Crítica | Samurai Jack (2001-2017)

O mal que é Aku

 
 

Entre passado e futuro: Samurai Jack narra pelos detalhes.


Samurai Jack, desenho clássico do Cartoon Network e parte da comumente conhecida "era dourada" dos títulos do canal. Apesar de ser um dos clássicos, lembro vagamente de acompanhá-lo com afinco quando era criança — tudo que tenho são flashes, em comparação com As Meninas Superpoderosas, do qual eu conseguiria citar episódios inteiros de cabo a rabo. Mas foram justamente esses flashes que sempre me acompanharam ao longo da vida, e que na era pós-streaming me levaram a uma revisitação nostálgica — e também, de certa forma, à primeira visita como adulto a diversos títulos que vi durante a infância.

Um desses flashes, em específico, se trata de um episódio em que um dos primeiros robôs criados por Aku para caçar Jack, já obsoleto, revive suas memórias em clima noir. Como só me lembrava do flash, eu nem sabia de qual contexto aquele episódio fazia parte.

Chegamos então há mais ou menos dois meses, quando decidi rever Samurai Jack com os olhos já amadurecidos — sabendo, ao menos, que a jornada do samurai nunca foi simples. A premissa inicial é a de um guerreiro transportado ao futuro, onde o mal de Aku reina. O desenho começa e somos apresentados a Aku, à sua maldade, à sua ligação com a família de Jack e à jornada dele até a luta que o envia ao futuro. E é quando chegamos ao futuro que tudo passa a fascinar.


Ter a maturidade e a vivência para entender os detalhes da atmosfera fez toda a diferença: as músicas techno, os grupos sociais identificáveis por suas vestimentas way ahead of time, a metáfora de fios e engrenagens como sangue e vísceras nas lutas contra robôs. É curioso como esse contraste visual — o traço limpo, quase minimalista, de Genndy Tartakovsky, contra um mundo tomado pela sujeira mecânica de Aku — carrega sozinho boa parte do peso emocional da série. Não é um desenho que precisa de diálogo para dizer que aquele mundo é errado, desolado, fora do lugar; a composição de cada cena já grita isso.

Para um desenho infantil, ele tem poucos momentos divertidos — tanto antes quanto depois de o Adult Swim assumir a produção. Em quase todos os episódios, Jack nunca descansa, nunca está em paz: é sempre atormentado por Aku, pelo seu passado tomado por Aku, pelo seu presente e pelo seu futuro. E é aí que entra um ponto muito importante: a esperança do samurai em relação a voltar no tempo e resolver tudo.

São cinco temporadas. Durante as três primeiras, esse sentimento de esperança está muito presente em todos os âmbitos — tanto vindo da população que Jack vai encontrando quanto dele mesmo. Mas quando chegamos à quarta e à quinta temporada, isso desaparece por completo da parte de Jack: ele já desistiu de tudo, não quer mais lutar, e não existe mais nenhum portal que o leve de volta ao passado. Ele só vaga por aí fugindo de Aku, para que outras pessoas não morram mais por sua causa.


Chegamos então à quinta temporada, que vejo como um divisor de águas — bem mais séria que as anteriores, embora, como era de se esperar de uma série com um hiato gigante entre produções (2004 a 2017), tenha um final um pouco corrido demais. Talvez eu esteja exigindo demais por se tratar de um desenho, mas enfim: nela vemos um Jack desolado, que não tem mais sua espada mágica e muitas vezes contempla o haraquiri.

Foi justamente revendo com esse olhar mais atento que aquele episódio específico — o do robô obsoleto revivendo memórias em clima noir — ganhou sentido para mim. Faz todo sentido que tenha ficado guardado como um flash solto na memória: é um episódio que foge da estrutura de aventura episódica que domina a maior parte da série, e aposta tudo em atmosfera, silêncio e ritmo lento — quase um curta-metragem de detetive enfiado no meio de um desenho infantil sobre um samurai viajando no tempo. Para uma criança, sem o repertório de referências para decodificar aquilo como homenagem ao cinema noir, só resta a sensação, a textura, a cor. Daí o flash.

E talvez seja essa a maior qualidade de Samurai Jack: uma série que nunca precisou que você entendesse tudo para te marcar. Ela plantava atmosfera onde outros desenhos plantavam piada, e contava com o tempo — literalmente anos, no meu caso — para que aquilo que ficou só como sensação um dia voltasse como sentido.

Denzel Porto Barcelos

Estudante de moda, viciado em colecionar mídias físicas e cacarecos at all. Sou fascinado pelas emoçoes humanas e tudo que podemos criar a partir delas e talvez o maior fã de Trainspotting no mundo (inserir monólogo final do Mark Renton).

Anterior
Anterior

Letrux @ opinião - 28/08

Próximo
Próximo

Humberto Gessinger @ Araújo Vianna - 29/08