Crítica | O Buraco (2021)

NÃO HÁ O QUE DESVENDAR

 
 

Entre o realismo e a sugestão sobrenatural, Frammartino faz um dos filmes mais interessantes da década


Em uma cena de As Quatro Voltas (2010), segundo longa do cineasta italiano Michelangelo Frammartino, a câmera faz um movimento que nos permite ver uma larga porção de terra, conforme uma procissão passa de um lado a outro do vale. Não “sabemos” quem são nenhuma daquelas pessoas, não nos aproximamos dela em nenhum momento do filme, não há qualquer narrativa concreta exceto o dia a dia de um pastor e suas ovelhas em um vilarejo de paisagem bucólica. E nem este dia a dia como fariam um Ozu ou um Tati, mas fragmentos deste dia a dia, que frequentemente se derivam para acompanhar uma ou outra cabra, um ou outro canto do vilarejo.

Uma década depois, em Il Buco (2021), vamos das gotas que caem em uma caverna para o olho de um homem, das tochas dos espeleólogos às velas deste camponês que vive nas montanhas em torno de uma das mais profundas cavernas já encontradas.

Quando o grupo de jovens chega ao fim da caverna, um deles olha para os que vem de cima e sinaliza: acabou.

Não há, nestes dois filmes de Frammartino, qualquer magia, qualquer confirmação do fantástico, qualquer traço narrativo que não resíduos esparsos dos acontecimentos registrados pela câmera. O que talvez possa dar a ideia de que se trata de um documentário, ou de um filme experimental, mas acredito que não.

O que faz Frammartino nesses dois filmes não é apenas registrar o pastoral, e nem mesmo articular uma ideia de realismo a partir da condução desses registros (o que já é bem mais impressionante e raro, hoje em dia), mas propor uma hipótese bastante aguda sobre a natureza do homem, sobre o homem na natureza, sobre a natureza e o homem, sobre o homem como parte indissociável da natureza, por meio de uma possibilidade que o Cinema divide apenas com a Literatura.

Ir de um ponto a outro, percorrer uma distância virtualmente impossível em questão de segundos, nos permitir apreender algo que, com nossos sentidos, no mundo natural, não seríamos capazes. Não há resolução para o mistério, não há pote de ouro no fim da caverna, se não a constatação de que ela, como nós, é senão parte de um ecossistema que compreende a todos e cuja total compreensão é inconcebível.

Assim, sem se aproximar, sem a necessidade de falar ou de mostrar, Frammartino nos aproxima do mundo que filma pela forma como espera, como observa, como conduz o próprio olhar. Há um caráter de épico no escopo de sua aventura - este filme, nas mão de Hollywood, seria um desastre -, mas de profundamente íntimo mesmo nas imagens mais grandes, mais distantes e mais indecifráveis.

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Nandatsunami @ Opinião - 21/08