Crítica | XIca da silva (1976)

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Xica da Silva, ironicamente, demora para protagonizar Xica da Silva (1976), mas sem dúvida é o personagem favorito de seu diretor


Grande sucesso do cinema brasileiro nos anos 70, Xica da Silva (1976), foi restaurada em 4K. De certa maneira, acaba funcionando como uma continuação do projeto de revisão histórica que o diretor do filme, Carlos Diegues (apelidado de Cacá), já havia começado à 16 anos atrás, ao organizar a realização de 5x Favela - agora por nós mesmos (2010), antologia de cinco histórias realizadas por moradores de favela do Rio de Janeiro. O filme é uma resposta a Cinco Vezes Favela (1962), filme realizado em nome do Centro de Cultura popular (CPC), em celebração dos 25 anos da União Nacional dos Estudantes (UNE).

‍ ‍“Tenho visto que tem uma população de jovens cineastas nessas favelas fazendo filmes interessantíssimos, então porque não fazer Cinco Vezes Favela de novo, agora por nós mesmos.”

Carlos Diegues, em entrevista ao programa Bastidores, da Multishow, disponível aqui

Dos curtas exibidos em 62, gosto muito de Pedreira de São Diogo (Leon Hirzman*) e de Couro de Gato (Joaquim Pedro de Andrade). Já os outros três (incluso neles o de Cacá Diegues), são o que é esperado de estudantes universitários fazendo cinema político nos anos 60.

Em seu livro publicado em 63, Revisão Crítica do Cinema Brasileiro, Glauber Rocha** escreve o seguinte: “Cinco vezes favela é um filme de jovens, é politicamente agressivo na sua desorganização e oscila entre altos e baixos: apesar dos seus defeitos, é um marco.”. Compartilho de uma opinião parecida, por mais que o longa tenha um olhar afastado da realidade das favelas e não consiga pensar pessoas negras e/ou periféricas como realizadores, é um objeto interessante para estudo, feito com boas intenções.

14 anos depois, Cacá Diegues, além de continuar sendo bem-intencionado demonstra que tem um novo olhar sobre o Brasil e que consegue pensar personagens negros como detentores de agência. Tanto narrativamente, como na forma que filma seus personagens.

Xica da Silva (Zezé Motta), é uma escrava pertencente à uma família rica de Minas Gerais (MG), no final do século XVIII. A forma que encontra de saciar seus desejos —desde ter uma vida luxuosa a libertar o povo negro da escravidão— é utilizar seu jeitinho, seus “atributos femininos” e fazendo o que só ela sabe fazer (isso é uma referência à uma gag recorrente do filme que prefiro que seja vista sem spoiler).

O longa abre numa estrada de terra com o encontro de três grupos: a caravana do Comendador João Fernandes (Walmor Chagas), enviado por Portugal para gerir a mineração de diamantes em MG; músicos viajantes da região; e o bando de Teodoro (Marcos Vinicius), homem negro livre que é um ladrão e contrabandista de diamantes de sucesso. O comendador e o criminoso têm um embate (com uma leve tensão homoerótica) e os músicos fogem.

O Brasil retratado é terra de ninguém e ao mesmo tempo de todos, um espaço de constante disputa e de muita diversidade, com muitos personagens.


João Fernandes e Xica da Silva

Em meio a esse grande elenco de personagens — não é à toa que a obra original teve material suficiente para a novela de 1996 —, Xica passa a primeira metade do filme como coadjuvante de sua própria história. Ela somente aparece na narrativa para desorganizar a mise en scene. Seduzindo, chamando a atenção e manipulando os brancos para fazerem suas vontades. Nessas cenas acompanhadas da musica Xica da Silva, de Jorge Ben, ela toma o controle de seu destino aos poucos — e eventualmente o dos outros.

Para dar conta de tantos personagens disputando espaço, é escolhido um enquadramento teatral em vários de seus planos e uma atuação expressiva. É nessa encenação que ela age, sempre nos cantos dos planos gerais do filme, se manifestando somente quando necessário.

Quando vai fazer o que só ela sabe, Xica corre para o centro da imagem (visualmente e narrativamente). Cortes rápidos entre suas risadas e sorrisos, a performance da vez e as reações de pessoas que não esperavam isso de uma mulher negra. Essas reações são variadas: nojo, raiva, surpresa, desejo…

Ao encontrar o Comendador João Fernandes, alega que José (Stephan Nercessian), o filho de seu antigo dono a agride e desnuda-se na frente da nobre sociedade mineira. Isso tudo era mentira, o rapaz até aquele momento do filme era um dos poucos que demonstrava carinho e respeito por Xica, sentimentos que ela conquistou transando com ele.

O importante dessa cena, no entanto, é que João dá um olhar à Xica que ela não havia recebido antes. Ele a olha com admiração.

O evento faz com que ela seja comprada por João Fernandes, e eles iniciam um romance. Após insistir astutamente, Xica consegue ser alforriada e goza dos privilégios de uma rainha, tomando o lugar da esposa Comendador, que está em Portugal.

Seu recém adquirido caráter de nobreza muda completamente sua aparência. Antes vestida de trapos, Xica esbanja roupas luxuosas, maquiagens, perucas. Ela recebe até um barco, e os escravos de João se tornam sua corte. Lá eles simulam costumes e a estética de uma realeza africana— parece um paraíso.

Xica em seu barco

Na metade do longa, vemos Xica em seu barco-paraíso; ao mesmo tempo, João Fernandes e seu homem discutem as consequências econômicas e políticas das ações de Conde Valadares (José Wilker), enviado pela Coroa. A cena é resolvida com uma montagem paralela entre ela os homens conversando — é como se ela habitasse um outro tempo do filme. Porém, dos possíveis percalços causados pela chegada do português, o pior, como exposto pelos cortes do filme, seria se Xica perdesse seus privilégios. Cacá Diegues pouco se importa com a condição econômica dos comerciantes de ouro e diamantes.


O jeitinho de Xica, sua arma contra o mundo, esbarra em algo que não consegue contornar: a chegada do português. Tendo sua posição social finalmente estabelecida, o filme parece se decidir que ela é sua protagonista, e vai ser a agente principal nos conflitos que seguem.

Suas perucas somem, começa a se vestir como uma pirata. Não sobram mais artifícios fílmicos que a resguardem, e os outros personagens também deixam de fazê-lo. Xica começa sua operação de acabar com Conde Valadares, atormentando-o até que ele volte a Portugal.

Quando ela se despe e arma sua peripécia final com com o português, já não é mais uma estratégia, é o gozo puro em causar desordem — que somente é possível de ser desfrutado por sua nova posição social. Ela morde, joga comida, seduz, bate e faz o que quer com Conde Valadares, que entra em choque e foge.

Porém, essa cena é o ultimo gostinho de poder que vemos Xica esbanjar. A trilha sonora acompanha essa mudança de registro: a musica tema que clama o nome dela é substituída por um batuque na cena.

É sintomático que a trilha principal é adiegética, ninguém canta seu nome como Jorge Ben canta. O filme quer acreditar nela, já seu mundo, não tanto.

Comendador João Fernandes acaba sendo enviado de volta a Portugal e Xica é obrigada a se refugiar em uma igreja de religiosos negros, construída por ela, quando teve dinheiro. Agora ela se veste com uma capa preta.

No fim, tenho a impressão de que Cacá Diegues não soube mais o que fazer com sua personagem (eu também não saberia), mas sabe que precisa continuar mostrando-a. Por isso, Xica reencontra José, e faz o que só ela sabe fazer. É escolhido finalizar o filme com a gag principal, para dar um alívio e não terminar o filme com tom pesado. Pela ultima vez escutamos:

“Xica da, Xica da, Xica da
Xica da Silva, a negra
Xica da, Xica da, Xica da
Xica da Silva, a negra”

- Xica da Silva, de Jorge Ben.

Xica e José no final do filme


*meu nome é +- em homenagem à ele
**na p.139 da edição da Cosac & Naify de 2003

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