Crítica | A Empregada (2025)

O MEDO DO RICO

 
 

Filme de Paul Feig é o produto de um designer de produtos feito para ser vendido como produto


Meu irmão do meio (15 anos, em meio à descoberta dos hormônios) queria muito assistir… daí depois de uns 20 minutos teve que ligar pra namorada e ficou coisa de mais de uma hora no telefone. Depois quis voltar umas cenas. Quais, papo para outra hora, e para outro texto.

Olhando agora, gosto bastante do pôster, ao menos ao quanto se dá para gostar de um pôster em 2026. Os cabelos das duas se tocando e o título em um vermelho de baixa resolução cortando diagonalmente. Me impressiona muito a economia que Hollywood tem hoje com algumas coisas em específico: não existe mais artista para pôster, não dá para usar película porque é muito caro, não se ouve mais orquestra, ao menos não na magnitude que se ouvia antes. Mas todo o maquinário para fazer um filme "caseiro" parecer um épico de escala babilônica e toda a grana para fazer os atores rodarem tudo que é lugar torrando em tudo que é coisa possível, isso sim, não falta.

É enlouquecedor que o Paul Feig seja "o" diretor de suspense em Hollywood no momento, ou um deles pelo menos. Se entre os anos 90 e 2000 operaram, em diferentes escalas, Verhoeven, De Palma, Fincher, Lynne e Shyamalan, agora temos basicamente o diretor de Bridesmaids (o quadragésimo melhor filme do século de acordo com alguns) e um Rian Johnson que luta contra as amarras dos estúdios que o contratam. Tudo bem que o orçamento desse em si nem é escandaloso (os mesmos 35 milhões que o último projeto do Eastwood…), mas com duas atrizes de ponta, um novo candidato a galã e toda uma preparação de marketing, dá pra se dizer que se trata de uma produção “grande”.

Nos atendo ao filme, e como o filme, nesse caso, conversa com o contexto, temos um suspense que, mais uma vez, reforça que o maior monstro no imaginário hollywoodiano do século 21 são as empregadas. Já foram os monstros, já foram os comunistas, já foram os órfãos, agora é gente pobre mesmo. Daí alguém poderia defender que nesse aqui, ao menos, a reviravolta faz a empregada se tornar heroína… ao reproduzir o comportamento psicótico do cara com quem ela tem um caso, confirmando todas as suspeitas que se tem do estereótipo da empregada bonita.

Mas chega de narrativas e contextos de produção. A herança com que trabalha Feig aqui, como pelos nomes citados acima, joga contra ele. Foram muitos grandes diretores fazendo muitos grandes filmes com suspenses sexuais. Feig, por sua vez, mal é capaz de estruturar o filme com qualquer sensibilidade para a passagem do tempo ou assimilação humana deste tempo. Na verdade, parece ser uma crise pandêmica no cinema contemporâneo: cineastas cada vez menos tem a habilidade de conduzir suas narrativas sem ser com explicações verbais. Um exemplo é logo a primeira cena: vemos (com uma quantidade obscena de planos) a personagem de Sydney Sweeney chegando à casa para a entrevista: depois de ser recepcionada à porta, cortamos diretamente para ela sentada com a personagem de Amanda Seyfried. Não há qualquer ambientação, qualquer modulação entre estes planos e estas microcenas dentro dessa cena inicial. Parece, literalmente, que faltam planos, que devem ter sido cortados porque o diretor tinha que manter o filme com X duração e o montador não sabe que não precisa usar todos os ângulos assinalados no arquivo de “cobertura”.

Não é um filme decupado, como nenhum de Feig é. Um monte de rostos e ângulos de cada momento, mas não como ideia estética, como faz um Fincher, por exemplo. É um filme que o diretor, muito provavelmente, pegou cada cena e pensou em N ângulos com todo o maquinário a disposição, confundindo isso com pensar cada cena. Até relógio quebrado acerta e, se qualquer coisa, Feig tem um certo domínio da estética Netflix - ou da estética filme que esposas cansadas assistem, também, pelo filme, e não apenas pelos figurinos das personagens nas propagandas de corretoria de luxo. Mas quando o que tem de mais interessante é como ele usa os seios da Sweeney como ponto central da discussão feminina em torno da produção (o fato de que a personagem não consegue esconder o próprio corpo utilizado como elemento cinematográfico que conversa também com a percepção da atriz no mundo real), realmente não resta muita coisa.

Ainda não decidi se a nova integrante do partido republicano é péssima atriz ou se é a nova atriz de uma nova leva que entende a interpretação também como extensão da persona digital. Amanda Seyfried é uma boa atriz confinada a diretores limitados a carreira toda, e a sensibilidade do Feig com dirigir crianças (vide os filmes da Anna Kendrick e da Blake Lively) é a mesma de um trator em podar um campo de lírios. No mais, tudo muito verborrágico, mesmo as possíveis tentativas de um neo-slasher com toques de Emerald Fennell e, sinceramente, muito pouco a se dizer. Vide por esse texto.

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