Crítica | Samba Traoré (1992)
RITMO E PERTENCIMENTO
Obra prima da Burkina Fasso, filme de Idrissa Ouédraogo mostra caminhos possíveis para um novo cinema
O começo de Samba Traoré nos mostra um assalto que no começo dá errado, resultando em uma morte, mas que termina com o dinheiro nas mãos de um homem que deixa o ex-companheiro estatelado no chão. É uma decisão que retira do filme todo um componente de mistério: o que teria feito Samba para voltar rico a seu povoado?
Mesmo componente que Kleber Mendonça Filho e Ryan Coogler tentaram trabalhar, de certo modo, com seus Bacurau e Sinners, com protagonistas que retornam à seus respectivos povoados após um longo período na "cidade grande". No primeiro, a suposta protagonista não se dilui, mas desloca o protagonismo para a própria cidade do título. No segundo, os dois protagonistas logo percebem as barreiras culturais entre eles e seus antigos amigos.
Nenhum dos dois filmes, porém, faz muito com esse componente. É proposital: os filmes não são sobre o que seus protagonistas fizeram, mas sobre como voltaram. O que se perde, porém, é a possibilidade de se criar modulação diegética, de tornar mais complexa as relações entre personagens, de intensificar o filme por como suas arestas revelam não lacunas, mas histórias que compõem o filme mesmo que nunca tenham sido escritas ou filmadas. Ambos os filmes são tomados, afinal, de uma auto-consciência contemporânea: o de KMF, algo mais austero, parece levantar constantemente a sobrancelha para dizer “olhem só como isso reflete a nossa realidade contemporânea”; o de Coogler, algo mais "descolado", parece sorrir constantemente com o canto da boca como quem diz “entenderam?”. O resultado são personagens menos “pessoas” do que representações do posicionamento político/ideológico de seus respectivos filmes. Arquétipos, alguns até bem encenados, outros projeções vazias de atores fazendo sotaques, caras e bocas.
Já Samba Traoré, por sua vez, trabalha o mistério não de um ponto de vista do suspense: quando Samba foge mata adentro e deixa a caravana, que leva a esposa, grávida, ao médico, no meio da estrada, não o seguimos com uma câmera tremida que busque mostrar "o estado mental" do personagem em seu momento de dilema moral. O plano segue o mesmo de antes, aberto, conforme Samba desaparece ao fundo. É um mistério interno e moral, e não externo e narrativo: o que se perguntam seus conterrâneos, com medo da resposta, é como ele conseguiu aquele dinheiro que estava sendo usado, de todas as coisas, para melhorar as condições daquele povoado. Não precisamos ver muitas cenas para que fique evidente como as relações daquelas pessoas se afetam com a dúvida.
O mundo filmado por Ouédraogo é integrado a esse ponto, e regido sob um princípio estilístico que já se apresenta naquela primeira cena. Filmada em um único plano, a câmera não faz firulas, mas se movimenta de modo que a ação se desenvolva hora em suas periferias, hora em seu centro. O restante do filme parece um deságue natural do ato cometido por Samba: tanto narrativo e dramático como formal. Os planos longos se somam e, em suas durações, se dilatam. O movimento em cena, de atores, animais, do vento nas árvores, ocorre de maneira como que paralela, mas independente e não afetada pela posição da câmera. Se vamos à esquerda, não necessariamente é para acompanhar o movimento: este pode pender um pouco mais para a direita, mas logo tende a se reencontrar em algum ponto.
Assim, o escopo do filme não se limita, ou se enraíza, exclusivamente a um acompanhar obsessivo do cotidiano daquele povoado. Sentimos seu andar, somos privados de algumas coisas, conhecemos melhor outras, até que logo se condensam em momentos chave que nos permitem ver vestígios de nossa própria humanidade. É um filme que vai desse curso impiedoso e imparável do tempo no espaço, e do movimento pelo espaço no tempo, que vai de Mizoguchi a Tarkovsky, passando por um quê de Ford e Lang, sem deixar de estabelecer uma marca muito própria.
Passado quase um mês que o assisti, e Samba Traoré tem a graciosidade dos grandes filmes, uma simplicidade aparente que é resultado de exímio controle de um realizador que nunca encontrou seu reconhecimento. Filme que entende que a câmera e a ação não são, ou não precisam ser, uma coisa só. E que é na conversa entre ambos que sensações se criam, se modificam e se sedimentam. Em algum momento este cinema vernacular se perdeu, assim como a excelência que se espera aprender dos grandes mestres foi preterida por uma cartilha construída em torno de uma pauta. É um filme que me remonta ao que poderia ter sido, ou deveria ter sido, e que, se compreendido, poderia oferecer um ponto de saída para um cinema estagnado, auto-indulgente e inofensivo como o que se vê ano após ano ser bajulado no circuito comercial e festivalesco.