Crítica | O Último Azul
DISCURSO Escancarado
Filme de Gabriel Mascaro segue na busca recente do cinema brasileiro por uma realidade escondida
Muitas vezes o primeiro e o último plano dizem mais sobre um filme que qualquer outro durante sua duração. São, afinal, escolhas específicas, que traçam os limites da obra, em uma arte onde estes limites são mais anunciados que nas outras.
O primeiro plano de O Último Azul mostra a skyline de uma pequena cidade, com um avião cruzando os céus com uma faixa escrito o futuro é para todos. Os temas (ou melhor, O tema) do filme, que já haviam sido anunciados em sua campanha de marketing, escancarados em uma imagem.
A partir dali, tudo que se assiste é condicionado: a rotina da protagonista, e tudo que lhe acontece, passa pelo filtro do “é assim que tratam os velhos…”. E se os primeiros 20 ou 30 minutos funcionam em torno, e pelo olhar pictórico do diretor (já anunciado em Boi Neon, embora traído por algo que comento mais ao fim), a hora final já se torna uma exaustão do abuso da imagem de Tereza. A câmera se aproximando para revelar as rugas na pele, a água que revela seus seios, as situações que revelam que de velhinha íntegra tem muito pouco. O filme insiste: Tereza é velha, e velhos são assim.
E podemos com certeza mencionar alguns absurdos, como a fralda geriátrica virando sinônimo de deterioração moral (e o filme nem percebe estar cometendo etarismo ao invés de julgá-lo), ou a tortura de animais em cena (nesse sentido, tá mais pra Lars Von Trier que pra Leo McCarey… inconcebivelmente mais), mas podemos ficar só com o cinematográfico porque, afinal, embora o esforço hercúleo da produção do filme em fazer parecer o contrário, estamos vendo um filme, que deve ser refletido como tal.
De todas as tendências do cinema brasileiro destes últimos anos, a que mais me incomoda, e que já escrevi sobre algumas vezes, é a inclinação para um academicismo que se desenvolveu nos anos 2000 nos Estados Unidos, e nos anos 2010 foi condensado e mercantilizado pela A24. Filmes sobre pessoas e comunidades marginalizadas, onde os planos lentos supostamente revelam algo de belo em suas rotinas sofridas. Lembremos agora de filmes como Moonlight, Projeto Flórida, Nomadland, onde a narrativa é se não uma série de cenas onde atores (algumas vezes, atores famosos) interpretam estas pessoas. Uma busca incessante por uma espécie de realismo poético, diretores que se sentem superiores por já terem percebido o que apenas iremos perceber assistindo seus filmes.
Assim, o Brasil, que teve na energia dos Cinema Novo, Marginal, e nas Pornochanchadas obras que denunciavam o estado das coisas por meio da forma (lembremos da câmera estourada em Vidas Secas, da montagem frenética e violenta em Bang Bang, da vulgaridade como fuga em Excitação), se torna um país que prolifera um cinema discursivo: se Oeste Outra Vez suprime o faroeste na forma de uma análise sobre a masculinidade tóxica, assistir o Último Azul é um ato de protesto contra o etarismo.
Daí, a dilatação narrativa por meio da morosidade dos planos, em busca de uma suposta abstração que nunca se consolida. Para não ficarmos apenas com teoria, vamos pegar as cenas do filme, aquilo que ele oferece: pelos primeiros 20 ou 30 minutos vemos Tereza em um estado catatônico, seja no trabalho, no cartório, ou tentando comprar uma passagem de avião. Há algo de interessante na maneira como o filme é editado (cada novo corte denota um novo momento e não necessariamente um novo ângulo, em um avanço temporal marcado pela estagnação), e há algo de pictórico nas imagens de Gabriel Mascaro (os muitos detalhes em azul, a transformação dos ambientes precários em pequenas instalações simbólicas), mas qual o objetivo? Mostrar a marginalização da sociedade? O descaso com os idosos? O que o filme faz para isso sem ser o roteiro mais do que óbvio (a história toda da colônia, tirada de uma comédia de Yorgos Lanthimos, a filha que não se importa com a mãe, a entrevistadora que não dá ouvidos à Teresa)? Estou longe de poder dizer como é uma pessoa idosa que mora no Amazonas, mas a interpretação de Denise Weinberg certamente não ajuda, me lembrando demais o que faz Frances McDormand em Nomadland: cara de abstenção com letargia de movimentos.
É um filme que não respira, em que todos os seus detalhes de cenário, blocagem (essa inexiste no cinema brasileiro de hoje, praticamente) e encenação está sempre enfatizando aquilo que o plano inicial já deixou escancarado.
Problemático também como essa morosidade afeta o desenvolvimento da narrativa e o fechamento de suas narrativas: filmes que circulam e circulam, mas nunca chegam em lugar nenhum. É possível apontar para os problemas da dança das duas velhinhas ser filmada com uma lente (aparentemente) anamórfica que parece expô-las em um ângulo vulgar, mas pior ainda é sugerir o beijo e não filmá-lo. O mesmo podemos dizer da viagem de avião, algo que o filme prepara e não se dá ao luxo de usar. Gosto de como amarra a questão da aposta, mas muito menos da maneira como filma o efeito alucinógeno do caramujo: um efeito retardatário de câmera que já estava saturado no meio da década passada.
Se torna apropriado, visto isso, que o último plano seja das duas no barco, com a câmera flutuando ao lado. Cinema das margens, mas que filma da grua, nessa busca incessante dos cineastas pelo “Brasil de verdade”, que Mário Peixoto encontrou na fusão das imagens, no balanço do barco visto pela câmera posta dentro dele, no olhar de uma mulher tão desesperada que só lhe sobra encarar o vazio do mar.