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#ID: Vida longa, Justin Vernon

 

Algum álbum já mudou a perspectiva de vida de vocês? Se sim, quantos? Uma dúzia? Uma mão cheia? Menos que isso? Se tem algum, escolha um em particular e tente se lembrar como foi que o disco chegou aos seus ouvidos e da primeira vez que o ouviu, como foi a sensação?

Bom, no auge da minha pré-adolescência, no finado MSN, um antigo web-amigo que – obviamente - eu perdi contato, me ajudava com descobertas musicais, como todo bom pré-adolescente eu tentava agregar mais interesse na minha personalidade fugindo do óbvio, me escondendo atrás de gostos “mais refinados”. Hazeltons chegou a mim por um link de torrent, confiando no bom senso do meu amigo e nos 3 antivírus de qualidade duvidosa que mantinha em meu computador, baixei de bom grado o disco de 7 músicas que viria a mudar a minha vida mais tarde naquele mesmo dia. 

Hoje, Justin Vernon completa 37 anos, um dos maiores músicos vivos, um produtor indiscutivelmente talentoso e compositor de inúmeras obras primas nesses 20 anos que trabalha incansavelmente com o seu maior talento.

Justin lançou seu primeiro álbum de estúdio em 1998, com a banda Mount Vernon, onde era compositor, guitarrista e vocalista, não à toa a banda levava o seu sobrenome. As gravações desse primeiro álbum de estúdio são muito difíceis de se encontrar na internet hoje em dia. As do segundo, "All Of Us Free", de 2000 já são mais acessíveis, álbum esse que conta com composições maduras e produções incríveis para um jovem adulto de 19 anos que era Vernon naquela época.

 
 

Justin lançou 3 álbuns de estúdio em carreira solo, "Home Is" (2001), "Self Record" (2005) e o mais impressionante desses, "Hazeltons" (2006). O primeiro é um conjunto de músicas escritas durante 1998 e 2001 que ficaram de fora dos projetos musicais de Vernon, os dois primeiros álbuns contam com duetos constantes com a sua namorada na época, Emma Jensen (sim, aquela Emma.)

Vernon mostra a outra face do seu repertório no disco seguinte, "Self Record", mostrando seu lado experimental que é tão conhecido e aclamado por todos hoje em dia. Ruídos, micro-afinações, ambiência, Vernon já sabia trabalhar muitíssimo bem com tudo isso 3 anos antes de dar início ao seu maior projeto.

"Hazeltons" é onde tudo começa a fazer sentido, o acústico se funde completamente com o experimentalismo genial do compositor de Wisconsin.

7 faixas de composições de alta qualidade, que ainda sim, com um certo nível de saudosismo, me acertam em cheio assim como a anos atrás. “A Song For A Lover Of Long Ago” é uma obra prima de quase 9 minutos de uma melodia rica e letra assombrosa. “Hannah, My Ophelia” é também uma longa música, que não possui instrumentos, apenas a voz de Vernon a capella dá o tom da música que encerra o álbum com uma sensação de que o único jeito de Vernon passar a mensagem daquela música era abrindo mão dos instrumentos.

 
 

Essa coragem de Vernon de experimentar livremente, a ponto de dispensar os instrumentos para passar a mensagem que quer passar do jeito certo me fez repensar e logo depois esquecer tudo aquilo que eu sabia ou achava que sabia sobre música, desde a primeira vez que ouvi "Hazeltons". Eu tinha 13 anos e já sabia o que eu queria; eu queria viver de música.

Depois do fim de sua banda DeYarmond Edison, pela qual lançou três álbuns e um EP de 2004 até 2006, e o término de seu namoro de longa data com Emma Jensen, Justin saiu de Raleigh e voltou para Wisconsin onde se isolou durante meses entre 2007 e 2008 para compor o que viria a ser o primeiro álbum de Bon Iver, seu maior sucesso comercial.

For Emma, Forever Ago foi um grande sucesso, ganhando apenas comentários positivos da critica especializada e reconhecimento internacional, logo o single “Skinny Love” já ecoava em rádios e gargantas que cantavam orgulhosamente as letras com cargas emocionais tão identificáveis.  

Vernon ocupou seu tempo com o que sabia fazer depois do sucesso estrondoso do álbum de estreia do seu novo projeto, se engajou em inúmeros projetos musicais paralelos, gravou álbuns e fez turnês com vários deles. Produziu inteiramente e coproduziu alguns álbuns nesse meio tempo também, inclusive o nomeado ao Grammy Awards de 2016 "The Colour In Anything" de James Blake, também colaborou em várias faixas em "My Beautiful Dark Twisted Fantasy" de Kanye West incluindo “Lost In The World” onde West usa sua composição “Woods” como base para sua produção e emprestou sua voz para o início e fechamento de "Monster", uma das faixas mais aclamadas de West.

Vernon foi premiado com alguns Grammys por seu trabalho, inclusive pelo segundo álbum, autointitulado: "Bon Iver, Bon Iver". Lançado em 2011, traz uma evolução nada delicada do seu álbum de estreia, arranjos mais agressivos, uma maior variedade de instrumentos e a execução ao vivo foi ficando cada vez mais trabalhosa, mas também cada vez mais perfeita. 

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Justin se destaca por como consegue sempre harmonizar o número acima da média de instrumentos e instrumentistas em cima do palco.

Um ano depois, em 2012, foi anunciado o término da banda Bon Iver, deixando vários fãs (eu incluso) desnorteados. Desde o inicio de sua carreira musical, Justin sempre foi um workaholic, com um ritmo de trabalho muito acima do normal para sua profissão. Pense que em 2005 Justin lançou 3 álbuns por 2 projetos diferentes, nunca antes ficamos tanto tempo sem ouvir sobre ele, que eventualmente, aparecia como produtor em algum trabalho indie, ou como colaborador em algum  outro projeto.

Em 2015, arquitetou o projeto de um festival musical na sua cidade natal, Eau Claire. Bon Iver voltou aos palcos depois de 3 anos com algumas músicas novas e um espirito repaginado, Justin anunciou em 2016 o lançamento do 3º álbum de estúdio da banda: "22, a Million". No festival de música Eaux Claires de 2016, Bon Iver tocou o álbum na íntegra pela primeira vez, e algumas semanas depois, o disco foi lançado em definitivo. 

Novamente surpreendendo a todos, o álbum ainda mais experimental que o antecessor, agradou a todos mesclando elementos de vários gêneros musicais como a música eletrônica, o R&B e o hip-hop. Como Justin já citou algumas vezes, compôs o álbum durante uma viagem onde levava apenas um sintetizador de mão Teenage OP-1. 

 
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A polivalência, persistência e paixão de Justin por seu trabalho é parte importante do seu legado. Que surjam muitos Justins Vernons num futuro próximo, onde não ficaremos acanhados de tocar vários instrumentos, ter inúmeros projetos, ter mais de uma função central naquilo que a gente ama, que cada um da extensa lista de projetos de Justin tenha o mesmo efeito moral que teve no meu “eu” de 7 anos atrás.

Vida longa, JD Vernon.

Vida longa, Bon Iver.

Vida longa, Justin Vernon.