Crítica | Miguel - War & Leisure

Crítica | Miguel - War & Leisure

Em seu quarto álbum de estúdio, Miguel se entrega ao prazer de fazer música, nos presenteando com um projeto que, mesmo que nunca chegue à inalcançáveis alturas, oferece diversos prazeres durante sua jornada.

Miguel é um tipo de mago, um que não recebe metade do crédito que deveria no nosso complicado século 21. Um talentoso compositor, um excepcional cantor, um subestimado produtor. Não é nem sua culpa que Frank Ocean ofusca um pouco de seu brilho, mas é nossa, como consumidores, que artistas como Ed Sheeran e Charlie Puth o façam.

Em seu novo álbum ele estende suas habilidades, as reinventando dentro do próprio espectro que criou para si. Ele mostra que em talento puro, está lá em cima com poucas pessoas do cenário musical de hoje. Mas, assim como antes, isso não é o suficiente, pois ele não vai ter nenhum grande hit, ou vender uma grande quantidade de cópias. 

Ele parece estar atrasado. Após um 2016 onde a música negra teve todos os tipos de triunfo no contexto social (mesmo que não tenha sido o suficiente para prevenir o Señor Trump), 2017 viu o R&B mostrar que ser negro não significa, necessariamente, estar preso à falar exclusivamente sobre isso. Outros artistas neste ano já haviam sido peças importantes em mostrar que pessoas negras, assim como todas as outras, ainda tem direito de se apaixonar e sofrer, ou de ter casos de uma noite e se divertir. Miguel parece estar atrasado para os dois contextos, mas está anos luz a frente em juntá-los. Ele se diverte mais do que Beyoncé e Kendrick e é mais profundo que SZA e Khalid. "War & Leisure" parece seu álbum menos ambicioso, mas é um dos projetos mais subjetivamente complexos do gênero nos últimos anos. 

O que existe aqui é um artista se entregando à todas as suas preferências musicais, se divertindo e ainda assim passando mensagens e ideias extremamente relevantes. 

Sua voz ainda é um destaque estelar. No single "Sky Walker", ele e um excelente Travis Scott (isso está virando redundância) alçam vôos até os céus, deixando todos os haters para trás e curtindo seu tempo juntos. É uma faixa que funciona por não tentar ser mais do que o momento a permitiu ser. Na excepcional "Told You So", vinda direto dos anos 80, ele quer mostrar o mundo para uma de suas musas, à torná-la livre, e apesar de diversas faixas sugerirem que é uma faixa (e um álbum) sobre o armageddon, não se surpreenda se ninguém perceber isso.

Ele desfila suas habilidades como compositor de forma imagética, abrindo os significados de suas letras, aparentemente sem sentido, para a interpretação. Logo na entrada, "Criminal", ele fala em pintar os céus com fogo, confundindo seus desejos com crimes e contando com uma excelente aparição de Rick Ross, sete anos após um de seus melhores versos, em "Devil In a New Dress" de Kanye West, inclusive realizando um brinde em sua última linha. Quando ele combina a War das letras, com o Leisure da produção o álbum chega mais alto. As guitarras esparsas e as batidas quase tropicais transformam "Pineapple Skies" em uma agradável faixa onde Miguel promete à sua garota que tudo vai ficar bem, logo após olharem para cima e verem céus roxos de abacaxi. A fórmula atinge um ponto alto na animada "Banana Clip", onde há uma guerra por amor, ele não sabe em quem confiar, mas promete à sua garota proteção contra os mísseis coreanos nestes mesmos céus. Talvez estes mísseis deixem o céu roxo e a cabeça de Kim Jong-Un pareça um abacaxi, who knows?

No entanto, quando a fórmula é invertida o álbum tende a perder muito de seu apelo. Enquanto o trio "Told You So", "Banana Clip" e "Pineapple Skies" são uma bela viagem aos anos 70/80, "Wolf" me lembra negativamente "Dark Times" de The Weeknd. "Harem" é bem construída, primeiro guitarra, então batidas, então piano, mas pouco marcante e "Anointed" é arrastada em excesso e não é um bom pré-fechamento para um álbum que começa tão vibrante. Apesar de Miguel ter muito o que falar aqui, o triunfo está em como ele fala, quando ele não sucede nisso, temos mais do mesmo. 

No momento mais apocalíptico, "City of Angels", ele esquece a subjetividade e detalha a destruição da cidade dos anjos, Los Angeles talvez? O mais impressionante é que a próxima faixa é "Caramelo Duro", uma deliciosa mistura de espanhol e inglês que esquece os problemas e fala exclusivamente de amor e sexo. Mas esta é possivelmente a melhor e única parte de destaque da parte lírica do Leisure. Em outros momentos, no mínimo peculiares, ele compara seus desejos à uma transformação em lobisomem na efetiva, mas previsível e sonoramente pesada, "Wolf". J. Cole continua a me fazer levantar olhares para suas habilidades, que parecem em decadência desde "Forest Hills Drive", na descartável "Come Through and Chill". "Now" quase concerta o final por si própria, tirando todo o pessimismo de uma iminente destruição e trazendo o som da esperança. 

E qual o preço de juntar ambos estes conceitos? Fica claro quando você decide prestar atenção nos primeiros comentários acerca deste álbum. À primeira ouvida, Miguel parece estar pouco preocupado no mundo a sua volta, algo que pode enganar à qualquer ouvinte (inclusive a mim). Mas não se sinta ruim com isso, "War & Leisure" sucede em não jogar seus comentários sociais logo de cara, sendo primeiramente prazeroso, para então sim ser valoroso. Miguel não apressa ou mistura as coisas desnecessariamente, algo que apenas alguém com experiência consegue fazer.

Em um 2017 pálido em comparação à seu antecessor, criatividade foi um ponto baixo para artistas estabelecidos, com novatos sendo os responsáveis por elevarem e mudarem o panorama da música mainstream. Miguel vem tarde para o ano, mas mostra para muitos artistas R&B que, ao combinar prazeres com preocupações, novas possibilidades se abrem. O rap é o gênero número um da década, mas o R&B dominou este ano. 

8.3

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