Do Pior Ao Melhor | Kanye West

Do Pior Ao Melhor | Kanye West

Poucos artistas valorizam tanto seu tempo no estúdio como Kanye West. Para muitos louco, para muitos gênio, o artista de Chicago tomou conta do hip-hop provocando revolução após revolução com seus álbuns, abrindo o gênero de maneiras tão amplas e variadas que é impossível de não ver resquícios de sua influência em cada novo hit e artista que surgem. 

Sem mais delongas, poucos artistas, de qualquer gênero, em qualquer área da arte, tem uma corpo de trabalho tão consistente e rankear seus álbuns é uma tarefa árdua que se relaciona diretamente com sua visão pessoal de cada um deles. Não existe um pior, mas estes são os álbuns de Kanye West, do menos, ao mais impressionante.

7 | 808 & Heartbreak

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Quando "808" foi lançado, o mundo era diferente. Kanye West, até então, podia até ser uma figura irreverente, mas nunca as polêmicas haviam falado mais alto que sua música. Pense que seu último álbum tinha acabado de destronar o sub gênero mais lucrativo do hip-hop nos anos 2000, vendido quase 1 milhão de cópias em uma semana e que seu status era de uma super estrela.

Então chega seu quarto álbum de estúdio, "808 & Heartbreak", o próprio nome sendo uma alusão direta tanto ao beatmaker utilizado para produzi-lo (Roland-TR 808) quanto as turbulências que viriam a se tornar comuns para o sr. West. No final de 2007, sua mãe, Donda, faleceu por complicações em uma cirurgia plástica, meses depois seu noivado de seis anos com Alexis Phifer chegaria ao fim, e a relação de Kanye com sua tão sonhada fama estava diferente do que ele pretendia.

A partir disso veio a inspiração para não apenas tomar uma direção drástica na carreira, mas para fazer algo impensável para qualquer rapper. "808 & Heartbreak" é um introspectivo álbum pop e R&B, com melodias e não rimas, regado a auto-tune e trazendo algumas das histórias mais frias já contadas. Durante toda sua duração Kanye West despedaça sua alma de diversas formas, seja nos inusitados hits "Love Lockdown" e "Heartless", seja no grand finale "Pinnochio Story", um freestyle realizado em um show em Singapura. 

O impacto do álbum só seria sentido alguns anos após seu lançamento, quando o mesmo abriu espaço para outros rappers, com pouca intenção ou condições de rimar sobre drogas e crime, pudessem misturar emoções a seus projetos. Você gosta de Drake? The Weeknd? Childish Gambino? Frank Ocean? Kid Cudi? Nenhum deles existiria não fosse este álbum. 

6 | Graduation

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Seu terceiro álbum de estúdio teve o lançamento adiantado para coincidir com o lançamento do também terceiro álbum de 50 Cent, "Curtis". Kanye West derrotaria o rapper mais popular do planeta em vendas no que ficou conhecido por muitos como "o dia em que o gangsta rap morreu". 

"Graduation" é o favorito de muitos fãs de Kanye West, e não é difícil saber o porquê. De acordo com o próprio, o álbum foi feito para ser mais relacionável e isso é nítido durante toda a sua duração. A musicalidade é mais simples que seus dois primeiros projetos e as letras foram feitas para funcionarem como músicas tema, sendo que West acreditava que suas composições passadas eram de difícil entendimento por parte de seus fãs.

Estranhamente, o álbum encontra seus pontos mais altos justamente em seus momentos mais profundos. A metafórica "Can't Tell Me Nothing", a futurista "Flashing Lights" e um de seus hits mais reconhecidos, "Stronger", figuram até hoje como algumas de suas melhores faixas e, no caso das duas últimas, foram fundamentais na aproximação do hip-hop com a música eletrônica.

"Graduation" é  o álbum mais tragável de Kanye West e opta por apostar na força de suas músicas individualmente e não como um todo. Isso funciona, é um trabalho fantástico, mas fica a dúvida de o quão melhor não se tornaria se fosse feito com a mesma ambição de seus antecessores. 

5 | The Life Of Pablo

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Em seu sétimo álbum de estúdio, Kanye West abandonou o perfeccionismo que tomava conta de seu trabalho, entregando um ousado, bagunçado, não finalizado projeto que flerta entre faixas mal acabadas e obras de arte em forma de música. Combinando com sua estranha divulgação, "Pablo" foi como um evento, esperado por todos que não tinham ideia do que viria a seguir. 

O resultado é mais uma reunião de estrelas da música, com diversos dos maiores nomes da música pop em 2016. Chance The Rapper e o melhor verso do ano, que transformaria sua carreira; Kendrick Lamar em uma feature onde Kanye eleva o nível de suas rimas como muitos achavam que não poderia mais; Rihanna em uma infame faixa onde Taylor Swift é chamada de bitch; uma interpolação que transformou "Panda" de Desiigner em um hit gigantesco; uma parceria com Post Malone logo antes de ele explodir; uma rara aparição de Frank Ocean em uma faixa com Sia e Vic Mensa; um refrão cantado pelo artista mais quente de 2015 em The Weeknd. Ainda assim, é considerado por muitos como o primeiro álbum de Kanye West que é apenas um álbum.

Certo tempo depois - e de algumas mudanças em diversas faixas - "The Life Of Pablo" soa como um reflexo da carreira de Kanye West. Irreverente, polêmico, eclético, despretensiosamente ambicioso. Um espetáculo, que vai ressonar sempre que você voltar a ele. 

4 | Yeezus

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De todas as "Yeezy Seasons", essa foi de longe a mais divisória. O sexto álbum de estúdio de Kanye veio sem qualquer brilho, pompa ou vontade de ser gostado. De acordo com o próprio, é um protesto a música, diferente de qualquer coisa que ele, ou qualquer artista do mainstream tenha feito anteriormente. 

"Yeezus" é, na verdade, um álbum eletrônico, que tem rimas em todas as faixas. Pegando influência direta do grupo experimental Death Grips, Kanye constrói um projeto obscuro e abrasivo, extremamente polêmico e sem qualquer pudor. Conceitualmente ele investiga desejos e tendências de sua mente que muitos de nós preferimos existir que não existem, e ataca aspectos da sociedade que preferimos fechar os olhos para não ver.

Faixas estrondosas como "Black Skinhead"; a famosa proclamação de "I Am a God" que todos podíamos esperar mais cedo ou mais tarde; um de seus melhores versos e músicas na desafiante "New Slaves"; uma de suas maiores obras visionárias em "Blood On The Leaves". Nenhuma dessas faixas soa exatamente como nada que ele tenha feito, com o único momento realmente "Kanye" aqui sendo em "Bound 2", sua maior declaração de amor que fecha o álbum da melhor maneira. 

"Yeezus" foi, dentro de sua proposta, impecável do começo ao fim e, apesar de ser o álbum mais divisório de Kanye West, é facilmente um de seus mais corajosos e brilhantes. Há muito pouco aqui que um humano normal conseguiria fazer. 

3 | The College Dropout

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Se hoje rappers não precisam mais seguir o esterótipo implementado pela década de 90 e início dos anos 2000, é por causa do projeto de estreia de Kanye West. "The College Dropout" mostrou que um homem que foi para a faculdade (a abandonou, como o próprio nome já diz, mas foi), troca as correntes de ouro por uma mochila e escolhe falar sobre assuntos que não drogas e mulheres pode encontrar seu espaço no hip-hop.

Tudo bem, Kanye não estava no auge de suas rimas em sua estreia (o contrário de vários rappers), mas os momentos soltos parecem funcionar tão bem como os mais centrados. É um álbum extremamente irônico, engraçado e irreverente, que desfila seus conceitos de forma inteligente e aposta em uma produção totalmente baseada em seus samples de soul para funcionar. A fórmula simplesmente revolucionou o hip-hop de formas pouco vistas antes. 

Pense em "All Falls Down", que é construída em cima de cordas magras de violão. Ou "Through The Wire", a melhor música já lançada com seu artista estando com a boca costurada (por conta de um acidente que quase tirou sua vida). "Slow Jamz" é talvez uma das faixas mais inusitadas a conquistar o número 1 da Billboard e "The New Workout Plan" é a ideia mais estranha a dar certo em uma música até hoje. Ainda assim, o maior feito desde álbum está em aproximar de vez o hip-hop da religião. "Jesus Walks" é uma das melhores músicas de rap já lançadas e caracteriza bem o impacto que este álbum teve na indústria. 

Para muitos o melhor e favorito álbum de Kanye, "The College Dropout" é uma das estreias mais corajosas e revolucionárias da história da música, introduzindo todos a novos conceitos e a um dos artistas mais talentosos do século 21. Ah, vale lembrar que ele produziu todas as faixas sozinho, caso isso valha de qualquer coisa...

2 | Late Registration

Diversos rappers, incluindo Jay-Z e Nas, falharam em trazer uma sequência a altura de suas ótimas estreias. Vários outros, falham em tentar mudar demais o seu som para não entregarem apenas uma re-edição de seus projetos anteriores. "Late Registration" sucede nestas duas coisas e, mais do que isso, é um dos álbuns mais inimitáveis da carreira de Yeezy. 

Quantos artistas, não apenas rappers, se dariam o trabalho de criar um álbum que mais parece uma orquestra? Graças ao auxílio do excelente Jon Brion, aqui todas as faixas possuem camadas intermináveis de baixo, celo, piano, harpas, berimbaus, sinos, tambores, trompetes e saxofones, que se intercalam com tanta perfeição e detalhismo que se torna algo assustador. 

Os conceitos são uma sequência direta de "The College Droppout", mas vão mais a fundo, desta vez focando não na sociedade em si, mas nas pessoas que nela vivem. O storytelling de Kanye está excepcional, a profundidade das letras impressiona e a coesão de todo o projeto é invejável. Desde os hits como a gigantesca "Gold Digger", ou "Touch The Sky" e "Diamonds From Sierra Leone à faixas menores, mas que contam muito como "Roses", "Addiction" e Late" à alguns dos melhores deepcuts de sua carreira em "Gone" e "We Major".

"Late Registration" é uma obra prima, um álbum feito com um perfeccionismo minucioso, uma obra de arte barroca, que não deixa qualquer espaço sem um nível de detalhismo impressionante. Pode não ser seu álbum mais popular, mas é o projeto mais ambicioso de Kanye West e, não fosse qualquer outro o idealizando, o resultado não seria possível.

1 | My Beautiful Dark Twisted Fantasy

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A resposta não poderia ser outra. A história recente já coroou o quinto álbum de estúdio de Kanye West como não apenas seu melhor projeto, mas como um dos maiores discos das últimas décadas. Não fomos os primeiros e nem seremos os últimos, procure qualquer lista de melhores álbuns dos anos 2010 até agora e a grande maioria terá este acima de outras obras magníficas. "Channel Orange", "Random Access Memories", "To Pimp A Butterfly", "Lemonade", todos seguem a sombra de "My Beautiful Dark Twisted Fantasy". 

Desde os primeiros momentos de "Dark Fantasy", quando seu sample pergunta se podemos chegar mais alto, você percebe que este é um álbum diferente. A partir dali, quando a faixa já atinge alturas inimagináveis para a maioria dos artistas, nunca mais descemos. A produção pega um pouco de cada projeto de Kanye, até mesmo os que viriam depois, e as executa de forma maximalista, é um álbum que a todo momento sabe que está entregando algo quase imaculado. É o topo do Monte Olympus, onde deuses (Jay-Z, Alicia Keys, Rihanna, Raekwon e até mesmo Sir. Elton John), heróis mitológicos (Bon Iver, John Legend, Kid Cudi e Pusha T) dividem seus talentos com os mais humanos dos plebeus (Fergie, CyHi The Prince, Rick Ross). 

E cada um deles entrega algo muito próximo do maior auge que encontraram em suas carreiras individuais, como é o caso de Nicki, que talvez tenha tido o maior verso da década em "Monster" desbancando Kanye West e Jay-Z que trouxeram seu melhor jogo para a faixa. Também é o caso de CyHi Prince que viu sua carreira decolar e pousar em nada menos que uma participação em "So Appalled". Rihanna toma conta de todos no refrão, e enquanto Elton John não fala mais do que uma frase e Keys não mais do que uma complementação desta frase, ainda assim parecem emprestar um pouco de si próprios para a estrondosa "All Of The Lights". O próprio Rick Ross tem um de seus melhores versos em "Devil In a New Dress", enquanto Cudi e Raekwon ajudam Kanye a dar sentido ao título "Gorgeous". Bon Iver vai de sinistro em "Monster" à apaixonado em "Lost In The World", e John Legend toca o coração de todos quando nos convida a jogar o "Blame Game". 

E ainda assim, o ponto central deste álbum é sempre ele, o artista mais polêmico e controverso de sua geração. O que Kanye West faz neste álbum é explorar a mente do homem no século 21 como ninguém conseguiu fazer. Desde as aspirações mais básicas aos desejos mais profundos, desde os aspectos mais mundanos aos atestados de imortalidade que ele procura. Quando ele trabalha com mais individualismo vemos vislumbres dos assuntos que "MBDTF" tanto quer passar. A criança crescendo em um mundo desordenado em "Power", o adulto tentando lidar com os desejos que o corrompem em "Hell Of a Life", o homem por traz do artista, reconhecendo todos os seus erros e propondo um brinde na transcendental "Runaway". 

"My Beautiful Dark Twisted Fantasy" é tudo que Kanye West sonha na mente louca dele e pode muito bem ser o melhor álbum de nosso tempo.

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