Crítica | Khalid - Free Spirit

Khalid é inegavelmente talentoso, mas ainda não sabe como aplicar esse talento da melhor forma.

Em uma crítica inspirada do maior crítico de música popular da história, Robert Christgau comentou sobre como Khalid era “um jovem talentoso com um grande futuro, e espere com todo seu coração que a última característica não engula a primeira antes que percebamos”. Então estamos em 2019, dois anos após o lançamento de “American Teen”, álbum que apresentou o jovem nascido na Geórgia, crescido na Alemanha e com o ensino médio cursado em El Paso, no Texas e ficou claro naquele lançamento qual destes lugares mais moldou sua música.

Tanto o sotaque como os visuais em seus muitos vídeos e capas remetem diretamente a parte, aparentemente, mais marcante de sua jovem vida até agora. A aridez do Texas pode ser, ao mesmo tempo, bela e desoladora, pode inspirar um jovem a se tornar uma estrela do R&B mundial, mas também ajudar a isolá-lo dentro de seus próprios sentimentos, pouco ou nada entendidos por aqueles a sua volta.

E é sobre isso que Khalid canta em seu segundo álbum de estúdio, com o também evocativo título “Free Spirit”. Afinal, livre de que? De ser um jovem, “jovem, burro e quebrado” (e notem como o dumb de “Young, Dumb and Broke” soa mal em português), talvez? Bem, o título poderia se referir à uma liberdade própria, de poder se revelar, mas, pelo menos até agora, Khalid não deu indícios de esconder ou batalhar contra sua sexualidade, mesmo que sua personalidade, voz e até mesmo trejeitos sugiram um jovem jovem demais para entender o que é realmente. Prefiro pensar, então, que o título funciona como um desabafo, sendo que o conteúdo do álbum em momento algum sugere alguém emocionalmente livre.

No entanto, não é um álbum pessimista, ainda mais com sua musicalidade que casa perfeitamente com a capa do projeto, um belo entardecer que abraça o calor do local em que todas essas histórias acontecem, mas lamenta a aridez e a seca que esse calor traz. Suas letras acompanham esse sentimento, com o principal assunto sendo a falta de entendimento entre ele e a pessoa com quem nutre um relacionamento complexo e complicado que permeia a maior parte de um bom conjunto de faixas que abre o álbum.

Por muito achei, durante estes dois anos desde sua estreia, que a premissa de Chirstgau fosse se confirmar e Khalid viesse a se entregar ao mainstream por completo, sendo que sua voz praticamente nunca saiu do rádio, seja trabalhando com Logic, Lorde, Calvin Harris ou outros. E isso quase acontece aqui, sendo que o puro R&B que desenhou de forma quase inocente seu som anterior está presente, mas por baixo de uma máscara eletrônica/pop que entra em conflito com seus vocais, que nunca tem o espaço que tinham em sua estreia para se esticar por conta da sonoridade mais populosa. Há uma variedade de produtores, e alguns consideravelmente conhecidos (Disclosure, Hitboy, Stargate), mas o álbum tem uma identidade própria, mesmo que esta não seja completamente convencida de si mesma.

Enquanto a “Intro” cresce, cresce, cresce e não vai a lugar nenhum sonoramente, “Bad Luck” e “My Bad” superam letras comuns com um groove convincente e fácil de se acompanhar, enquanto “Better” e, principalmente, “Talk”, elevam um tanto o nível de suas letras, mesmo que a última não seja o casamento perfeito entre o artista e o duo Disclosure.

Algumas paranoias advindas da fama também começam a assombrá-lo:

This place is getting crowded, I got no room to breathe
I hope the only thing I'm losing isn't my memory

Ele canta na bela “Hundred”, que termina em tom conversativo, com ele lamentando pelos muitos amigos que parecem precisar dele apenas para pedirem favores, algo comum quando se tem 20 anos e todo o sucesso que ele atingiu.

Porém, assim como em “American Teen”, ele perde a chance de terminar o álbum antes que o mesmo se termine. “Outta My Head”, com a participação de uma persuasiva e quase psicodélica guitarra de John Mayer, é a segunda melhor faixa do projeto e uma das melhores que o cantor lançou até então, trazendo todo o escopo de seu talento vocal com os divertidos “ooh-woah” complementando o simples, mas eficaz refrão. Segunda melhor, pois esse posto fica com a belíssima e sugestiva “Self”, que sozinha traz insights da pessoa Khalid mais profundos que o álbum inteiro.

I don't need another hand, I need a couple suggestions
Always had a little trouble with self-reflections
Now, does my raw emotion make me less of a man? Hmm
Always had a little trouble with self-reflections

Ele fala, questionando a própria masculinidade e a imagem que tem de si mesmo, cantando com um vigor permitido pela produção de Hit-Boy que acompanha o flow de sua voz magistralmente.

Porém, “Self” é a única faixa essencial da segunda metade que, apesar de não cair drasticamente de qualidade, não tem nada de novo a adicionar, esticando o projeto a uma longa hora, quando poderia ser apenas uma playlist de verão de deliciosos 30 minutos. Junte isso ao fato de que a primeira metade, embora eficiente, não seja tão brilhante e natural como a de “American Teen”, e “Free Spirit” acaba caindo em um território curioso, pelo menos para mim, que ainda tenho grandes esperanças quanto a Khalid.

Ele serve para mostrar que o cantor não se vendeu completamente às tendências como muitos de seus últimos singles sugeriam, mas não permite enxergar nada além do que o que vimos antes, e isso nunca é bom, mesmo não sendo, nem de longe, o pior dos casos.

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