Quem Leva | Oscar de Melhor Cinematografia

Entre as muita péssimas decisões da Academia desde a última cerimônia, talvez a ideia de não transmitir a entrega do prêmio de Melhor Cinematografia tenha sido a pior. De acordo com Alfonso Cuarón, indicado por “Roma” e um dos mestres da arte, “Na história do CINEMA, obras primas existiram sem som, sem cor, sem uma história, sem atores e sem música. Nenhum único filme existiu sem CINEMAtografia ou edição”.

Em um ano recheado de filmes estonteantes visualmente, seria um pecado gigantesco se a mudança tivesse se confirmado. A Academia, pelo menos, ainda tem um pouco de bom senso e para começar nossa série de palpites sobre quem deve levar as principais categorias do Oscar, nada mais justo que começarmos pelo elemento que permite que cinema seja cinema.


Os concorrentes:


Nasce Uma Estrela | Matthew Libatique

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Conhecido por seu maravilhoso trabalho com Darren Aronofsky, Libatique tem no currículo, em sua maioria, filmes conceituais onde os visuais as vezes falam mais que os diálogos. Sua versatilidade pode ser vista em “Homem de Ferro” e “Straight Outta Compton”, mas “Nasce Uma Estrela” é quase uma reinvenção de qualquer coisa que ele tenha feito antes. Sem abusar de planos abertos de tirar o fôlego, Libatique dá o brilho certo para suas duas estrelas e entrega um dos filmes musicais mais realistas em termos de shows e espetáculos já vistos.

Previamente indicado por “Cisne Negro”, onde acabou perdendo para “A Origem”, a maior injustiça está no fato de essa ser apenas sua segunda indicação.

Roma | Alfonso Cuarón

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O homem escreveu, dirigiu e “fotografou” a que é, para muitos, sua obra prima. Cuarón consegue mostrar uma quantidade extraordinária de cores sem mostrar realmente nenhuma delas, “Roma” é inteiro em preto e branco, mas nem por isso deixa de ser visualmente deslumbrante. A sutileza com que as câmeras captam os momentos cotidianos das vidas daquelas pessoas é algo ao mesmo tempo invasivo e gentil, nos colocando tanto como meros espectadores como nos levando em uma viagem de volta a nossa infância.

Essa é sua primeira indicação na categoria, tendo ganho em 2014 Melhor Direção e Melhor Edição por “Gravidade”.

Cold War | Łukasz Żal

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O diretor de fotografia possui um currículo rico em qualidade técnica e identidade artística acima da média. Lukasz Zal novamente, como fez em Ida, retrata com a opção estética do preto e branco. Guerra Fria não se limita a utilizar do artifício estético do P&B, apostando também na tela 4:3. Condensando o sentimento de claustrofobia que Wiktor e Zula passam com fatores políticos da cortina de ferro, que os impedem os personagens de viver seu amor livremente. 

A Favorita | Robbie Ryan

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A Favorita é um filme completo em todos seus nichos, com a fotografia naturalista ousada e incômoda, tal como a narrativa. Robbie Ryan merece o reconhecimento pela inventivos ângulos, que criam uma linguagem inovadora para filmes de época.  Planos abertos e pouca iluminação são as características em destaque. Revelando a grandiosidade dos cenários, e criando atmosferas com um claro escuro sem iluminação artificial apenas com velas podendo ser comparado a Barry Lyndon

Never Look Away - Caleb Deschanel

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O filme alemão inspirado na vida do pintor Gerhard Richter atraiu muitas polêmicas por ter sido condenado pelo artista como uma péssima distorção de sua biografia, mas acabou fazendo sucesso e faz com que a categoria seja em sua maioria de filmes fora dos Estados Unidos, algo notável. O trabalho de câmeras é intenso e as tonalidades tentam, de certa forma, fazer algum tipo de conexão com o trabalho abstrato do pintor, e fazem jus à sua indicação.


Quem Deveria (e vai) Ganhar: Roma

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“A Favorita” tem uma identidade própria hipnotizante, excêntrica; “Guerra Fria” parece um filme saído dos anos 1960, uma jóia do tempo; “Nasce Uma Estrela” tem câmeras flutuando pelos bastidores dos shows como poucos filmes fizeram; “Never Look Away” tem visuais que cumprem muito bem o que se propõe. Porém, ninguém merece mais esse Oscar do que Alfonso Cuarón.

Nenhum filme em 2018 foi tão bonito visualmente como “Roma”. Fazer da falta de cores algo explorador e estonteante é uma tarefa árdua, ainda mais em uma era onde os efeitos visuais podem fazer tudo parecer ainda mais bonito e lustroso do que a imagem real. Os reflexos, a câmera ao mesmo tempo intrusiva e passiva, o destaque das muitas tonalidades que uma vida sem brilho interno e luxo externo pode oferecer. É poesia em forma de imagens e merece o Oscar de Melhor Cinematografia.

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