Coluna | Carta Aberta aos Críticos de Oscar

Aceitem sua natureza


Começo esse texto com uma retratação.

Como muitos da minha geração, que teve a infância com influência parcial da internet e a juventude profundamente afetada por ela, comecei meus interesses no Cinema em torno do circuito de premiações. Mais especificamente, o Oscar e suas ramificações.

Me parece, ainda hoje, um percurso normal que vai do interesse por filmes ao interesse por cinema. Um afastamento natural do circuito mainstream, aquele que visa única e exclusivamente o lucro, e uma inclinação a uma cultura que visa o debate do cinema.

Mas logo se entende, com o mínimo de esforço e estudo, que o Oscar não é sobre debate. Nas flutuantes quatro horas de cada cerimônia, muitos discursos (a maioria com tom congratulatório), mas nenhum debate. No que tange a chegada até a cerimônia, que o brasileiro médio parece hoje entender melhor mediante as campanhas de Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto, se fala alguma coisa de cinema, mas mais de como a equipe de produção e o elenco são carismáticos, e como as estratégias influenciam no desempenho do filme na cerimônia.

É aqui que começo a minha crítica.

Nomes de peso do cenário crítico nacional, de Tiago Belotti à Isabela Boscov, de Waldemar Dalenogare a Pablo Villaça, todos sabem como o Oscar funciona e todos apontam, com certa frequência, para esse caráter político em seus textos, vídeos, entrevistas e publicações. O que não os impede de seguir contribuindo para a desinformação de seus “leitores” (para usar um termo que Villaça adora) dando ao Oscar uma importância que deveria ser reservada apenas à elite que atende, vota e se esbalda de si própria durante a cerimônia.

É sabido (ou melhor, está disponível para quem quiser saber) que, para votar no Oscar, não é necessário, sequer, ter visto os filmes indicados. O formato de votação já compreende essa possibilidade. São mais de 10 mil votantes elegíveis, e caso as últimas eleições ao redor do mundo não tenham deixado claro, qualquer crivo que ultrapasse a compreensão lógica se torna um concurso de popularidade que inspira dilemas éticos e políticos que estamos longe de poder sequer debater. Ficamos com o cinema. Perguntei para alguns amigos, em uma sessão conjunta dois dias antes da cerimônia de 2026, como eles achavam que a votação era feita. A resposta foi perfeita: um grupo de especialistas se juntam e definem os filmes. Suspeito, empiricamente, que esta é a desconfiança de boa parte das pessoas, munidas também dos comentários dos especialistas do Oscar (os quatro que citei acima, o são) de que “eles” são “muito previsíveis”, e que “eles” tendem a “premiar por causa disso ou daquilo”. Só que o “eles” é uma amostra incompreensível que, a rigor, não tem um comportamento assim tão óbvio.

Pegando apenas os vencedores de melhor filme, é possível observar algumas tendências (a maioria delas temática), mas fomos de Oppenheimer à Anora em apenas um ano. Minha hipótese: eles votam em qualquer coisa que pareça que deva ganhar porque eles não tem qualquer ideia concreta sobre cinema além de sua redução à uma experiência consumista.

Mas isso tampouco importa a este texto. O que importa é a manutenção do status quo. É Isabela Boscov gravar um vídeo falando que (palavras minhas) previu as indicações de O Agente Secreto porque (palavras dela) “o filme tem uma construção minuciosa”. Mas ela sabe que esse não é o motivo de o filme ter sido indicado, pois se não soubesse estaria apontando para a possibilidade de este filme ser bem construído e outros tantos na história do Brasil não serem (e ela saber e ainda assim dizer isso é o que me incomoda). Os motivos para a indicação, e ela sabe quais são, são a popularidade de Kleber no cenário internacional, o Brasil ser visto com bons olhos pelos membros da Academia no momento e, pasmem, uma consistência nas estratégias de produção interna e distribuição externa do cinema nacional. Não tem absolutamente nada a ver com a qualidade do filme do Kleber, que os votantes não tem quaisquer condições de atestar porque, muito provavelmente, é o terceiro filme brasileiro que assistem após Cidade de Deus e Ainda Estou Aqui.

É Tiago Belotti justificar a qualidade de um filme pela quantidade de Oscar, como fez algumas boas vezes. É Pablo Villaça manter uma coluna anual de previsões, cobrir a cerimônia e demonstrar indignação quando um filme que gosta não ganha.

E eu entendo.

Ser crítico de cinema é uma tarefa ingrata. Profissão sem regulamentação. Carreira sem perspectiva financeira. Se faz por amor. Se faz por chamado.

Comentar o Oscar rende e, no fim, que mal faz se divertir com a transformação do cinema em esporte?

Infelizmente, todo o mal do mundo. De nada adianta bradar que o cinema brasileiro merece ser visto, quando todos os esforços residem em capitalizar na validação dele por um crivo inapto de pessoas que, embora façam cinema, o pensam muito pouco.

Proponho, para estas pessoas por quem guardo respeito (Belotti foi o primeiro crítico que acompanhei, Dalenogare já me instruiu com dúvidas que tive sobre divulgação do trabalho crítico, li centenas de texto de Villaça e aprendi um tanto com ele), ou melhor, proponho a quem segue seus respectivos trabalhos, que saibam que não estão seguindo críticos de cinema, mas comentaristas culturais.

Ser crítico é entrar em dialética com a obra, com a história do cinema, com o estado do cinema. Bater palma e capitalizar com o Oscar é ser conivente com este último, ignorar o penúltimo e passar longe do primeiro.

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