Crítica | Big Thief - Dragon New Warm Mountain, I Believe In You

No que acreditar?

 
 

Entre cantigas de amor e declarações metafóricas que nos ajudam tanto a dançar quanto a ninar, Big Thief e seus 4 integrantes passam a ser apenas um só, concisos e corajosos, desbravando esse mundo assustador sob uma ótica fantástica.


Meu amigo imaginário, 20 anos atrás, se chamava Bob e se divertia quando eu olhava diretamente para o sol por tempo demais, dentro de um carro a 120 km/h, indo em direção à praia, apenas para ver uma circunferência brilhante que se mexia mesmo com os olhos fechados. A sensação de finalmente chegar, sem saber quem eu veria naqueles poucos dias de férias, me empolgava muito mais do que me amedrontava. Queria conhecer o desconhecido. A chuva de verão era um convite para brincar e não uma placa de pare para qualquer movimento para fora do sofá. Naquela época, eu poderia tranquilamente me juntar aos animais desenhados à mão na capa, em volta da fogueira, e me sentir pertencente, bailando com seus instrumentos em mãos. Acho que hoje necessitaria de uma boa dosagem de cogumelo para isso.

Para explicar a magia e o poder do disco, então, precisamos começar pelo epílogo — mais especificamente, pela minha música favorita (em constante mudança esta semana) de todo o repertório da banda, Blue Lightning. A bateria conta o tempo enquanto a guitarra de Buck Meek ameaça certo protagonismo nos primeiros segundos. É o amigo chamativo e exibicionista, mas com um ótimo coração, e, em questão de tempo nenhum, todos se unem em um compasso semirrancheiro. A música é simples: dois pra lá, dois pra cá. O coração aquece; no final das contas, é uma canção sobre a eterna nostalgia de nunca parar de processar sua infância, com a facilidade que só Adrianne Lenker parece ter para olhar o mundo ao seu redor e sintetizar algo que sempre parece maior que a própria vida em um pedaço de papel.

Two-eyed lie, is it fight or fly?
I wanna be the shoelace that you tie
'Til the end, will you be my friend?
I wanna be the mountain, kiss the sky
Yeah, I wanna be the vapor gets you high
Yeah, I wanna feel so happy that I cry
Yeah, I wanna be the shoelace that you tie
Yeah, I wanna live forever 'til I die
Yeah, I wanna live forever 'til I die

Do outro lado do disco — ou seja, em sua faixa inicial, Change — a introdução ao projeto soa muito mais comedida que a faixa já comentada, reduzindo os instrumentos a apenas 4 e usando o sintetizador muito esporadicamente como objeto de engrandecimento à filosofia embutida em suas linhas. Adrianne — que escreveu 19 das 20 músicas — parece descobrir algo novo ao final de cada uma — nos pergunta se gostaríamos de viver pra sempre enquanto tudo à nossa volta passa. Se sorriríamos para sempre, sem nunca chorar? Existe uma desconstrução imediata do objeto de desejo do ser humano enquanto vive através do exagero. Chorar é bom e tem dias em que não gostaríamos de estar vivos, mas faz parte da beleza do viver.

Time Escaping começa a complexificar o fazer musical, mas nunca exclui do processo a admiração ou a própria surpresa deles diante das próprias experimentações. Segundo James Krivchenia, o intuito da composição era fazer com que as guitarras soassem extremamente secas. Queriam buscar um groove extremamente cru, em que os dedos de Adrianne e Buck Meek sobre suas respectivas cordas ditassem o ritmo. Para isso, colocaram todo tipo de cartão (fossem eles de transporte público, banco, visita) dentro dos violões, abafando as cordas e criando harmônicos diferentes. Adrianne escuta a estranheza do resultado e proclama, nos primeiros segundos da música: Cool.

Conforme nos tornamos íntimos dessa história, vemos a ingenuidade se tornar um caminho em direção à profundidade. Em Certainty, a canção mais country do disco, ouvimos as vozes de Lenker e Meek cantando sobre, por vezes, se sentirem crianças, sobre a admiração mútua que têm um pelo outro e sobre a crença na vida nascendo através do olhar alheio, quase como um batismo. Os olhos fixos um no outro, as palavras que não precisariam ser ditas, mas que são ditas mesmo assim. My certainty is wild, weaving / For you, I am a child, believing.

Logo depois, na faixa-título, as colagens ambientais criam um ambiente esotérico e quase irreal. Um templo parece levitar acima do chão, cercado por árvores completamente cobertas pela névoa. É um salto direto do mundano para o fantasioso, feito sem qualquer cerimônia. O grupo simplesmente acredita que aquele lugar religioso pode existir e então ele existe. A abstração da sonoridade faz o resto, transformando o que ouvimos em alguma coisa muito difícil de definir. Algo imortal. It's a little bit magic.

Nessa toada, cada canção se distancia mais e mais de uma identidade sonora fixa. O disco nos desafia na experiência opaca, nublada e melancólica de Blurred View, com seus elementos eletrônicos e loops de percussão — provavelmente a faixa mais obscura de toda a discografia da banda. E logo em seguida (literalmente), nos convida a bailar incessantemente por quatro minutos em Red Moon. São três versos e nenhum refrão; violinos e assovios ocupam o primeiro plano, enquanto Adrianne grita em saudação à sua avó como se ela tivesse acabado de aparecer de surpresa no meio de sua apresentação. É difícil imaginar uma transição mais brusca, mas o apego às regras de coesão, como percebe-se desde o início, é o inimigo nº 1 da experiência artística e da diversão.

Essa constante transição entre complexidade e simplicidade, fantasia e realismo pode parecer levemente confusa, mas nunca proposital. É muito mais humana do que isso, é a consciência como vetor de algo maior. No Reason surge, então, como o ponto central do disco, organizando tudo aquilo que veio antes sem necessariamente precisar explicá-lo. Ancorada por uma linda flauta e pela guitarra de 12 cordas de Buck Meek, a melodia doce do refrão projeta a voz de Adrianne e o coro feminino que a acompanha: There is no reason to believe / No reason at all. O mais importante de toda e qualquer experiência terrena é, segundo eles, por um instante, olhar ao redor e se dissolver como um sentimento, como um clarão ou como um cílio perdido sobre o casaco.

Já não sei se minhas palavras fazem sentido. Quanto mais penso nesse disco ou em tudo que escrevi até agora, mais vontade tenho de apagar tudo e começar de novo, ou simplesmente não publicar esse texto. Entendo que ele não deve ser explicado, como ousei propor no segundo parágrafo. Mas me sobram dois destaques a serem comentados.

Primeiro, a intimidade promovida pelo dedilhado em uma das declarações de amor mais confessionais de Lenker, em The Only Place. Seus acordes perpetuam um certo pessimismo atrelado à mortalidade, e ela lamenta ter tanto a compartilhar e tão pouco tempo. Nada é fixo, nada é linear. Tudo muda, todo dia. O que é preciso pra libertar nosso corpo celeste? — pergunta ela em Spud Infinity. São muitas questões por música; eu não sei responder nenhuma. Mas também não me importo, porque o “boing” que se repete do berimbau de boca quase me faz rir. A caixa da bateria se diverte em ritmo acelerado. Os violinos harmonizam tudo e, de repente, a maior escritora dessa geração nos deixa com o verso mais idiota e, proporcionalmente, mais bonito a existir.

When I say celestial
I mean extraterrestrial
I mean accepting the alien you've rejected in your own heart
When I say heart, I mean finish
The last one there is a potato knish
Baking too long in the sun of Spud Infinity
When I say infinity, I mean now
Kiss the one you are right now
Kiss your body up and down, other than your elbows
'Cause as for your elbows, they're on their own
Wandering like a rolling stone
Rubbing up against the edges of experience

Krivchenia relembra o momento em que Lenker lhe mostrou o que ela pensava ser uma música descartável chamada “Spud Infinity”, na qual ela rima “finish” com “potato knish”: “Eu ouvi e pensei: ‘Adrianne, estou chorando agora’”, diz ele. “Ela respondeu: ‘Mas eu digo 'pão de alho'. Você não pode dizer 'pão de alho' em uma música’”.

Rolling Stone

Pietro Stefani

Advogado predisposto a fazer tudo menos advogar e quando faz é ouvindo música no processo. Demasiadamente extrovertido e fã exagerado de muitas coisas.

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