Crítica | 30 anos de: Afrociberdelia - Chico Science & Nação Zumbi

Silício com lama em contaminação cruzada

 
 

Três décadas se passaram e a vanguarda continua. Entre o mangue e a fibra óptica, sentidos se tecem na mesma velocidade que a natureza, ou o humano, os decompõe.


Alguns discos funcionam como prédios; o tempo passa e sustentam uma estrutura reconhecível e admirável, mas visivelmente degradada por uma entropia pouco gentil. A cada aniversário, solicitam uma nova demão de tinta. Alguém coloca uma placa comemorativa no saguão de entrada e organizam-se visitas guiadas em que se admira a arquitetura não sem alguma complacência. 

Com todo respeito que posso ter por esse tipo de edificação, o caso de Afrociberdelia, lançado em 15 de maio de 1996 por um selo subsidiário da Sony, é outro. São, agora, mais de 30 anos de um composto que, longe da forma arquitetônica projetada em concreto, envelhece, teimoso, decompondo e recompondo uma matéria agregada de lama e silício.  

A produção do disco foi resultado do primeiro trabalho na função feito por Eduardo BiD — o que já diz algo sobre o apetite pelo risco de uma banda que vinha de uma estreia produzida por Liminha e que se tornaria um dos maiores acontecimentos na história da música brasileira. Da lama ao caos, dois anos anterior, é um clarão incontornável que em alguma medida ofusca — mas também ilumina — Afrociberdelia

Aqui, são 23 faixas. Além de 18º lugar na lista dos cem maiores discos brasileiros da Rolling Stone, foi disco de ouro em abril de 97; dois meses antes, Chico Science morre, aos 30, em um acidente no trecho entre Recife e Olinda da BR-101. Tragédia anunciada e interrupção brusca de um trabalho cuja orientação ao futuro é tão gritantemente brilhante que seus sinais seguem, teimosos e birrentos, enlameados mas cristalinos, sendo captados pelos nossos cada vez mais inúteis receptores. 

A tese é o título. Aglutinado denso: Afro recusa o regionalismo folclórico e se abre à diáspora; ciber recusa a crítica à modernidade como periferização tecnológica; delia recusa o realismo ingênuo e admite que a percepção, ela própria, está em jogo. Operam-se aí três recusas numa única elisão, sem hífen — não se deixa, portanto, desmontar de volta em partes. O mangue descreve um sistema: marés, matéria em decomposição, água que nunca é doce nem salgada e por isso prolifera; manguebit é sua última consequência, em contaminação cruzada com o silício e com a lama. 

Colapso anastrófico da modernidade, é maracatu e rock e funk e eletrônica e rap e samba-reggae. Eis aí a implicância, por exemplo, de Ariano Suassuna, que chegou a dizer, entre gracejo e provocação, que só subiria num palco com Chico Science se ele trocasse o nome para Chico Ciência. Suassuna queria salvar o maracatu do mundo, enquanto Chico, generoso, entendia que preservar o manguezal significava mantê-lo em metabolismo. 

No encarte original do disco, uma definição saída de um manual de ficção científica: a afrociberdelia seria a “arte de cartografar a Memória Prima genética [...] através de estímulos eletroquímicos, automatismos verbais e intensa movimentação corporal ao som de música binária”. O termo aparece primeiro em Coco Dub (Afrociberdelia), última faixa de Da lama ao caos; deliciosamente delirante, lá se diz: imprevisibilidade de comportamento / Música quântica. Matéria temporal indiscernível, não disposta na flecha da história: o leito não-linear segue para dentro do universo, com suas emissões simultâneas e contraditórias sendo captadas pela mesma antena.  

É a antena fincada na lama, aliás, o símbolo da cena recifense noventista que, se hoje atende por manguebeat — como preferia a imprensa —, surge como manguebit. Cena de sampleamento do real, sci-fi na rua, festa na lua, zona e bagunça. Dessa fusão se funda o projeto estético-político de CSNZ: o que propunha o Manifesto Caranguejos com Cérebro, lançado por Fred Zero Quatro em 1992, era conectar as boas vibrações do mangue às redes mundiais de circulação de conceitos, produzindo Recife como contra-metrópole e o estuário como modem, ambos nós de uma teia biotecnossemiótica que pulsaria passado e futuro em retroalimentação. 

A ficção, claro, tinha lastro. A mesma cidade que produziu, em 1984, um dos primeiros microcomputadores brasileiros — o Corisco, pioneiro no Nordeste — foi classificada, em 1990, num estudo ligado à ONU, como a quarta pior cidade do mundo. Polo de informática, polo da fome. É nesse curto-circuito que a figura dos homens-caranguejo, descrita por Josué de Castro, toma corpo como personagem conceitual que sintetiza o método que ronda o disco: anfíbios alimentados a leite de lama, transformando decomposição em vida e escavando uma história alternativa da tecnologia (literalmente) aterrada; Afrociberdelia é reciclagem como composição e vice-versa. 


Convém levar o caranguejo a sério como animal-guia da ficção sônica de CSNZ: seu movimento lateral é a recusa exata da linha reta do progresso que aterrou os mangues do Recife em nome da modernização; desloca-se, assim, obliquamente, em uma viagem que quando muito é um mergulho. O primeiro deles, em Mateus Enter, dura trinta segundos e é um ritual de chegada que enuncia, ao pé do nosso ouvido, a vinda de um universo inteiro — trazendo consigo Pernambuco embaixo dos pés. 

Dali se desemboca em O Cidadão do Mundo, que resolve em três minutos o falso dilema entre global e local. Estética marginal recifense, estética marginal do mundo; o caranguejo esperto é precisamente aquele que sai do manguezal sem deixar de compor, ao seu lado, um projeto de insurreição — vou pegar aquele capitão / vou juntar a minha nação. Com métrica cirúrgica, a faixa termina engolida por um ruído de maquinário, tragada pela linha de montagem que descreve. 

Etnia, na sequência, é bastante literal. Quase um segundo manifesto, é discursivamente muito clara, mas seu elogio da mistura étnica é, em evidente metalinguagem, mais radical: cruzam-se povos e produz-se disso o instrumento ancestral eletrificado, o eletrodoméstico folclorizado. E então seguimos na direção de Macô, onde Gilberto Gil aparece em dueto com Chico que explora a potência sônica de uma cacofonia de vocativos que vale por um tratado de fonética — cena que funciona como cerimônia de transmissão ou de processamento, a depender de qual lado da operação se queira sublinhar: o tropicalismo passando o bastão, ou sendo sampleado como qualquer outro material orgânico do estuário.

A faixa mais icônica do disco é, certamente, a interpretação de Maracatu Atômico, canção de Jorge Mautner e Nelson Jacobina composta em 1972 e devolvida ao mundo, vinte e quatro anos depois, como outra coisa. Muda-se na travessia sobretudo o lugar de enunciação: o atômico-psicodélico, antes proposição feita de dentro do sistema MPB, agora é sampleada com alfaia direto de Recife por uma banda que recusa simultaneamente o lirismo tropicalista e o pitoresco regional. A letra, no seu inventário de continentes e conteúdos, cada coisa habitando o compartimento que lhe é designado até que a lógica do encaixe revele sua própria violência, vira emblema de um disco inteiro dedicado a tirar as coisas (incluindo o tempo) dos seus lugares. 

Sem se abster da radicalidade, a guitarra repetitiva de Um Passeio no Mundo Livre deixa de lado a impetuosidade revolucionária que ronda o resto do álbum em nome da tranquilidade enganosa de uma caminhada no parque. A progressão de Samba do Lado, por sua vez, transforma a lateralidade do caranguejo em sofisticada e divertida interpelação política: de que lado você dança? Manguetown é brilhante e leva a sério uma psicogeografia tropical de Recife, convocando quem cata no lixo da cidade os materiais do próprio futuro, e O Encontro de Isaac Asimov com Santos Dumont no Céu entrega no título o programa do álbum. A ficção científica anglófona e o inventor brasileiro dividindo o mesmo firmamento, sobre graves que parecem turbinas em ignição — é a nave que não precisa decolar em direção a outro planeta porque o céu daqui já é povoado. Um Satélite na Cabeça, por sua vez, acelera a mesma intuição em uma das convocações políticas mais agressivas do disco.

Corpo de Lama é o grande laboratório amalgamático de experimentação rítmica em Afrociberdelia; CSNZ produzem, aqui, um jogo de espelhos em que tudo o que se vê — chuva, sol, rua, mangue — devolve a imagem de um eu que é também um tu, num reverb que dissolve as bordas entre corpo e paisagem; a faixa termina com uma fábula irônica sobre o erro moderno crasso de tomar a natureza como coisa inerte, sem agência. Logo depois do prato principal, Sobremesa: a mais francamente psicodélica, em uma dança lúdica entre o cósmico e o cotidiano com borboletas em equilíbrio no espaço, versos em inglês nas bordas e, no centro, a súbita lembrança de que algo doce nos espera em casa. 

Sangue de Bairro é a faixa mais violenta; consiste no relato póstumo de um morto que convoca outros para o trabalho da vingança pelos afogados no estuário — eu tenho certeza, eles também cantaram um dia, como sugere o monólogo que abre Da Lama ao Caos. Enquanto o Mundo Explode segue na mesma chave: a guitarra como motor da história, o mundo em combustão e a região de olhos fechados.

Em Afrociberdelia, enfim, navega-se entre as canções-tese e alguns interlúdios instrumentais (Quilombo Groove, Baião Ambiental, Samidarish) que intercalam a cheia discursiva com puro refluxo rítmico, como se o álbum-metabolismo precisasse, de fato, se oxigenar antes da próxima onda. É um alargamento que ora se justifica, ora não. O pecado da comparação é inevitável: se ouvido ao lado de Da lama ao caos, é notável que a explosividade insurrecionária do primeiro tenha se amornado. Que o disco quase termine com Amor de Muito é sintomático dessa relativa dispersão. 


Convém dizer que o tempo fez justiça à profecia: em 2000, três anos depois da morte de Chico, nasce no velho bairro portuário do Recife o Porto Digital — hoje um dos maiores parques tecnológicos do país, erguido exatamente sobre a geografia que o manifesto havia eleito como centro do mundo. É difícil imaginar literalização mais ambígua: o bit venceu, instalou-se no estuário, virou política pública e cartão de visita — enquanto os manguezais seguem aterrados e a cidade ainda convive com o que o manifesto denunciava. 

De todo modo, tudo que morre num ecossistema vira nutriente ao dispor de quem precisar, de novo, fabricar futuro sem autorização. Trinta anos depois, a lama ainda tem cheiro e, se ainda nos cabe algo, é processar junto a ela o que nos chega de sinal — tradição, tecnologia, morte, música, presente, passado, futuro, o mundo e o corpo — como matéria que, em circulação contínua, se recusa a tomar forma estável.  

Toda vanguarda que se dedica à proposição de um futuro vira peça de museu (ou prédio tombado) quando a profecia se cumpre ou é atravancada. Afrociberdelia e o manguebit parecem escapar desse destino porque seu tempo verbal sempre foi outro: não o futuro do pretérito da utopia, mas um presente contínuo e meio salobro, meio doce, onde tudo prolifera. Seguimos conforme o diagnóstico — o parque tecnológico cresce, a fome insiste — e, assim, o disco segue operante: o problema que ele processa continua aberto e a sua resposta continua sendo adequada. Andar de lado. Afundar. Manter a antena na lama. Cascos, caos, cascos. Imprevisibilidade de comportamento. Música quântica. 

Enter.

Rodrigo Fernandez

Jornalista e mestrando pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFRGS. Integra o Grupo de Pesquisa em Semiótica e Culturas da Comunicação (GPESC) e escreve sobre cinema, mídia, filosofia e outras ficções.

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