Crítica | Saba - CARE FOR ME

Crítica | Saba - CARE FOR ME

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Algo acontece nas ruas de Chicago. Talvez o vento da chamada "windy city", talvez a deep dish pizza, talvez a influência de Michael Jordan em jovens que não tem talento para o esporte e procuram a área da música. Seja o que for, funciona.

Saba, ou Tahj Malik Chandler, era um jovem prolífico na escola. Pulou séries, aprendeu a tocar piano aos sete anos e se formou no ensino médio aos 16. Mas ao invés de perseguir uma, possivelmente bem sucedida, carreira acadêmica, seu amor pela música falou mais alto. Distribuiu mixtapes pela escola para tentar espalhar seu nome e conseguiria chegar aos ouvidos do mainstream justamente em uma mixtape, no caso "Acid Rap", de Chance The Rapper, em 2015. No ano seguinte, uma nova colaboração em "Angels", do aclamado álbum de estreia de Chance, "Coloring Book", elevou a carreira de ambos os artistas. Saba fundou sua própria gravadora e lançou seu álbum de estúdio, "Bucket List Project" também em 2016, mas ainda não conseguiu o apoio que o nível de seu talento merece. 

Se o mundo for justo, "CARE FOR ME" deve fazer seu nome ser tão falado como de seu conterrâneo. 

Varias influências pulam logo na primeira ouvida. Tanto seus vocais, como toda a identidade sonora do álbum lembram uma mistura entre o hip-hop de Chance e o jazz de BJ The Chicago Kid. O piano, provavelmente tocado pelo próprio Saba, permeia a maioria das composições, que também trazem influências claras do trap. Saba entende bem que para entrar no mainstream, é necessário fazer ajustes, mas ele os faz com tanta naturalidade que em nenhum momento parece desesperado ou necessitado de apelo comercial. Em seus melhores momentos "CARE FOR ME" é introspectivo e contemplativo, sem deixar de ser sonoramente atraente tanto para uma tranquila banda de carro ou para ouvir em uma festa. 

Com apenas dez faixas, o álbum é um daqueles casos que funciona ainda melhor se ouvido na ordem exata. É uma organização quase genial, que apresenta aspectos de sua vida de forma gradativa na primeira metade, abrindo espaço para que seu storytelling seja aproveitado da melhor maneira na segunda. Os acontecimentos não ocorrem em ordem cronológica, mas ao estudar e explorar as letras se pode traçar um lindo, mas triste paralelo de sua ascensão, mesmo que ele jamais opte por sentimentalismo exagerado. 

Na ótima abertura, "BUSY/SIRENS" ele comenta sobre sua vida de agora, perdendo amigos por conta de sua recente fama que não o permite fazer parte dos mesmos círculos e a vida das pessoas em Chicago, uma das cidades mais agressivas com a comunidade negra nos Estados Unidos. Na primeira parte, a produção cresce em torno de sua voz e sugere uma alienação quanto à sua vida antiga, relembrando um tanto a homogeneidade de "Blonde" de Frank Ocean e um pouco da tropicalidade de Drake. Sua habilidade em abordar relacionamentos modernos é sensacional, trazendo narrativas diretamente relacionadas à era da conectividade. Quando ele diz que não quer tentar se reaproximar das pessoas que perdeu para não ter de dizer adeus novamente é algo sincero e impactante. Já "SIRENS" é centrada em um R&B drogado, com ele entregando rimas sensacionalmente ácidas.  Sua voz é distorcida de forma sinistra no refrão, enquanto suas rimas são dotadas de uma voz fina, quase irônica. 

"I'm young, black, guilty... Heard the robber used a black mask, I fit the description, a.k.a. nigga, what's the difference?" 

Mesmo nos momentos menos brilhantes Saba continua interessante. "Broken Girls" já foi feita antes e se torna um tanto repetitiva e reclamona. Seus vocais arrastados não combinam bem com a produção, mesmo que a música provavelmente prenda um tanto na sua cabeça e te coloque dentro do seu interesse por garotas, que toma um outro nível posteriormente no álbum. A maravilhosa "Life" tem uma guitarra simples ao fundo e batidas trap eficientes, que acompanham suas rimas intoxicantes e que ficam mais insanas conforme a faixa evolui, terminando de forma caótica. O uso da produção é magistral, com ela parando e trocando de escalas conforme a história avança ou necessita. Até mesmo o uso de tiros reais, algo comum no hip-hop, tem outro nível aqui, quando Saba fala que todas as pessoas sonham até que **. O final, no entanto, é com um piano tocando jazz que segue em "Calligraphy", que com batidas enebriadas e afetadas e belas letras que circulam um tema, mas nunca realmente adentram ele, parece mais um belo devaneio, terminado de forma fenomenal com saxofone. 

O tom do álbum é bem misturado, correlacionando-o com a cidade onde vive. Por vezes o jazz mostra a beleza e poesia sonora que Chicago traz, em outras, como "Fighter", batidas urbanas, sujas, e letras sobre lutas que se seguem em sua vida mostram o lado obscuro da cidade dos ventos. Logo depois, a otimista "Smile" fala sobre seu sucesso de agora com um storytelling maravilhoso, em cima de uma batida baseada em soul e um refrão largado e arrebatador. O sucesso parecia certo para ele e seu primo Walter, que é mencionado em praticamente todas as faixas, e caso nada funcionasse, o céu os esperava, sua avó o ensinou. 

Sweet west side Chicago, two-flat apartment
Red brick and garden, that's been forgotten
Grass all splotchy, vacant lot splotchy, bank account splotchy
And we talk like we from the south
Our parents' parents from the south
And if I make a million dollars
I'll vacation in the south, and I'll

 

Em "Logout" ele não apenas soa como, mas traz Chance The Rapper em um dos melhores duetos da primeira parte de 2018. A voz de Saba está novamente distorcida e lembrando Frank Ocean mais uma vez. Aqui ambos traçam um paralelo preocupante e realista sobre como a vida online prejudica nossas ações sociais. Quando um "follow back worths more than an autograph". A performance de Chance é completamente sem emoção, de propósito, como se ele próprio estivesse cansado dessa vida, e seu controle sobre as rimas só nos faz pensar porque seu próximo trabalho não está aqui ainda. A ideia sobre a vida de artista continua a ser trabalhada em "Grey" e seu escalante jazz.  

Talvez o momento mais impactante do álbum seja em "Prom/King", onde por mais de sete minutos Saba entrega um dos storytellings mais complexos, detalhados e tristes. É uma história de ascensão, amizade, queda, traição, violência e sobretudo, a falta de conformidade em não poder fazer nada, além de um presságio do que pode acontecer a qualquer momento. O jazz era o único gênero capaz de estar lado a lado com uma história dessas sem tirar nada dela, servindo como plano de fundo para as rimas, sempre certeiras de Saba. Aqui entendemos que Walter é seu primo, que morrera esfaqueado em 2017, o mesmo que gravou um outro antes de falecer e que Saba colocou no fim da faixa. "Apenas mais um dia no gueto, ah, as ruas trazem mágoas, não consigo sair hoje de sua agenda, só espero que sobreviva até amanhã". A única parte negativa é que o álbum deveria terminar aqui.  

"Heaven All Around Me" não é uma faixa ruim, é leve e coberta de luz, com ele clamando que o céu está ao seu redor, mas a dualidade desta frase deve ser apreciada. Saba conta histórias sobre a vida no gueto de forma pouco convencional e se prova um dos melhores storytellers de hoje, em uma era onde o mumble rap tenta tomar conta do gênero.

"CARE FOR ME" é um atestado biográfico e uma contemplação, linda e impactante, que é ao mesmo tempo um pedido de alerta e uma mensagem a si mesmo, crendo que tudo deve ficar bem, de uma forma ou de outra. 

8.4

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