Crítica | valor sentimetal (2025)
O CINEMA COMO UM OBJETO DE VALOR SENTIMENTAL
Valor sentimental (2025) não propõe recuperar o tempo perdido entre pai e filha, mas observar como uma nova relação pode ser construída, ainda que sobre rachaduras antigas.
Entre sumiços e aparições, quase como um fantasma, Gustav (Stellan Skarsgård) reencontra as duas filhas após a morte da ex-esposa, mãe delas. Nesse retorno tardio, o renomado diretor de cinema oferece a Nora, a filha mais velha, um papel em seu novo filme. O convite surge menos como uma oportunidade profissional e mais como uma tentativa hesitante de aproximação.
Nora não participou das produções do pai durante a infância. Diferente de Agnes, a filha mais nova, que viveu com ele o momento mais encantador de sua relação, o único lugar em que o afeto parecia possível, ainda que mediado por uma câmera e um roteiro. Na vida adulta, os caminhos se separam, Agnes torna-se historiadora, enquanto Nora se torna atriz.
Em uma entrevista após a exibição do filme em que Agnes atua, Gustav afirma que filma com amigos, transformando-os em sua própria família. Seguindo essa lógica, cria e abandona uma família a cada novo trabalho, e ao convidar Nora para participar de seu novo filme, parece tentar reconstruir uma aproximação que nunca se consolidou fora da arte. Para Gustav, o cinema é a única linguagem que conhece para criar laços.
O ponto forte do novo longa de Joachim Trier está justamente nessa metalinguagem. Ao inseri-la dentro do próprio filme, Trier abre espaço para que o espectador também projete suas próprias memórias e construa seu olhar crítico sobre a narrativa. Seu efeito não depende de surpresas narrativas ou reviravoltas estruturais, mas da construção entre seus vários elementos. O cinema aqui abre espaço para que o espectador reviva suas próprias memórias a partir da compreensão dos personagens e crie, então, sua própria relação com a obra, quase como uma metalinguagem sobre a própria metalinguagem do filme.
A irmã mais velha assume centralidade não apenas por possuir mais cenas individuais, mas também estruturalmente. A câmera frequentemente a posiciona como sustentação do quadro, como se a estabilidade do espaço dependesse dela. Na cena em que as duas irmãs estão deitadas na cama após a leitura do roteiro do novo filme de Gustav, a imagem treme justamente quando Nora entra em uma de suas crises. As consequências de sua infância não são verbalizadas, aparecem transpostas na maneira como a câmera a observa.
Enquanto isso, a irmã mais nova surge como contraponto: mais leve, mais aberta, talvez mais apta a conviver com as imperfeições do pai. Não porque tenha sofrido menos, mas porque a mediação da irmã mais velha parece ter amortecido parte do impacto.
A partida do pai, somada à doença da mãe, impôs responsabilidades a Nora antes que ela estivesse preparada para lidar com elas. Agora adulta, é Agnes quem cuida de Nora. O filme sugere, assim, que crescer na mesma casa não significa atravessar o mesmo trauma.
O pai é apresentado sem caricatura moral. Sua falha não é espetacularizada, mas também não é suavizada. Resta às filhas a tarefa ambígua de lidar com essa presença. A mãe permanece como uma figura que a história nunca é totalmente revelada. Sabe-se apenas que era psicóloga.
A narrativa trabalha com a ideia de que os vínculos familiares não se reorganizam por meio de grandes gestos dramáticos, mas por pequenos deslocamentos como abrir a porta, responder uma mensagem e permanecer na mesma sala. A tolerância é o afeto.
Já com a personagem Rachel, interpretada por Elle Fanning, o afeto não parece algo custoso. Sua defesa da liberdade artística e a ideia de fazer filmes mais interessantes, com mais alma, mesmo dentro de uma indústria cada vez mais moldada por demandas de mercado e compromissos profissionais, a aproximam de Gustav. Ele estabelece com ela uma aproximação até mais rápida do que com as próprias filhas. Ao conhecê-lo já inserido na indústria cinematográfica, Rachel constrói com o diretor uma relação de admiração mais simples. Distante do peso do drama familiar, esse vínculo se desenvolve com mais facilidade.
Ainda assim, ela não pode interpretar o papel destinado a Nora. Não porque lhe falte talento, mas porque não atravessou a mesma dor. As cenas entre Gustav e a personagem de Elle Fanning soam, por vezes, superficiais, talvez de forma proposital. O sotaque, a presença estrangeira e a própria performance acabam funcionando quase como uma metáfora da antítese do cinema que Gustav procura. Ele busca algo afetivo e sentimental, ligado a um lugar específico e a uma familiaridade que ninguém além de Nora seria capaz de proporcionar.
Ao tentar abarcar muitas discussões, acaba tocando de forma um tanto superficial em temas como streaming, financiamento e até na lógica mais polemizadora do cinema contemporâneo, frequentemente associada a plataformas como Netflix e redes como TikTok. São questões que, no contexto atual, talvez exigissem um filme inteiro para serem exploradas com mais profundidade. No entanto, aqui acabam sendo tratadas de maneira quase apressada, algo curioso considerando que o próprio filme foi distribuído e produzido por uma plataforma de streaming, Mubi.
A cena em que os rostos se misturam também acaba parecendo um pouco desnecessária. A ideia central do filme não é buscar uma fusão entre os membros da família, como se houvesse uma aceitação plena e harmoniosa, mas sim moldar uma nova forma de relação entre eles.
A trilha sonora final é algo que o diretor escandinavo consegue concretizar com precisão. Em Valor Sentimental, com Cannock Chase, de Labi Siffre, e também em The Worst Person in the World (2021), com Águas de Março em uma versão em inglês interpretada por Art Garfunkel. As duas canções encerram seus filmes com maestria, acompanhando essa sensação de movimento consolador.
A cena da casa modernizada, por mais que soe quase como uma propaganda imobiliária, funcionando como um momento um pouco deslocado dentro do filme, também ressignifica o que aquela casa representa. Apaga-se ali uma série de objetos de valor sentimental, uma mão de tinta cobre as marcas de crescimento de Nora e Agnes nas paredes, a casa, antes vermelha e intensa, torna-se branca e pacificadora. Agora reformada, passa também a representar a nova relação entre pai e filha. A arquitetura deixa de ser apenas cenário e passa a atuar como uma metáfora para esse vínculo em construção.
Valor Sentimental não universaliza a dor entre os membros da família, ele a distribui de maneira desigual. No fundo, o pai só consegue se envolver através do cinema, talvez por isso Nora tenha se tornado atriz. Suas trajetórias criativas se aproximam, ainda que por caminhos diferentes. Gustav parece enxergar as filhas principalmente de forma artística e o filme propõe que essa pode ser a forma mais íntima de enxergar alguém.