Crítica | O Fim da Pobreza (1972)

O FIM DA POBREZA

 
 

Em comédia de costumes, Luigi Comencini disseca o jogo das classes, revelando uma distância insuperável


Se fossemos resumir Semeando a Ilusão (1972) a uma cena, ou a um grupo de cenas, seriam aquelas onde o casal composto por Pepino e Antonia jogam o jogo de cartas do título original (Scopone Scientifico) com a ricaça americana que mora em seu bairro, e que roda o mundo buscando adversários.

Interpretada por uma Bette Davis que parece aceitar sua crescente vulnerabilidade física, a ricaça tem como companheiro outro ator americano: Joseph Cotten é ao mesmo tempo serviçal e ex-amante, motorista e espécie de companheiro de vida. Não ouvimos de mais nenhum parente ou amigo da velha (como a chamam), todos são empregados ou adversários, como o próprio Cotten (seu personagem se chama George) revela em um monólogo. Ela vive sozinha, com uma coleção de corpos terrestres que a orbitam, e que se aproximam apenas com sua permissão. A primeira cena do filme a mostra descendo de um avião, carregada, e a vila que aluga todos os alunos, localizada estrategicamente acima do restante da cidade, onde é possível ver Roma como uma imperatriz vendo uma maquete de seus domínios. É aqui que ficam os pobres? É quase possível ouvi-la perguntar.

Pois o jogo das classes não precisa de um design imposto sobre o mundo, ou de tentativas rebuscadas de tornar o que já é evidente em seu tecido não mais que um palimpsesto. Quando filmes como Que Horas Ela Volta (2014) e Parasita (2019) tentam recriar a geometria e a estética que reside entre a pobreza e a riqueza, esbarram em suas próprias transformações em filmes que já falam de uma posição privilegiada. Imagine ter de recriar digitalmente uma casa para poder fazer uma crítica à burguesia.

Com Comencini, cineasta que atingiu o mais puro sublime em um filme justamente sobre a humanidade mesmo na burguesia (Incompreso, 1966), as linhas que demarcam quem vive onde são escavadas, e não encobertas pela massa cinematográfica. Pensemos na cena que se sucede ao fim dos créditos nos quais Davis é carregada até um carro onde passa a ser entrevistada por uma jovem jornalista, explicando que sua vida gira em torno do jogo de cartas. Em certo momento, ela menciona que o palacete que aluga fica ao lado de uma favela, mas que estes mantém uma relação “cordial”. Com uma imagem como esta abaixo, a cena poderia ser muda:

Enquanto lava roupas e cuida do irmão mais novo, a jovem Cleópatra, filha de Pepino e Antonia, ouve no rádio a entrevista da velha, cuja presença ali só poderia se fazer de forma virtual. Ainda na mesma sequência, vemos um movimento de câmera que vai do palacete à beleza distante de Roma (a imagem mais acima) e então se funde pelo corte brusco a uma apresentação da vila onde moram os protagonistas: sem a necessidade de câmeras IMAX ou de milimetragens exclusivas, compreendemos a enorme distância de uma rua que denota que a pobreza quase não tem fim, e a proximidade enganosa entre os plebeus e a burguesia.

O jogo de classes, como deixa claro este filme de Comencini, cineasta que parece compreendê-lo e, compreendendo essa compreensão, é capaz de analisá-lo criticamente de cima a baixo (muito ao contrário do que faz PTA, por exemplo), o demarcando por diferentes cartas: o barulho (a cacofonia e a harmonia); 

o espaço (abarrotado / abundante e adornado);

a estética (os barracos amontoados, a arquitetura classicista);

o domínio da linguagem (a velha sabe fazer o casal se sentir em casa, domina as conversas, exercer sobre eles poder sem precisar mandar ou ameaçar), este último o qual Comencini traz ao centro de seu filme.

Voltemos às muitas cenas de jogo, e especialmente à sua decupagem: ao que me lembro de uma das mais interessantes observações de linguagem humana em um filme hollywoodiano do século 21. De todos os lugares, vinda de uma ficção científica de médio porte estrelada por ninguém menos que Justin Timberlake. O Preço do Amanhã (2011) não é mais do que o tipo de filme feito na última era das locadoras: nele, a humanidade evoluiu a ponto de tornar o dinheiro em tempo, o qual todos possuem em um relógio interno nos braços que, se zerado, faz a pessoa morrer. Nas zonas pobres as pessoas vivem com não muito mais que um dia. Nas zonas ricas, séculos e milênios são guardados em cofres. Espécie de Robin Hood, o personagem de Timberlake consegue dinheiro (ou tempo) o suficiente para poder perfurar as zonas de tempo, mas, ao chegar em uma área rica, é abordado por uma garçonete: você não é daqui, não é? Está sempre correndo.

Talvez a dublagem italiana, que à época era considerada a norma para a banda sonora da maioria dos filmes, ofereça uma espécie de apaziguamento dessa diferença na encenação. Língua tão romântica como alta, o italiano é caloroso o suficiente para que pareça aproximar a todos. Talvez se ouvíssemos o sotaque de Bette Davis, ou mesmo sua personagem falando em inglês, e a Torre de Babel se tornaria em outro impeditivo, outra barreira. A questão é que enquanto Pepino, Antonia, seus filhos e a câmera correm para percorrer pequenas distâncias, se desviar de cômodos, comprar pão, a velha nem consegue mais andar, e percorre distâncias inimagináveis para quem vive com um caminhão caindo aos pedaços.

Riqueza é poder parar no tempo.

Mas chega de desvios, enfim às cenas de jogo.

Decupadas quase de modo hollywoodiano-clássico: planos gerais e planos individuais, que hora se juntam hora se separam, em um 8-4-2 um pouco mais liberto. Vemos quem fala, às vezes quem reage, mas ambos parecem se suceder com naturalidade, mérito da encenação e do ritmo (não da montagem, mas da encenação) conduzido pelo cineasta. É o maior momento de “igualdade”, talvez? Onde a velha empresta milhões para seus convidados desafiarem-na. Curiosamente, mesmo que logo entre em uma jornada de percalços com a saúde que a aproximem da morte (o filme ter sido lançado no mesmo ano de O Discreto Charme da Burguesia é motivo de investigação), ela segue tendo, a seu favor, o tempo. Pois não importa apenas o tempo que resta pela frente, mas todo o tempo que foi vivido, todos os jogos contra diferentes jogadores de diferentes estilos que a permitem entender as pequenas artimanhas do jogo que desestruturam seu componente de sorte. O tempo que a aproxima de sua partida para seu próximo destino, que fará com que Pepino e Antonia tenham de esperar mais um ano na pobreza, olhando de baixo.

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