos de um jovem e bem sucedido corretor de imóveis, McKendrick aposta em uma re-edição de Sintonia de Amor (1993) e Mens@gem Para Você (1998) com uma leitura mais do que interessante sobre nossa relação com o digital. Ao perder as mensagens da irmã, mais a fundo no filme, Jill sente como se a irmã tivesse morrido uma segunda vez.
Para Chris Marker, o que de mais interessante reside em Vertigo (1958) é como o filme trabalha com um conceito que se tornaria central no sucesso dos videogames: uma segunda vida. O conflito romântico se posta logo cedo: ao invés de contar a Jill sobre as mensagens, Wes usa as informações que tem para construir uma relação que se dá, de todas as cidades, na São Francisco do filme de Hitchcock. Espécie de Gavin Elster, fica evidente que o jovem não é um charlatão como o podcaster que Jill encontra por acaso em um café, mas talvez mais como Scottie, cegado pela paixão, ou como Chow Mo-wan (de Amor à Flor da Pele, 2001): lidando ele próprio com seus próprios lutos e demônios, não é capaz de contá-la a verdade. Me pergunto como seria se o encontro no banco fosse realizado antes que soubéssemos que Wes recebia as mensagens. E fiquemos, agora, com esse banco.
No texto célebre de Chris Marker, este menciona como as mudanças de São Francisco são personagem essencial do filme de Hitchcock. Morando sozinha na cidade, Jill encontra um pequeno banco com vista para a Golden Gate, onde vai para mandar mensagens à irmã. Perceba como McKendrick decupa, ou seja, materializa, a cena. Um plano médio de Deutch sentada ao banco (1), um close de seu rosto com câmera na mão (2), um perfil médio do lado esquerdo (3), um outro plano do lado esquerdo por onde Wes há de aparecer (4), e um plano de não mais de um segundo da própria Golden Gate (5). Poderíamos estar ali ou em qualquer parque do planeta, mas se o princípio da montagem soviética é construir significado por meio de imagens (filmemos um plano de uma jovem em um banco do Parcão (1), em Porto Alegre, e um outro da Golden Gate (2), e a ilusão seria de estes estarem frente a frente), este tipo de decupagem (proliferado pelos serviços de streaming) faz o oposto: desmonta e destitui da diegese seu potencial de expressar a si própria.
Pois o luto não vem pelo gesto, pelo relato, pela transformação que uma atriz como Deutch é capaz, e até parece executar, mas por uma coleção de tiques: o close com câmera na mão para demonstrar proximidade, a luz estourada com o fundo desfocado para demonstrar alguma presença sobrenatural, a trilha dramática e o corte dinâmico. Eis uma diretora que não confia no material que ela própria escreveu, e nas imagens que pode fazer deste material.
Após se conhecerem no encontro fabricado por Wes, ele e Jill jantam em uma lanchonete. Os cortes diminuem, McKendrick encontra um bom ângulo dos dois em um plano que dura coisa de três segundos, e o contraplano um do outro parece entrar em harmonia com a conversa que tem. O filme parece, por uma cena, encontrar a conexão entre a diegese e o material que assistimos. A segunda hora se torna melhor que a primeira, e melhor ainda é como a jornada de Jill é pessoal e profundamente afetada pelo capitalismo. Falta à Nick Robinson todas as coisas que fazem Tom Hanks adorado, mas Deutch carrega, até onde pode.
A cena final ilustra todas as questões comentadas acima: em um dia de sucesso para seu novo food truck, Dancing On My Own, de Robyn, volta a tocar. É um som diegético, ou seja, toca no mundo do filme, e Jill e todos os outros ao redor começam a dançar, sozinhos, mas juntos. Não deixa de ser um belo momento, que se amarra com as duas irmãs dançando juntas, mas separadas anteriormente no filme. Mas perceba como o som, mais uma vez, diegético, é percebido no material do filme, ou seja, que nós vemos e ouvimos, como a única faixa sonora. A música que ouvimos é exatamente igual se a tocássemos com fones de ouvido, e embora esta seja uma convenção bastante comum, se é para sugerir uma intervenção do sobrenatural (a música das duas irmãs tocar justamente naquele momento), porque não deixar ela ressoar no som ambiente?
É a suposta beleza cristalina de um cinema que pode até trazer histórias humanas, como a bela história que vemos aqui, mas que não entende que a real beleza vem da imperfeição.