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#ID - Donald Glover, a.k.a Childish Gambino

É difícil definir exatamente de onde surgiu Donald Glover. São várias histórias entrelaçadas que - como cada um de seus talentos - crescem e se enroscam em volta dessa figura curiosa e genial, rumo ao sol. É bem provável que você nem lembre quando ou onde foi a primeira vez que ouviu falar dele. Foi uma música? Uma série? Um videoclipe? Uma esquete no youtube? Um filme?

Donald Glover quer fazer tudo, e ele faz tudo que quer.

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Aí vai uma boa anedota que pode ilustrar isso: crescendo como uma Testemunha de Jeová, com algumas regras rígidas em casa, Donald foi proibido de algumas coisas pelos pais como, por exemplo, assistir a ‘Os Simpsons’. Quando o programa começava, era hora de ele ir para a cama. É claro que isso não impediu ele de ligar a televisão com o som baixo e deixar ali por perto um gravador Talkboy - o mesmo usado por Kevin McCallister em “Esqueceram de Mim 2” - para depois ficar ouvindo o programa em seu quarto com seu irmão. Recriando as imagens que ele não tinha na cabeça, com sua criatividade.

Criatividade é o que ele tinha. E o que ele queria mostrar, seja em que meio fosse. Já em 2006, Donald fundou com seus amigos o ‘Derrick Comedy’, um grupo de comédia que produzia esquetes para o Youtube muito antes de isso ser algo tão comum. Todos os membros já tinham uma certa experiência com comédia de improviso mas a internet - que sempre foi uma das maiores armas da carreira de Donald Glover - realmente ajudou a trazer notoriedade para o grupo.

No mesmo ano, ele mandou um roteiro especulativo de 'Os Simpsons’ para o produtor David Miner. Impressionados com o roteiro, David Miner e Tina Fey chamaram Donald e, não muito tempo depois, o cara já tava no grupo de roteiristas de ‘30 Rock’. Ele ficou lá de 2006 até 2009, inclusive aparecendo em pequenos papéis de vez em quando. A série levou o prêmio Writers Guild of America Awards em 3 anos consecutivos, 2007, 2008 e 2009, além de também 2 Emmys como Melhor Série de Comédia. Donald já começava a listar seus prêmios aí.

 

O nome Childish Gambino não foi escolhido. Foi entregue pelo destino.

 

Enquanto bebiam e se divertiam no segundo ano de faculdade, Donald e seus amigos decidiram tentar a sorte quando encontraram um site que gerava nomes do grupo Wu-Tang Clan. Glover - agora finalmente também Childish Gambino - acabou sentindo uma conexão tão grande com a alcunha que esse viria a ser muito mais do que apenas seu nome artístico: seria sua cara-metade.

Gambino começou sua carreira musical de forma criativa logo de cara. Ele queria interpretar um personagem em sua primeira mixtape e se aproveitou de uma gripe para representar um garoto doente, usando sua voz imperfeita e seu nariz entupido como uma própria piada com os outros rappers. Disso veio o nome do álbum: ‘Sick Boi’, lançado em 2008. Com um tom cômico e por vezes até debochado, ele também editou a voz meio “gripada” em um pitch mais alto para que seus colegas da faculdade não soubessem que era ele quem estava cantando. A identidade sempre foi um tema recorrente na obra de Childish Gambino/Donald Glover - e o fato de que eu preciso usar os dois nomes nessa frase só deixa isso ainda mais claro.

“Sick bois don't die, they fresh to death
My shoes bright blue, so you watch my step”
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Graças a essa brincadeira muita gente recebeu o Gambino (que naquela época nem era Gambino direito) com receio e desagrado. Muitos achavam que ele estava zoando o hip-hop, com sua voz gripada e sua capa feita no paint, como muitos comediantes já faziam, e sua carreira não era realmente séria. Mas Donald não tinha muito tempo pra gastar meditando sobre ceticismos alheios. Em 2009, lançou um filme com seu grupo de comédia ‘Derrick Comedy’ chamado "Mystery Team", mais uma mixtape chamada ‘Poindexter’ e, finalmente, estreou na primeira temporada da série ‘Community’ - um dos pontos mais importantes da sua carreira. Dan Harmon, também gênio e criador da série, já via muito potencial nele desde aquela época, dizendo que “um dia iria embolsar no fato de que chegou a trabalhar com ele”. Harmon estava certo.

Em 2010, pouco depois de ‘Poindexter’, Gambino lança ‘I Am Just A Rapper’ e ‘I Am Just A Rapper 2’, duas mixtapes. Esse foi um grande ano pro Donald. Foi nesse ano que a campanha #donald4spiderman nasceu, cresceu absurdamente e tomou a internet, chegando até no colo do velhinho mais querido da Marvel, Stan Lee, que disse que ele deveria sim receber a chance de uma audição para o papel do amigo da vizinhança (o papel nunca foi para ele, mas a campanha viral foi diretamente responsável pela criação de Miles Morales, o Homem-Aranha negro, um dos marcos na era de diversidade na cultura pop). Foi também em 2010 que ele lançou seu primeiro especial de stand-up comedy, um episódio de ‘Comedy Central Presents’. No ano seguinte, lançou ‘Weirdo’, que aliado a ‘Community’, ajudou a consolidar de vez por todas seu lugar como comediante.

Em ‘Community’, Donald foi Troy Barnes, um jock americano que, lentamente, acabou se descobrindo cada vez mais nerd, principalmente graças a sua amizade com Abed. Acontece direto na televisão e no cinema: uma mudança gradativa no personagem quando a personalidade do ator é interessante demais para ser ignorada. Em alguns casos, é ruim. Nesse caso, funcionou completamente. Troy virou um dos personagens mais amados da série e estrela de algumas das cenas mais icônicas de Community, como esta aqui que você já deve ter visto por aí na internet imortalizada como gif.

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Quem também trabalhava em ‘Community’ como compositor musical era o Ludwig Göransson. Guarde bem esse nome. Assim que os dois se conheceram, tudo encaixou. Nunca subestime o poder do networking. A parceria trouxe mais uma mixtape (‘Culdesac’) e um EP (‘EP’), produzidos em conjunto pelos dois.

 

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Foi nessa época que o vídeo de 'Freaks and Geeks' - aquele com Gambino pulando para lá e para cá num armazém de casaco vermelho - viralizou, e estes seriam os últimos projetos antes do primeiro álbum de estúdio de Bino. Mas Ludwig Göransson acompanharia Childish Gambino até hoje.

‘Camp’ seria mais um ponto de virada que iria incendiar a carreira de Bino, na melhor definição possível da palavra.

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Com faixas que estouraram, como Bonfire e Heartbeat, e uma coletânea de músicas sobre sua infância, as mudanças em sua nova vida como rapper, o racismo e até sobre masculinidade tóxica, Childish Gambino finalmente se abre por completo. Não identificamos em ‘Camp’, o garoto que queria esconder sua própria identidade em ‘Sick Boi’. O álbum é extremamente pessoal, ao ponto de parecer um amigo íntimo contando descontraidamente sua história de vida, seus altos e baixos e suas inseguranças de uma forma por vezes ingênua, por vezes relacionável, por vezes genial e sempre honesta. No final do álbum, um monólogo - escrito pelo seu companheiro de Derrick Comedy, DC Pierson - conta a história de um garoto descobrindo que o melhor mesmo é deixar seus sentimentos expostos, e arrematando a mensagem do álbum: não se esconda, aprenda a contar a sua verdade.

“So I learned cut out the middle man,
make it all for everybody, always
Everybody can’t turn around and tell everybody,
everybody already knows, I told them
[...]
I wish I could say this was a story about how I got on the bus a boy
And got off a man more cynical, hardened, and mature and shit
But that’s not true.
The truth is I got on the bus a boy.
And I never got off the bus
I still haven’t…”

Como explícito no trecho final do álbum, até Gambino sabia que ainda não estava completamente maduro. Ele tinha muito o que crescer. E ele não tinha nenhuma intenção de ficar parado.

Entre 2011 e 2013, Gambino já fazia tours, lançava mais uma mixtape (‘Royalty’) e assinava um contrato para criar uma série para a FX. Já em ‘Community’, no 5º episódio da 5ª temporada, Donald decidiu deixar a série, para a tristeza dos fãs. Com tanta coisa rolando, todo mundo presumiu que o principal motivo para a saída fosse o foco na carreira de rapper. 

 O primeiro dos  diversos bilhetes  que Donald escreveu sobre seus medos.

O primeiro dos diversos bilhetes que Donald escreveu sobre seus medos.

Mas a verdade é que Donald estava precisando de um tempo para pensar em diversas outras coisas também, e ele enumerou exatamente todos os seus medos e aflições em bilhetes escritos a mão. Bilhetes que ele postou no instagram, seguindo a máxima do “Make it all for everybody, always”. Essa talvez tenha sido a época mais sombria de Donald/Gambino até hoje.

Fez um filme aqui, umas aparições em série acolá e, enquanto isso, seu melhor e maior álbum estava no forno. Em dezembro, ‘Because The Internet’era lançado. Em seus bilhetes, Donald já dizia que queria lançar o álbum numa época em que todos pudessem ouvi-lo com calma. Era a hora perfeita.

‘Because The Internet’ fala especificamente sobre como as tecnologias - principalmente a internet - mudam as interações sociais no mundo, e não necessariamente para o melhor. Ele explica o nome do álbum dizendo: “Por causa da internet, eu e todos nós estamos aqui. Dizem que a língua do futuro vai ser o Mandarim ou o Espanhol mas a internet já é a língua do mundo.” Todo o álbum apela para um público contemporâneo, o tema da internet está presente em tudo que compõe a obra. Como dizia Marshall McLuhan, "o meio é a mensagem". Um vídeo misterioso, um curta alegórico (‘Clapping For The Wrong Reasons’), uma capa do álbum digital em gif (que a versão física imitava com um efeito holográfico), um roteiro de 72 páginas... Tudo indicava que esse seria o maior projeto de Gambino até agora. E ele não desapontou.

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O álbum trouxe hits como Crawl, Sweatpants e 3005 e contou com participações de Chance The Rapper, Azealia Banks e Jhené Aiko. Na época de liberar o álbum, Gambino se tornou mais quieto e introvertido nas entrevistas e programas que aparecia. Começou a se vestir sempre com a mesma roupa e agir de uma forma, no mínimo, estranha. Também se isolou das redes sociais. Deletou tudo do instagram, twitter e facebook. A única coisa que ele fazia era twittar o termo Roscoe's Wetsuit e dar RT em todo mundo que dizia a mesma coisa. Obviamente a internet entrou em polvorosa e seus fãs começaram a twittar o termo repetidamente, talvez pela chance de serem notados ou talvez para participarem da piada interna que estava rolando, mesmo não entendendo. Teve gente que até tatuou a frase no braço.

Mas o que é Roscoes Wetsuit?

Calma.

Além de tudo isso, ele também disponibilizou um site com o roteiro e uma experiência onde pedaços de texto se misturavam com pequenos trechos de vídeo e onde as músicas tinham que ser tocadas exatamente em determinados pontos da história e com segredos no código-fonte que desbloqueavam uma faixa extra. Era um álbum visual interativo moldado pelos parâmetros dela: a internet.

O roteiro de ‘Because the Internet’ conta a história de ‘The Boy’ ou ‘O Garoto’. Sim, ele é o mesmo da última música de ‘Camp’. A história lembra um 'O Apanhador No Campo de Centeio' na era da internet, seguindo um herdeiro rico que mora em uma mansão e seu trabalho é fazer comentários trolls na internet, xingando pessoas e criticando coisas. Num mundo meio bizarro mas muito real, a vida dele, pouco a pouco, vai se desmoronando.

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Pelo roteiro, descobrimos que Gambino estava se vestindo como ‘O Garoto’, o personagem principal. Aquelas roupas, aquele jeito, aquele isolamento. Só mais uma forma de divulgar o álbum e passar sua mensagem. E Roscoes Wetsuit? No roteiro, o termo também aparecia. Diversos personagens desse mundo surreal diziam isso na história e quando ‘O Garoto’ perguntava pra eles o que isso significava, eles não sabiam explicar. Mas continuavam dizendo.

Roscoes Wetsuit é o nada.

É o nada que só existe por causa da internet. É a reprodução cega de termos que se tornam virais porque alguém os viu na internet e pensa que significam algo especial. É cada frase sem sentido repetida por fãs porque algum de seus ídolos a disse. É cada notícia falsa que as pessoas compartilham sem checar fontes. Roscoes Wetsuit é cada meme, cada música, cada celebridade que ganha fama na internet mesmo que não tenha o menor significado. Viralizando essa frase sem nenhuma definição, ele mostrou o que a internet pode fazer. Ele usou seus próprios fãs como uma mídia para sua arte, criticando aquilo que os induziu a fazer. Colocou sua genialidade a máxima potência e arrancou de todo mundo exatamente o que queria. ‘Because The Internet’ trouxe mensagens em seus videoclipes sobre o racismo nos E.U.A., um comentário incisivo sobre a alienação contemporânea e uma obra densa e perfeitamente amarrada tematicamente. Childish Gambino fazia sua obra-prima.

Seu próximo projeto musical foi 'STN MTN/Kauai', em 2014. Uma junção de sua 7ª mixtape com seu 2º EP com músicas consistentes em uma combinação coesa e agradável, bem menos intensa que o projeto anterior. Dá para dançar ou relaxar, você escolhe.

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Entre 2014 e 2017 Donald apareceria cada vez mais na telona, participando de filmes como "Magic Mike XXL""The Martian" e até uma pontinha no novo do Homem-Aranha, "Spiderman: Homecoming". No futuro, até o Simba ele irá interpretar no live-action de "O Rei Leão". Mas nenhum anúncio de suas participações causou tanto entusiasmo quanto a que ele fará no dia 25 de maio, como Lando Calrissian em “Solo: A Star Wars Story” - um filme que cada vez mais bota sua estratégia de divulgação nas costas do multitalentoso artista.

Em 2016, Gambino lançou ‘Awaken My Love!’, mudando completamente de estilo musical com uma fusão de funk, R&B e psychedelic soul, e provando que realmente sabe fazer de tudo. E fazer bem.

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As músicas foram lançadas primeiro em seu show em um domo no deserto de Joshua Tree, Pharosuma experiência mágica com animações 3D holográficas onde o público era proibido de levar celulares e câmeras. 'Awaken My Love!’ é um álbum misterioso e alucinante, que fala de racismo, amor e paternidade. Para a crítica, um sucesso (chegando a ser indicado a Álbum do Ano no Grammy). Para os fãs, um experimento polarizador (muitos ainda se prendiam ao Bino rapper). Para a internet, um novo meme (a música Redbone se tornou a mais conhecida do álbum). Para mim, um deleite.

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Sim, é claro. Faltou falar de 'Atlanta'. A série brilhante, dinâmica e hilária que Donald criou, escreveu, produziu e dirigiu (juntamente a outro gênio que colaborou com alguns de seus videoclipes, Hiro Murai) e que já arrecadou mais de 10 prêmios, incluindo Emmys e Golden Globes (sim, no plural). Deixei ela pro finalzinho por um motivo: a primeira temporada está na Netflix. Então se ainda não assistiu, já tem algo para fazer quando terminar de ler isso aqui.

Donald Glover está com tudo. O 'Saturday Night Live', que já tinha rejeitado ele duas outras vezes em audições passadas, o convidou recentemente para apresentar um programa inteiro e chamou Childish Gambino como convidado musical. No mesmo dia do programa, ele surpreendeu a todos com 2 novas músicas e um videoclipe.

'This Is America'seu novo single, mete o dedo na ferida dos Estados Unidos, tratando de violência policial, racismo, controle de armas e o jeito com que a cultura pop dançante pode ajudar a ocultar tudo isso. E o melhor: o polêmico clipe está trazendo cada vez mais popularidade para ele mundo afora e sugerindo um próximo álbum que pode acabar sendo seu projeto mais impactante.

Donald Glover representa o apogeu do artista contemporâneo.

Um artista que existe por causa da internet. Um artista que não se preocupa em se prender a um tipo de entretenimento. Multifacetado, contemporâneo, político, inteligente e sincero. Conhece aquela famosa frase “jack of all trades, master of none”? Bem… Donald Glover é, simplesmente, um “master of all trades”. E o que ele quiser fazer, vai fazer bem. O que nos resta é torcer para que ele nunca canse, porque nós com certeza não vamos.