Crítica | Death Cab For Cutie - I Built You A Tower

o descompasso entre intenção e recepção

 
 

No mais novo álbum da banda, Ben Gibbard busca entender se a construção de cercas em torno de uma relação protege ou restringe a liberdade, enquanto erradica adornos e volta a simplicidade harmônica de sua música em busca de redenção.


É engraçada a constante necessidade de reinvenção atrelada ao fazer música, assim como a demanda pelo novo para manter um relacionamento vivo. Existe um sentimento implícito de precisar criar algo que supere a versão anterior antes mesmo que ela exista. A simplicidade de alguns atos, então, deixa de ser um ponto de partida pra infinitas possibilidades e passa a funcionar como uma ordinária descoberta temporária, logo substituída pela ansiedade da próxima novidade. O círculo se fecha, como na capa do disco em questão, e a insegurança transforma tudo em urgência. É duro perceber que, antes mesmo de viver uma relação plenamente, você já se preocupa em como ela continuará existindo amanhã. Nem tudo é urgente.

Acontece que, por bem ou por mal, música é revisionismo. Revisionismo sonoro, histórico, filosófico e pessoal (não necessariamente todos juntos, mas pelo menos algum deles). A esta altura, é praticamente impossível dizer algo que já não tenha sido dito por outro compositor - por mais que a inventividade humana jamais deva ser subestimada. O que distingue uma canção da outra nunca é somente a novidade de como ela soa, mas a autenticidade com que se escolhe dizer.

I Built You A Tower parte justamente desse princípio. Há uma direção muito clara e simples em suas composições e em sua estrutura, ambas voltadas à força de seus refrões. "Please, forgive me" é a primeira frase Full of Stars, faixa inaugural do disco e uma magnífica balada acústica sustentada por acordes menores em que violão e piano parecem altruístas um com o outro, cansados demais para disputar protagonismo. Quando o dedilhado de guitarra salta na mixagem ao final, soando como uma declaração resolutiva, e a última nota do sintetizador permanece suspensa por alguns segundos a mais, como uma memória que vai nos abandonando aos poucos, me vi boquiaberto diante de um diário de divórcio.

Punching the Flowers, logo em seguida, explode em timbres estrondosos e uma energia mais cavernosa. A melodia do refrão continua sendo a parte mais memorável da canção, justamente porque atenua, com enorme precisão e pontualidade, a raiva com que a guitarra e o baixo são tocados. Cada verso, cada estrofe, carrega uma culpa quase sobre-humana que obriga Ben Gibbard a recorrer a analogias tão absurdas quanto eloquentes, aproximando a todo instante o descontrole do inofensivo: socar flores, transformar a própria voz em portas batendo e suas as palavras em machados sempre afiados.

Nesse sentido, perpassamos, após duas músicas, pela instabilidade emocional de viver um momento tão sensível quanto uma separação matrimonial. Da frustração melodramática que implora por perdão ao martírio provocado pelas próprias atitudes, Ben Gibbard já não parece se reconhecer nesse processo de luto.

Pep Talk é a consequência natural desse percurso e uma das melhores composições de sua carreira. Brutalmente honesto, escreve versos que provavelmente levou para a terapia antes de decidir transformá-los em canção e entregá-los a milhares de pessoas. Ele flutua sobre as notas de sua própria guitarra: "I'll love an incurable mess 'cause I like to tidy up."

A confissão continua quando canta "My past is a whiskey glass tipping down a drunkard's throat", condensando, em uma única imagem, duas formas distintas de dependência: o alcoolismo e seu próprio passado. Diante de tamanha honestidade, toda a experimentação eletrônica e os arranjos pops mais expansivos que marcaram a produção da banda na década passada perdem a razão de existir. Restam apenas voz, guitarra base e solo, baixo, bateria e melodias capazes de sustentar o peso dessas confissões. E, como quase sempre acontece nessas questões de vida ou morte - ou, em outras palavras, términos dos mais variados -, o instinto nos conduz de volta ao reconhecível, àquilo que éramos quando orgulho ainda podia ser um substantivo esperançoso, e não um sinônimo de soberba ou inflexibilidade.

O principal alicerce de uma base sólida passa a ser justamente a assiduidade desses elementos e a forma como eles retornam outra vez, e mais uma, e de novo, quase em loop. É o que acontece em Riptides, quando as guitarras se tornam uma espécie de hipnose, nos ordenando bater cabeça, antes de explodirem em uma ponte eufórica, e em Stone Over Water, cuja contenção (And I can scream and shout, Or learn to live without) parece fortalecer ainda mais seu impacto emocional (Yeah, I'm trying to hold it together, trying to take the first step, Into the arms of wherever, whenever).

O exemplo mais radical, porém, aparece em Envy the Birds. De forma exagerada (e estranhamente funcional), Ben Gibbard repete exatamente o mesmo verso quatro vezes. As mesmas exatas palavras durante quase dois minutos, onde, pela primeira vez no disco, a repetição deixou de ser apenas um recurso composicional e passa a ser o próprio assunto da canção.

"Speak without words
No one gets hurt
Speak without words
No one gets hurt
It’s safer where it’s quiet"
— Envy the Birds

Quando essa segurança estrutural finalmente se estabelece, o disco encontra espaço para se aventurar: os sintetizadores e a energia dopada de "Trap Door" - absolutamente avassaladora - convivem com o piano despojado de um breve interlúdio instrumental. Na última faixa do disco, os intermináveis feedbacks de guitarra de "I Built You a Tower (b)", que contaminam os versos e desaparecem por completo no refrão, dão um pequeno susto no cérebro. Todavia, nada disso soa como uma despersonalização completa ou uma necessidade narcisista de surpreender ou engajar.

Mas, derradeiramente, este é um disco sobre o exercício diário da repetição. Sobre a beleza de dizer e ser entendido da mesma maneira. Sobre a previsibilidade como um gesto de confiança. Acima de tudo e por causa disso, é um pedido de perdão, sem qualquer traço de autocondescendência. É alto, claro e literal.

Como uma torre.

Pietro Stefani

Advogado predisposto a fazer tudo menos advogar e quando faz é ouvindo música no processo. Demasiadamente extrovertido e fã exagerado de muitas coisas.

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