Crítica | Jay-Z - Vol. 3... Life and Times of S. Carter

Crítica | Jay-Z - Vol. 3... Life and Times of S. Carter

A arte de ostentar, o bragging, talvez seja a maior base do rap. Por mais de 30 anos, rappers se aut-proclamam o melhor, o mais rico, o que tem mais garotas. Alguns almejam mais alto, como se cada uma dessas coisas fosse apenas uma parte de quem são, justamente por estarem acima de todos os outros. Outros tem uma missão diferente, falar sobre suas origens e suas comunidades, marginalizadas pela sociedade. E é claro, temos Jay-Z, que tem a habilidade natural de fazer tudo isso num espaço não muito maior que uma frase.

"The priest is like, "God's got him / He never did nuttin to nobody but them boys shot him" / Brandish iron, outlandish buyin' / Bentley Coupes, not bragging just simply the truth / We all from the ghetto, only difference, we go back" - Oh So Ghetto

Raramente ele precisa de mais do que uma simples menção à algo para que suas rimas se justifiquem socialmente. Não é como se ele buscasse aprovação, pela maior parte aqui sua única preocupação é rimar, e raramente tem se a impressão de que ele re-escreveu algum verso. Existem resquícios de "Vol. 2", sendo que o álbum começa aonde seu antecessor termina. Em "So Ghetto", DJ Premier mantém a atmosfera urbana, mas adiciona um toque cru de soul que encaixa perfeitamente com as letras de Jay. Mas é seguida por "Do It Again", que sucede em seu storytelling, mas assim como a outra produção de Rockwilder, "NYMP" não oferecem nada de diferente. "Dope Man", uma faixa grandiosa sobre seu passado como um traficante, mas que não é tão convincente como tentativas anteriores, também não. Nenhuma delas é particularmente ruim, na verdade, todas têm seus momentos, mas não são o motivo do porquê desse álbum suceder. E nem são seus amigos, que não conseguem segurar "Pop 4 Roc".

Ele sucede em transcender a visão das ruas, como se Jay estivesse bem acima de todas as intrigas, em um pedestal intocável para seus problemas do passado que agora não passam de histórias. Ele está menos ligado pessoalmente a cada uma das faixas, o que estranhamente contribui para sua maior habilidade; a casualidade com que entrega suas rimas. Timbaland entende bem isso, e utiliza esse recurso como poucos conseguem. A estética eletro de "Snoopy Track", a magia de fazer cada fim de bar encaixar com a batida em "Come and Get Me", a simples "Is That Yo Bitch", que é contagiante em cada parte de sua concepção. 

E é claro, temos "Big Pimpin'", uma música que soa como uma festa em um iate, gravada para as massas, mas feita como se tivesse sido concebida no mais nobre palácio egípcio e que pode muito bem ser a melhor música sobre ostentação de todos os tempos. Jay não fala sobre boas garotas aqui, e não fala sobre elas de um jeito educado. O grupo UGK fez a aparição de sua vida aqui e ajudaram a faixa a se tornar o que é, uma celebração da boa vida que nós não deveríamos aprovar. Ele expressou desgosto pro seu verso posteriormente, mas não pode nos pedir para que façamos o mesmo. 

Este não é um álbum focado em apenas um estilo, e sim aberto em uma variedade de jeitos que os anteriores não eram. Além dos toques eletros e hinos das ruas, também existe espaço para uma abordagem mais magnata, polida, próxima de "Reasonable Doubt". Agradecemos isso à Swizz Beats, que consegue colocar Jay-Z em um terno sem que ele precise tirar suas correntes ou seus Air Jordans. Em "Things That U Do" ele utiliza uma produção chinesa, e mesmo que Mariah Carey não abuse de sua voz, é uma daquelas faixas que pode ser ouvida em qualquer ambiente. Mais tarde, em "Anything", uma coleção de três músicas distintas, fecha o álbum de forma nostálgica e triunfante. Na primeira parte, "Anything" propriamente, crianças cantam o refrão assim como em "Hard Knock Life", e Jay novamente contextualiza sua subida à fama, mas dessa vez em forma de homenagem a sua mãe. “I know Momma, your little baby, but these streets raised me crazy, product of my environment, nothing can save me” ele professa. 

"Vol. 3... Life and Times of S. Carter" traz o melhor de Shawn Carter. Um álbum repleto da luxúria de hoje e das dificuldades de antes, que não mais entra na sua história do que celebra ela. Despreocupado e animado, mesmo que por vezes o assunto seja muito mais profundo e pesado do que parece, algo que apenas Jay-Z consegue fazer. Aqui ele é aquele tipo de rapper que pode rimar sobre qualquer coisa que vamos comprar. 

8.7

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