Crítica | Steve Lacy - Oh Yeah?

Lovebombing

 
 

Quanto mais nos aprofundamos, mais percebemos as promessas vazias. Steve Lacy nos seduziu com seus ótimos singles e, agora, em seu terceiro álbum de estúdio, Oh Yeah?, parece confirmar a suspeita que na realidade já sabíamos: virou artista de playlist de TikTok.


Era uma vez um jovem guitarrista produzindo músicas diretamente do celular, no GarageBand. O bedroom pop se consolidava como uma força estética no meio dos anos 2010, as formas de produção musical se democratizavam cada vez mais e a ideia de um artista capaz de criar um universo inteiro dentro do próprio quarto parecia não só sedutora, como também a próxima grande maneira de criação dentro da indústria musical - e como forma de protesto a ela também.

Não sabíamos ainda que, mais pro final da década, Frank Ocean penduraria as chuteiras após Blonde - mesmo que tenha lançado ainda um single ou outro. Tyler, the Creator acabara de ir de oito a oitenta e transformar sua carreira com Flower Boy. SZA redefinia o gênero com Ctrle Syd iniciava sua trajetória solo com Fin, abraçando o lo-fi e a sensualidade da própria voz. Brockhampton nos saturava com uma das trilogias mais impactantes da história e uma jovem Clairo começava a lançar uma gravação ou outra no soundcloud.

No meio daquela transição entre supergrupos que desapareciam, outros que desabrochavam e novos protagonistas que surgiam dentro de um corte temporal subestimado na história da música, parecia natural imaginar o cantor como algum - senão o principal - próximo grande capítulo dessa história. Mais especificamente, em 2017, Steve Lacy's Demo veio ao mundo em meio às sessões de gravação do disco hive mind, de sua banda à época, The Internet. O hype foi instantâneo. Sua guitarra imediatamente ganhou status antológico, e a foto de Lacy com ela de um lado e seu baixo do outro contemplava esse retrato incrível de uma possível nova superestrela que precisava apenas de seus dois principais instrumentos e liberdade criativa para fazer magia acontecer.

Mas não era amor. Era Cilada.(Não podia deixar de referenciar o Grupo Molejo em um texto sobre lovebombing).

Entre altos e baixos, a vida e a discografia de todos os outros artistas que mencionei acabaram encontrando autenticidade na perseguição de uma identidade musical - ou, melhor dizendo, na busca por uma identidade pessoal através da música. Alguns demoraram mais para encontrar a própria voz, mas ouvindo suas canções não me resta dúvida de que fazem exatamente a música que desejam fazer. Steve Lacy, por outro lado, soa o completo contrário.

Parece desconfiar de cada segundo do seu processo de criação, dando vida a uma espécie estética da hesitação que transpira em todos seus projetos, não apenas por causa de seu título inquisitório e desconfiado - existindo nesse intervalo entre convicção e dúvida - mas também pela frequente transição entre o brilhantismo de algumas músicas - que começam a parecer sorte - e outras que acredito terem sido importadas do arquivo de suas demos de 2016 (show you me), sem qualquer tratamento ou cuidado.

Todavia, depois do primeiro beijo, nos mostrou a intensidade que gostaríamos de sentir. The Feeling, segunda faixa do disco, é inegavelmente uma das melhores músicas do ano. Angelical e atmosférica no que diz respeito a maneira que organiza seus instrumentos - principalmente quando o sintetizador se aglutina aos vocais de apoio de Alice Smith no refrão quando ele desaba questionando “Am I your baby?” - e brutalmente honesta do que diz respeito a sua letra - se utilizando exclusivamente de uma linguagem tão coloquial quanto um áudio de Whatsapp.

Nessa toada, Lacy não é um grande compositor ou poeta, como também fica claro no segundo verso de Doom: I'm a big baby suckin' on big titties / Karma's a bitch and I bet she's pretty / Life in a freaked-out generation / Everybody fuckin', but nobody gives a Fuck 'bout love, just validation. Então, para suas canções funcionarem, preciso acreditar que ele realmente se importa com que está dizendo. E por duas músicas, eu acredito.

Os simples C’mons da faixa-título me fazem dar a mão para ele e sair correndo de olhos fechados enquanto seu baixo distorcido guia minhas pernas. Porém, em is it cool?, as coisas começam a ficar confusas.Ele se vulnerabiliza a frente de uma mulher (no caso SZA) que não quer abrir suas bagagens, apenas viver uma relação casual e física. Lacy, então, pinta-se como o homem evoluído e desconstruído. Quer comprometimento (mesmo que admita ter traído muitas vezes). A produção futurista, com suas teclas cintilantes e o bumbo constantemente ecoando contagiam - embora não alcance o peso emocional que a composição procura. Contudo, os vocais e a química entre ambos bastam para divertir.

A partir daí, o encanto começa a desaparecer. Lacy conta com participações da lendária Erykah Badu e da ótima Cecile Believe, mas as reduz a refrões ou backing vocals, desperdiçando duas artistas que poderiam expandir exponencialmente o universo do disco. Quanto mais o álbum avança, mais a mixagem soa desleixada (Bebe é seu exemplo mais evidente) e seus vícios de composição ficam escancarados. Nice Shoes / In Your World parece uma tentativa de fundir uma música do JPEGMAFIA com uma do Mac Miller sem compreender plenamente o que torna qualquer um dos dois tão fascinantes. Aos poucos, suas tiradas deixam de soar espontâneas e passam a parecer calculadas, cansativas e, consequentemente, dignas de revirar os olhos.

Pronto. O feitiço acabou. Mas se me perguntarem se tivemos um breve caso, eu vou confirmar. É só uma pena ver tamanho potencial desperdiçado. Não pretendo voltar ao álbum depois desta crítica. No fim das contas, tudo foi raso demais para provocar qualquer sentimento além da necessidade de escrever alguns parágrafos.

Te vejo em alguma playlist qualquer por aí, Steve. Talvez até lembre com carinho dos bons momentos!

Pietro Stefani

Advogado predisposto a fazer tudo menos advogar e quando faz é ouvindo música no processo. Demasiadamente extrovertido e fã exagerado de muitas coisas.

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