Crítica | Jurado nº2

Clint e o coração da América.

 
 

Considerações sobre a obra de Andy Warhol e o cinema de Clint Eastwood.


Esses dias um amigo tentava resumir a carreira do Clint Eastwood em poucos parágrafos. A conclusão que cheguei: investigador do que é ser americano. Investigar o ser dos Estados Unidos é um trabalho assumido pela tradição hollywoodiana desde muito cedo. Dito isso, só Clint fez Gran Torino, Um Mundo Perfeito e Meia-noite no jardim do bem e do mal. E depois de décadas de trabalho, o mais hábil debatedor do tema viu o status desse homem americano em cheque frente a novas identidades e dilemas que não estavam presentes em sua obra. E o que ele fez em relação a isso? Ligou a câmera para filmar Jurado Nº 2.

Um descendente direto dos colonos que chegaram na América embarcados no Mayflower, Clint parece nunca ter se sentido em equilíbrio com o próprio país. Por isso, seu 40º filme começar com a imagem de uma balança é imediatamente marcante, seu cinema é uma tentativa de se reconciliar com os limites de uma identidade tão fundamental para ele e que foi construída em reciprocidade com o cinema. Ele sabe, porque viu e porque fez filmes, que ser homem nos Estados Unidos significa ser corajoso, ser justo, ser livre e respeitar sua família, mas que esses valores são complexos e corruptíveis porque, em nome deles, homens cometem crimes, matam, desrespeitam outros e agem com imoralidade.

Desde o começo de sua carreira, Eastwood tentava entender como essa contradição podia existir. Como uma típica cidade de valores americanos matava injustamente um xerife em O Estranho sem nome? Como o capitalismo e a liberdade, tão centrais nesse sistema, levavam à violência contra os mais pobres em Pale Rider? Um justiceiro ter que escolher entre vingar a morte de seu amigo e cuidar da sua família em Imperdoáveis? E em Jurado: como um pai de família, hoje sóbrio, vai ser responsabilizado por um crime que cometeu alcoolizado, antes do seu filho sequer ser concebido?

Para complexificar a situação do personagem de Nicholas Hoult, ele tem o dever (ser júri também é ser americano) de julgar o homem que só ele sabe que é inocente, e esse homem incorpora muito menos os valores morais tão caros para Clint: desrespeita sua esposa, é agressivo, não trabalha. Além disso: a realização que os valores de um velho diretor de faroestes descendente de peregrinos já não interessam ao mundo é o que faz Eastwood refletir. Para quase todos outros membros do júri, não se trata da justiça tradicional dos EUA, eles chegam com opiniões formadas e não estão interessados no seu trabalho de escutar as duas partes. Um professor quer culpar o réu porque não quer um criminoso perto dos seus alunos, outros agem como personagens de séries policiais ou apresentadores de podcasts de crime.

Apenas o homem que não quer nada além de ser um homem comum, com um emprego e com uma família, mesmo sendo o verdadeiro culpado do crime, que age de acordo com aquilo que os patronos da república imaginavam quando criaram o seu sistema de justiça. Clint Eastwood sabe que esses valores não são a solução para os problemas do mundo, sempre soube. O que ele reparou nas últimas décadas é que esse ideal de homem tão importante na sua formação deixou de ser o ideal dos seus concidadãos. Em Jurado Nº2 ele apenas entender o motivo para isso.

Não são apenas os valores modernos que guiam as dúvidas do diretor. Mas a arte moderna. Ele vai buscar suas respostas em 12 homens e uma sentença. Um filme em que 12 homens verdadeiramente americanos deixam suas vidas, opiniões, e problemas pessoais de lado para agir de modo justo. Ele apresenta American Gothic, fantasia de Hoult e Zoey Deutch no halloween, quadro sobre a opção pela construção da família e da vida norte-americana feita em um mundo que se urbanizava. E, ao fazer essas perguntas, uma nova se apresenta: e se esses valores nunca foram universais?

Assumir a sua experiência enquanto um homem que sonha a América como a única possível não é exatamente o que fazem os outros, a quem ele não entende? Não estão todos os jurados estendendo os seus valores ao veredito? Por que o que Hoult acredita é mais valioso do que a visão dos seus colegas? E, mais importante que isso, o que séculos de americanismo heroico deram ao mundo?

Clint Eastwood sabe que os seus valores estão em crise desde o começo da sua carreira. O que ele debate agora não é isso, é como eles e a constante afirmação deles afetaram o mundo em que vivemos. Afinal de contas, é esse homem, que se pretende universal, o culpado pela morte dessa mulher, que é só uma identidade (como a da promotora). A violência do homem norte-americano está presente também na sala de 12 homens (que no título original são 12 homens brabos) que decidem sobre a vida de um jovem. E também é o patriarcado que é pintado por Grant Wood quando retrata a família regional do midwest.

Óbvio que o diretor de A Conquista da Honra sabe que a violência no seu país é uma quimera capaz de corromper tudo que toca. Ao convidar outras identidades, que não a sua, para um debate sobre isso na sala do juri, ele encontra um país profundamente marcado e atraído pela violência imposta pelo seu homem universal. Porque essas pessoas todas sabem que são esses os verdadeiros valores fundamentais da sua sociedade: a violência, a destruição e a morte.

Um outro importante artista pós-moderno se propôs a desvendar o coração da América, e fez isso na mesma época que Clint estava começando a trabalhar com Sergio Leone. Se Clint é o último diretor moderno em Hollywood, Andy Warhol foi o primeiro artista pós-moderno nos Estados Unidos. Os dois, Clint como um construtor e Warhol como demolidor, interpretaram o ser-americano, os valores e a ética do seu país. Os dois se tornaram ícones da cultura do país como resultado do seu trabalho passando a também se auto-investigarem confome seu trabalho foi avançando, pois viraram eles mesmos objetos.

“Clint Eastwood” (c. 1984), de Andy Warhol.

Andy Warhol não é descendente do Mayflower, na verdade ele é filho de um casal de imigrantes do império austro-hungaro. Seu trabalho, muito famoso, é também uma investigação da alma dos Estados Unidos. Ele, como Clint, tenta compreender como representar os valores da liberdade e da bravura e seus efeitos no seu país. E chega a resultados semelhantes aos do diretor, esses valores no conjunto de imagens norte-americana são descaracterizados e reorganizados como consumo e como violência.

Nos silk screens, desde as suas latas de Campbell (vistas na imagem abaixo), Warhol apresenta a mercadorização da da arte e da vida. Nas latas de Campbell, a transformação da ida ao museu na ida ao mercado, uma sequência de produtos idênticos, feitos em massa, em frente ao espectador se apresenta como nas prateleiras de uma loja. Não é esse o símbolo da liberdade? Uma prateleira cheia de produtos?

Famosamente, Warhol não usa apenas latas de tomate para falar do esvaziamento do arte e da vida. A cultura de massas também está a venda: Marilyn, Mao, Rainha Elizabeth, o próprio Clint Eastwood (na imagem a cima) e ele mesmo estão expostos nessa grande feira (ou seria a xepa) da cultura na pós-modernidade. As imagens já não são algo a serem apreciadas, os valores e virtudes dos Estados Unidos estão fora do prazo de validade, os novos símbolos da cultura são esvaziados para melhor atrairem os consumidores de arte e de cultura.

“Campbell's Soup Cans” (1962), de Andy Warhol. Exposto no MoMA em Nova Iorque.

É um caminho nitidamente diferente do tomado por Eastwood. Como um homem moderno, sua preocupação maior ainda é construir, usar o cinema como meio para levar suas perguntas ao grande público e, assim, fazer mais gente refletir sobre seus valores. De alguma maneira ele acredita que ao compartilhar com o espectador as suas investigações, quem assiste criará novas sínteses e que assim transformará o seu modo de agir e de pensar. Andy Warhol, um homem pós-moderno, está mais preocupado em implodir os ideias que, no diagnóstico dele, levam a desorganização da vida e da arte.

Em uma operação dialética, Eastwood ocupa o polo positivo da relação: seu trabalho ainda que questionador tenta descobrir caminhos para superar as contradições inerentes dos Estados Unidos: a liberdade que parece aprisionar em vidas tristes marcadas pelo ódio e o ressentimento e a coragem que se torna vergonha de não cumprir o potencial norteamericano plenamente. A Warhol sobra o polo negativo: terraplanar essa cultura de consumo e medo, seu modo de questionar é levar tudo ao extremo, a liberdade para consumir transforma tudo em produto? Então absolutamente tudo será um produto.

“Tuna fish disaster” (1963), de Andy Warhol. Exposto no museu Andy Warhol em Pittsburgh.

Além das suas latas de Cambell e Marilyns, Andy Warhol descobriu outro produto que a cultura de massas dos Estados Unidos se tornou ávida consumidora: a morte. Seus silk screens se tornaram batidas de carro, a cadeira elétrica, a bomba atômica, tragédias das capas de jornal. Ao revelar a alma norte-americana, Warhol descobriu um país obcecado pela morte. Que abre os jornais para ver pessoas mortas pelo exército e por latas de sardinha (imagem a cima) e reconhece seus valores: posso morrer em uma guerra (coragem) ou posso morrer dentro de um carro (liberdade) ou até posso morrer ao comprar um enlatado mal armazenado (consumo).

E aí podemos retornar a cena da sala do júri em Jurado Nº 2. Clint Eastwood chega a mesma conclusão que Andy Warhol sobre o que está no âmago do seu país. Traçando caminhos diferentes, ele também percebeu que seus valores levam a morte. Desde que a cidade mata o xerife em O Estranho sem nome até a conclusão de que Nick Hoult atropelou a mulher enquanto estava bêbado não apesar dos seus bons valores e moral correta, mas justamente por conta dela. Ele é a cultura norte americana em carne e osso, ele se fantasia de American Goth no Halloween e ele é responsável pelo crime que está julgando.

Nós vemos os seus pares (que representam o todo da sociedade, a função do júri) obcecados pela morte e pela violência. Porque é isso que aprenderam sobre seu país, eles com suas individualidades, que já não têm a identidade americana como valor único e superior, se tornaram obcecados pela única parte dessa sociedade que conheceram bem: a morte. Assistimos eles olharem para uma tela que mostra o cadáver da mulher tipicamente WASP, a atenção deles observando um marido ruim e violento, isso é tudo que eles sabem consumir e estão na primeira fila do espetáculo que é os Estados Unidos.

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