Crítica | Vampire Weekend - Modern Vampires Of The City

Crítica | Vampire Weekend - Modern Vampires Of The City

Poucas coisas geram maior combustível para a arte do que os devaneios sobre os efeitos do tempo sobre as pessoas. Ao se tornar adulto, você volta a questionar as mesmas coisas que quando criança, apenas para descobrir que, na verdade, elas talvez nem tenham resposta. 

Em "Modern Vampires of the City", são justamente esses pensamentos, dúvidas e teorias que movem a banda composta por Ezra Koenig, Chris Tomson, Chris Baio e, até então, Rostam Batmanglij. Durante doze faixas, o grupo canta e toca sobre histórias - aparentemente reais - de amor, amizade, desilusão e aventura, apimentadas por questões religiosas, sociais e políticas, além de toda a instabilidade emocional que envolve a transformação de garotos em homens, desde as vontades de morrer jovem às incertezas sobre o futuro.

Uma das grandes qualidades do disco é a partida musical em relação ao trabalho anterior da banda. Enquanto "Contra" teve forte influência africana no seu som indie-pop, e sua auto-intitulada estreia pegava fortes elementos de world music e baroque pop, este álbum encontra o som que define a banda. O ecleticismo foi limitado, uma gama menor de instrumentos fora utilizada, as composições foram simplificadas e o resultado é um projeto que funciona, ao mesmo tempo, como um álbum de rock atemporal, tirando influências desde os anos 60 sem nuca soar retrô, e um trabalho art-pop, com tendências e elementos que apenas os anos 2010 podem oferecer.

Composto quase inteiramente em notas maiores e propulsado pela jovial voz de Ezra, o álbum soa extremamente alegre e otimista, o que serve de um contraste perfeito para suas letras cheias de incertezas. 

Essas que, inteiramente compostas por Ezra, mostram que ele é, facilmente, um dos compositores mais talentosos dos últimos anos. Apesar de utilizar uma linguagem em tese direta, há sempre um convite para entrarmos em suas viagens e experiências. Algo engraçado, pois há uma força em "Modern Vampires..." que sugere que a vida é simples e sem um verdadeiro sentido, mesmo que Ezra o procure nas menores coisas sempre que pode, sejam elas uma planta ou o ginásio de um colégio. Mais do que apenas cantar, ele interpreta todas essas histórias de forma pessoal, com sua voz, feita para festivais que celebram a juventude eterna, dotada de uma maturidade ainda incomum dentro de si.

De todos os assuntos, talvez o mais recorrente aqui seja a presença da dúvida religiosa na cabeça de Ezra. A aparente ironia com que ele comenta sobre a vastidão do mundo e a insignificância de cada um de nós em relação a ele parece ao mesmo tempo um escudo e um pedido de ajuda. Pegue a excelente abertura "Obvious Bicycle", que tem todos seus elementos orquestrados da melhor forma, onde ele narra a vida de um homem que perdeu a esperança na vida ou a melódica e contagiante "Unbelievers", quando ele próprio se coloca no meio dessa grande confusão onde vivemos. Ambas faixas possuem musicalidade e vocais confortáveis, o que apenas amplifica a dúvida sobre qual seu verdadeiro posicionamento sobre tais assuntos. O mais provável é que nem mesmo ele saiba o que achar de tudo isso.

"Step" é, de acordo com o próprio Batmanglij, uma metáfora para pessoas possessivas sobre as músicas que gostam. O ritmo se torna consideravelmente mais cadenciado, não por acaso as letras são ironicamente feitas para representar composições passadas da banda, as qual os próprios consideram densas em excesso e desnecessárias para a evolução das melodias. Já "Diane Young" e seus incessantes riffs de guittara e pontuais explosões de bateria é insanamente divertida desde o começo e pondera se morrer jovem não é a resposta para todas as nossas incertezas. "Don't Lie" é um belo e provocante convite à uma garota qualquer para que desista de algo que não mais dá certo, pois há uma vida inteira pela frente. 

A primeira metade de "Modern Vampires of the City" é fenomenal, combinando todos seus elementos para construir o mundo no qual a banda encontra sua inspiração.

Mas o álbum realmente atinge seu auge quando somos convidados a ser intrusos. Vocês se lembram de "Harry Potter e o Enigma do Príncipe"? Onde Dumbleodore tem aquela tigela onde se pode ver memórias de outras pessoas? É isso que Ezra, um geek declarado que tem seu próprio anime ("Neo Yokio", na Netflix), nos permite fazer neste que é, possivelmente, o maior feito da banda até agora. "Hannah Hunt" é inexplicável. Uma lenta balada construída em cima de piano e batidas quase mudas, onde os vocais de Ezra são tão vulneráveis e sinceros que é possível sentir todo o mundo que ele experienciou ao viver aquela história. Uma história de conhecer uma garota que o faz se desligar do mundo ao redor, de uma intensa jornada que, eventualmente, termina quando se percebe que, se nem mesmo ela é realmente confiável, então, você sabe, dane-se.

Tudo bem, há momentos que suas tendências pop se combinam de forma "estranha" e contribuem para a metade mais fraca do álbum. Pode se discutir que a agradabilidade de "Everlasting Arms" não ofereça o mesmo nível de complexidade que outros momentos, mas a faixa serve como uma passagem eficaz. Porém, são os versos quase inteligíveis de "Finger Back" e sua musicalidade jocosa; a melodia atropelada, o refrão pouco inovativo e óbvio de "Worship You"; os incomodativos vocais com pitch alterado que derrubam a bela crescente de "Ya Hey" que impedem um álbum tão bom de se tornar quase perfeito. Não que estes erros devam ser comemorados, mas fica claro pra mim a convicção do grupo em colocá-los aqui, o que é, de certa forma, um exemplo de seu foco na construção do álbum. 

Porém, da mesma forma como começa, "Modern Vampires of the City" fecha de forma impactante. "Hudson" destoa de praticamente todo o resto, com uma produção climática e sombria, com celos e batidas marciais, mas não faz mal nenhum ao projeto, apenas adiciona camadas extras a serem exploradas. Talvez seja apenas em "Young Lion", apesar de ter menos de dois minutos, que Ezra finalmente tire algo de concreto de toda a viagem feita no álbum. A produção lembra Beatles, e uma única frase é repetida quatro vezes: "You take your time, young lion". 

Provavelmente mais perguntas do que respostas tenham sido feitas no terceiro álbum de Vampire Weekend, que funciona como um retrato do mundo incerto onde vivem e de suas dúvidas se buscar a verdade é algo realmente valioso. O fato de eles perceberem que ainda tem tempo mostra que estão no caminho certo. 

9.3

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