as 15 Piores esnobadas do grammy
Uma lista que poderia ser muito maior. Ao longo de seus quase 70 anos, a Academia de Gravação dos EUA teve premiações e eras boas, sim, mas elas rareiam em meio a escolhas, no mínimo, estranhas. Especialmente no século XXI, tentar enxergar qualquer padrão ficou difícil: é sobre popularidade? Sobre sucesso comercial? Sobre gênero?
O Grammy é uma das poucas premiações onde, tirando o viés notoriamente racista que pode ser percebido em múltiplas ocasiões, é difícil dizer o que guia os votos e a máquina. Em diversas ocasiões, parece premiar como uma roleta russa demente.
A única constante absoluta das últimas décadas do Grammy é sua vasta distância da qualidade artística e do que a crítica especializada (e, muitas vezes, também o público) reconhecem como destaque na música de cada ano.
Assim sendo, não faltam tópicos para essa lista, que enumera apenas alguns dos vexames que o prêmio do gramofone protagonizou ao longo do tempo.
15. Quando “Revolver” perdeu para uma coletânea
Em 1967, o álbum dos Beatles que mudou para sempre as regras da gravação em estúdio perdeu o prêmio principal para uma retrospectiva de Frank Sinatra (que já havia vencido Álbum do Ano duas vezes até então). O Grammy preferiu honrar o passado múltiplas vezes, no gênero musical, no artista, na coletânea, em vez de validar o disco que estava criando o futuro.
14. Janelle Monáe e Dirty Computer
Subestimada desde o início da carreira, quando produziu obras-primas como The Archandroid e o fantástico The Electric Lady, em 2018 Janelle entregou o monumental Dirty Computer, foi indicada nas grandes categorias e parecia que, de uma vez por todas, poderia ser agraciada no Grammy. Seu trabalho, um dos melhores daquele ano, perdeu na categoria de Álbum do Ano para o country tradicional (para não dizer água de chuchu) de Kacey Musgraves.
13. Frank Ocean e Channel Orange
A derrota de Channel Orange em 2013 e o descaso geral com sua apresentação (linda, por sinal, mas criticada por diretores da Academia por ser “pouco movimentada”) fizeram Frank Ocean desistir da premiação como um todo. Desde então, ele se recusa a submeter seus trabalhos por considerar o processo “nostálgico e desconectado da realidade”.
12. Lana Del Rey
Com 11 indicações e nenhuma vitória, o Grammy ignora a artista que definiu a estética de uma geração. As derrotas consecutivas de obras-primas como Norman Fucking Rockwell! e Did you know that there's a tunnel under Ocean Blvd (ambas para Taylor Swift, a primeira ocasião para um álbum razoável, e a segunda para um álbum medíocre) são injustificáveis. Mais injustificável ainda é como alguns votantes da Academia sequer se dão ao trabalho de ouvir seus álbuns por um tolo e defasado preconceito.
11. O Apagão de The Weeknd
O maior hit da história moderna, "Blinding Lights", e o aclamado After Hours receberam zero indicações em 2021. Uma das situações onde o Grammy fez redobrar a confusão na cabeça do público: como pode um disco que, sozinho, movimentou bilhões de streams e gerou múltiplos hits ser totalmente apagado do prêmio? O erro foi tão bizarro que resultou em boicote do artista contra a premiação. Não foi o primeiro, nem será o último.
10. 24k Magic sobre DAMN. e Melodrama
Em 2018, quando tinha a terceira oportunidade de reconhecer DAMN., mais um trabalho fantástico de Kendrick Lamar (ainda que isso não fosse reparar os erros anteriores) ou de reconhecer a inovação lírica e de arranjos de Lorde no denso, poético e avassalador Melodrama, o Grammy escolheu o porto seguro do retrô-pop de 24K Magic. Não que seja um disco ruim, muito pelo contrário. Mas não foi o Álbum do Ano nem no prédio do Bruno Mars.
9. QUANDO "Respect" perdeu.
Praticamente não importa para quem, pouquíssimas músicas na história seriam merecedoras de tirar um Grammy de “Respect”. Aconteceu, contudo, em 1968, quando o hino da rainha do Soul não foi sequer indicado para Gravação do Ano, categoria que foi para o pop genérico do grupo The 5th Dimension. Apenas uma das histórias provas de que a Academia evita, a todo custo, dar o prêmio máximo para a excelência negra.
8. The Beach Boys
Pet Sounds é frequentemente citado como o melhor álbum de todos os tempos, mas o Grammy o ignorou completamente na época. Não sendo esta pataquada suficiente, o Grammy fez questão de neglicenciar os Beach Boys por completo: a banda nunca venceu um Grammy sequer, e compilou apenas quatro indicações em sua história.
7. Radiohead
Uma carreira inteira definindo o rock alternativo e a música eletrônica sem nunca vencer um prêmio das categorias principais. Nem os hits dos anos 90, nem OK Computer, ou Kid A, ou In Rainbows foram capazes de cruzar a linha dos prêmios de nicho e serem reconhecidos com a devida importância em prêmios de Gravação, Canção ou Álbum do Ano.
6. Kendrick Lamar
Embora seja um vencedor frequente, computando diversos prêmios de Melhor Álbum de Rap e Canção e Gravação do Ano, suas obras mais significativas e reverenciadas foram descartadas em favor de escolhas inexplicáveis na época, e ofensivas hoje, olhando para trás. good kid, m.A.A.d city ter perdido Melhor Álbum de Rap para Macklemore e Ryan Lewis é, até hoje uma das maiores vergonhas não apenas do Grammy, como de toda a indústria do entretenimento. Não muito atrás dela, fica a perda do Álbum do Ano em 2015 para1989, disco de Taylor Swift que teve o mesmo impacto no mundo que uma coleção da Shein: inevitável e onipresente por 6 meses, esquecido em 12. Este disco venceu o disco que é, quase em consenso de público e crítica, a obra mais importante do século XXI até agora.
5. Beyoncé vs. Beck, Adele e Harry Styles
Se as derrotas de Kendrick são incômodas pela qualidade de seus trabalhos, as derrotas de Beyoncé adicionam uma camada ao nosso descontentamento: diferente de Kendrick, artista com obras geralmente mais pungentes e politizadas, Beyoncé, desde sempre, realizou trabalhos de excelência que pareceriam, a olho nu, simplesmente perfeitos para a reverência do Grammy. Isso é tão verdade e lógico que, até hoje, a artista é a maior vencedora da história do Grammy, com 35 gramofones.
Contudo. Desses 35, apenas 1 é Álbum do Ano, e um que veio no ano após Jay-Z questionar isso explicitamente, em discurso na própria premiação. A artista mais premiada da história foi continuamente barrada em Álbum do Ano, e pior, de forma escancarada. Novamente comparando com Kendrick: o Álbum do Ano que good kid não venceu dói menos pois perdeu para outro grande álbum, Random Access Memories do Daft Punk. Não foi o mesmo com Beyoncé: Morning Phase é um disco razoável e nada mais, 25 é o pior disco de Adele e Harry’s House é mediano em seu melhor dia. Os perdedores de Beyoncé nestas três oportunidades não são apenas discos excelentes, mas definidores e balizadores da indústria como um todo por seu impacto.
Infelizmente, não há número de Grammys futuros que possa reparar essas três injustiças.
4. Prince
Quantas obras-primas um artista precisa lançar para quebrar a parcialidade do preconceito? Um, dois, três? Quanto ele precisa vender? Ouro, Diamente, Platina? Prince é um dos maiores inovadores da história da música e um músico acima de tudo: colaborador nato, arranjador, compositor. Dono de obras-primas como Purple Rain, 1999 e Sign o' the Times, o Grammy nunca o reconheceu no topo da pirâmide: nenhum gramofone das categorias principais e, em décadas de carreira, apenas 7 vitórias.
3. David Bowie
Uma vergonha histórica: Bowie só venceu um Grammy em vida. Por um videoclipe. Os prêmios por Blackstar vieram, naturalmente, de forma póstuma. Tudo que foi dito acima para Prince pode ser repetido para Bowie. A única diferença é que o descaso da Academia de Gravação com o trabalho do inglês, durante sua vida, foi ainda maior.
2. O Abuso Sistêmico com o Hip-Hop
Apesar de ser o gênero mais influente do mundo, o Rap venceu Álbum do Ano apenas duas vezes. Isso já diz quase tudo que precisa ser dito sobre o quão desconectado da realidade o Grammy realmente é.
Desde os anos 80, o Rap vem agindo como propulsor de inovação artística, lar de uma poesia até então inigualável, casa de novos timbres, métodos e formatos; o gênero mais recente a abrir uma nova seara do que a música popular pode ser.
Lendas como Biggie, Tupac, Nas, Jay-Z, Kanye West e Nicki Minaj moldaram a cultura global, mas foram sistematicamente barrados das categorias principais. Kendrick é um exemplo recente, mas é parte de um sistema de barramento que passa, sim, pelo boicote à cultura negra por parte da premiação. Podemos inserir aqui também a própria existência da categoria “Urban Contemporary”, que em 2020 foi renomeada para Progressive R&B num gesto cosmético que não alterou sua função real: manter obras de artistas negros fora das categorias principais. O caso de Tyler, the Creator com IGOR é exemplar: um álbum Pop empurrado para fora das categorias Pop, que dirá chegar perto do Álbum do Ano.
Na outra ponta, o Grammy acaba de criar a categoria “Melhor Álbum de Country Tradicional” para 2026, fracionando um gênero que já tinha casa; a antiga “Melhor Álbum Country” agora ganha o sufixo “Contemporâneo”. Me pergunto se isso poderia, talvez, ter alguma coisa a ver com Beyoncé, em 2025, ter vencido Álbum do Ano e também Melhor Álbum Country sobre tradicionais do gênero como Chris Stapleton e Lainey Wilson com seu disco ousado, inovador e misturar de gêneros, COWBOY CARTER.
Mas voltando ao ponto: dos problemas estruturais do Grammy, sua relação com o Rap é o pior. É a evidência principal do racismo de décadas da instituição e, por consequência, não deixa de ser uma clara evidência do racismo institucionalizado nos Estados Unidos e no Ocidente. Na leitura social, é segregação e negação da excelência negra; na leitura artística, são centenas de ouvidos fechados, lacrados e concretados para o novo.
1. Björk
A maior injustiçada da história da premiação, com 16 indicações e zero vitórias. Apesar da marca de número de indicações sem vitórias da islandesa ser igualado ou superado por alguns nomes, nenhum soa tão ofensivo quanto o de Björk.
A sensação que dá é de que seria melhor não indicá-la. Que o prêmio simplesmente assumisse sua própria distância da vanguarda, do pop maduro, experimental, eclético, e não nos desse, ano após ano, o gosto azedo de assistir uma das maiores artistas da história da música ser indicada, apenas para perder. Quase sempre para trabalhos piores que os seus.
O Grammy demonstra uma incapacidade crônica de reconhecer o experimentalismo e a vanguarda feminina no topo de sua forma. Atravessa a rua para não se deparar com inovação e verdade artística.
O descaso com Björk continua sendo o exemplo máximo disso.