Thundercat @ OPINIÃO - 23/08/25

Stephen Lee Bruner, conhecido por seu nome artístico Thundercat, é, indiscutivelmente, um dos artistas mais importantes da nossa geração (Z). O baixista e cantor californiano se tornou peça-chave de uma revolução estética que aproximou jazz, hip-hop, soul e eletrônica, marcando suas digitais em obras centrais da última década. Sendo fundamental em composições para Erykah Badu a Mac Miller e auxiliando constantemente Kamasi Washington e Childish Gambino, sua versatilidade colocou seu instrumento em novos contextos e elevou a importância do baixo pra uma geração que cada vez mais perdia a noção de groove.

Colaborações com Flying Lotus, onde foi produtor de todos os seus álbuns, e, principalmente, com Kendrick Lamar em To Pimp a Butterfly elevaram sua importância musical do século XXI. Ao mesmo tempo em que ajudava a moldar um dos discos mais celebrados da história do Rap, ele também consolidava um espaço próprio, onde a qualidade técnica dialoga com humor, improviso, vulnerabilidade e emoção - coisas que se destacaram em seu show em Porto Alegre no último sábado.

Mas apesar de toda essa importância, Thundercat não lançava um álbum há mais 5 anos. Além disso, é mais baixista que propriamente cantor. Foi muito gratificante ver o nosso histórico Bar Opinião lotado pra receber um artista dessa magnitude, servindo como recado: Porto Alegre precisa e suplica por atos dessa grandeza.

Na apresentação de quase 2 horas, a mistura entre pausas carregadas por conversas íntimas com o público e performances completamente hipnotizantes, de um nível técnico surreal, transformaram o show numa síntese calorosa de todas as vozes e mundos pelos quais já passou.


Não poderia deixar de ser mencionada a anedota contada sobre Mac Miller. Conhecidamente amigos próximos, Stephen relembrou a ligação do rapper enquanto ele realizava uma turnê mundial, convidando-o para participar de seu inesquecível Tiny Desk (um dos maiores da história, certo?), dizendo que não conseguiria se apresentar sem ele o acompanhando. Após uma negativa inicial, o baixista acabou aparecendo em Los Angeles, mas, para sua surpresa, Mac já havia contratado uma banda completa. Esse detalhe torna extremamente engraçado o momento registrado no vídeo: Thundercat tocando um pequeno chocalho na primeira música  até assumir o baixo para “What’s the Use”, quando os dois dividem uma risada absolutamente espontânea e hoje extremamente comovente.


Se a maestria de Thundercat no baixo já é reconhecida, vê-la ao vivo é testemunhar um domínio assombroso do instrumento. Seus dedos percorrem as seis cordas com fluidez e velocidade incompreensíveis, mas o que realmente fascina é a capacidade de transformar complexidade em leveza. Além disso - e espero que isso não soe ofensivo - seu trio não fica pra trás em absolutamente nada. Nas teclas, Dennis Hamm é peça fundamental pra atmosfera psicodélica, dando vida a um grande número de sintetizadores. Roubando a cena, Justin Brown, sua bateria e seu capacete dourado reluzente quase botaram o Opinião a baixo.

Vocalmente, Thundercat - por mais que já soubéssemos - nos surpreende pelo contraste. Sua voz aguda, em falsete constante, é ainda mais delicada pessoalmente, e se mistura muito bem ao peso gravitacional de seu baixo.


Em um dos maiores shows que a cidade abrigou no ano, foi entregue ainda mais do que o esperado (e as expectativas quebravam o teto). Mais do que um espetáculo de técnica e carisma, foi uma demonstração de puro amor entre o artista e seu público. Thundercat estava pronto pra Porto Alegre e cidade retribuiu da mesma maneira.

Meu ingresso hoje se encontra exposto na minha sala de estar pra lembrar dessa noite inesquecível e que podemos (e devemos) abrigar eventos gigantes como esse, à altura da nossa cidade que ainda pulsa, groovante, por cultura.

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